Aparados da Serra, uma área a proteger

por Jorge Hermann, integrante da Comissão de Defesa faz a apologia da luta

Aparados da Serra, majestoso santuário. Região extensa, pouco conhecida, misteriosa e bela. Seus mais de vinte cânions, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, apaixonaram um grande número de pessoas que passaram a percorrer cada meandro de sua fisionomia, uma relação íntima e intensa, um mergulho num mundo fascinante. No entanto, aquele que se apaixona pelos Aparados, leva para sempre consigo, como num encanto, uma tristeza infinita, silenciosa e incômoda. É a tristeza de quem vê o seu santuário ser destruído. Sua fisionomia original, dia a dia está sendo tomada por uma paisagem humana, desinteressante e monótona. A cobiça e a falta de visão do homem moderno estão provocando mudanças irremediáveis. As outrora abundantes florestas de araucária estão reduzidas por um desmatamento furioso, que apesar de ter praticamente dizimado os grandes exemplares de pinheiro, continua, agora, voltado para indivíduos de porte cada vez menor. Assim, além de destruir, o homem ainda consegue o feito de impedir a recuperação destas matas.

As outras formações vegetais da região, por sua vez, estão sendo vítimas de um inimigo ainda mais cruel: os reflorestamentos de Pinus elliottis. Árvore norte-americana, o pinus se adaptou formidavelmente ao nosso solo e clima. Antes tivesse sido diferente. O imediatismo dos poderosos industriais de celulose fez com que cobrissem a região com monoculturas, um verdadeiro deserto verde, completamente desprovidas de vida, uma aberração ecológica. Quem já entrou num mato de pinus sabe do que estou falando. A resina presente nas folhas impede a decomposição das mesmas e, quando no solo, formam um tapete de muitos centímetros de espessura, impedindo a germinação de outras espécies de plantas, mesmo rasteiras. O resultado disto é que nem cobras se encontram nestas plantações. Baseada numa premissa ultrapassada e equivocada de que as essências nativas não oferecem possibilidade de aproveitamento econômico, as monoculturas são símbolo de uma visão reducionista e pobre do mundo. Uma visão espiritualmente miserável que não computa os custos ambientais dos empreendimentos e que só consegue ver valor naquilo que pode ser transformado imediatamente em dinheiro. Curiosamente, esta visão, é, na verdade, um atestado de incompetência: o empobrecimento do solo, a destruição do potencial paisagístico e turístico, e o aniquilamento das matrizes genéticas que compõem a região, são atentados à nossa autonomia econômica.

Por ser uma região de clima peculiar, resultado da transição abrupta dos campos de cima da serra para a planície costeira, o que provoca uma grande precipitação anual, os Aparados oferecem condições para o surgimento de um dos fenômenos mais fascinantes da Biologia: o endemismo. É muito conhecido dentro da Biologia que ambientes com características muito peculiares podem freqüentemente abrir caminho para o surgimento de espécies com uma capacidade especial de explorá-los, o que muitas vezes significa uma existência restrita a uma pequena área. São conhecidas atualmente nos Aparados da Serra, mais de vinte espécies endêmicas, algumas confinadas numa área de poucos quilômetros quadrados. Estas plantas são especialmente interessantes do ponto de vista da preservação daquele ecossistema, pois a elucidação dos eventos que possibilitaram o seu surgimento é de grande valor para o conhecimento dos mecanismos biológicos de especiação, além de representarem indicadores da qualidade ambiental dos ecossistemas. Como vemos, por si só este potencial biológico já justificaria a preservação daquele ecossistema.

Em linhas gerais, portanto, o maior risco com que a área se defronta, é a diminuição brutal na diversidade da fauna e da flora. A diversidade é um valor intrínsico à vida, que cria relações intrincadas e fascinantes que apenas um olhar educado e sensível consegue perceber. A destruição desta biodiversidade é fruto de uma coisa: ignorância. A pobreza espiritual leva inevitavelmente ao empobrecimento dos ecossistemas.

Defender a preservação desta biodiversidade é uma obrigação daqueles que se apaixonaram pelos Aparados, seja através da educação ambiental, através do trabalho de fiscalização voluntária, denúncia, enfim, alguma coisa. A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra é um grupo de antigos freqüentadores, que há quase dois anos vem desenvolvendo um trabalho de conscientização e denúncia do que vem acontecendo nos Aparados.

Exemplo disto, é um evento chamado Arte Alerta, organizado pela Comissão, que fez um chamamento e conseguiu reunir mais de trinta artistas que se deslocaram à região e que de 5 a 26 de abril estarão expondo seus trabalhos na Usina do Gasômetro, tudo tendo como tema a preservação dos Aparados. A criação é absolutamente livre e a expectativa do resultado do trabalho destes artistas, é grande. Enfim, é mais um espaço criado para que as pessoas sensíveis reflitam sobre aquela realidade e ofereçam uma nova visão daquilo que acontece na região. Um auxílio importantíssimo.

A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra é um grupo amplamente democrático e aberto. Reúne-se às terças-feiras à noite na sede da AGAPAN (Praça Osvaldo Cruz, 15 – sala 1607 – Edifício Coliseu – tel. 228-7352). Compareça, sua presença é importante. Ser ecologista já não é um adjetivo, é hoje uma condição indispensável a toda pessoa consciente da situação.

Nota do Editor: A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra ainda edita boletim informativo próprio sobre suas atividades. O de nº 3 (setembro/outubro de 1991) publica levantamento das excursões e eventos dos quais ela participou/patrocinou naquele ano e um texto de Manuel Brum sobre a estada na Serra do Rio do Rastro: a Comissão atua também pelos Aparados da Serra de Santa Catarina.

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