A Crise da Esperança

Artigo de Rodrigo Cambará Printes

Espécies são como bandas de rock. Muitas surgem no fluxo das circunstâncias. Muitas são realmente originais e outras nem tanto. Mas poucas ficarão, porque segundo a lei da impermanência (“nada é, tudo está”), será difícil conservar uma estratégia de sucesso. Também como as bandas de rock, algumas espécies ficarão por muito tempo no topo, outras serão efêmeras e desaparecerão ainda antes de deixar qualquer registro (um CD ou um fóssil….).

A vida não é uma linha reta e o tempo é uma dimensão multidimensional. Agora é a face do tempo onde todos os outros tempos se encontram. O que somos hoje e como hoje vivemos depende dos eventos do passado; é como se hoje fosse a ponta de uma cadeia de eventos pretéritos que nos trouxeram até aqui.

Ou seja, o passado não passa. E como o futuro começa agora, então agora é o momento crítico da dimensão mutidimensional que é o tempo. Para as outras espécies que nos acompanham neste mundo também esta perspectiva temporal é válida. As que permanecem apresentam atributos desenhados no passado e terão que, com estes atributos, responder às exigências de hoje. Mas haverá sempre um atraso entre a resposta da seleção natural e as novas exigências que o ambiente impõe. Ignorando isto, o ser humano está levando muitas espécies à extinção dentro do irrisório período de tempo que corresponde a sua passagem pelo planeta.

Bem, todo mundo sabe desta última parte, mas vamos reconstituí-la historicamente. Imagine que uma série de atributos naturais de uma espécie tenha sofrido mudanças adaptativas relacionadas que conduziram esta espécie a uma situação de sucesso em seu ambiente (o que os evolucionistas chamam de suíte adaptativa), e depois a uma verdadeira predominância sobre as outras espécies.

Foi o que aconteceu desde que o gênero Homo pisou pela primeira vez o solo deste planeta, há cerca de um milhão de anos atrás. Então o macaco-de-sapatos tornou-se arrogante, e além de obter o maior pênis entre os primatas, conquistou também o maior cérebro, algo descomunal, com 1400 cm3, passando a fazer desta terra um local de conflitos. E quanto mais teve tempo para pensar, mais o macaco-de-sapatos fez coisas para melhorar seu conforto. Atingiu-se então um ponto de onde se torna difícil voltar: primeiro as tecnologias satisfaziam necessidades, depois passaram a criar novas necessidades.

E mais: Tecnologia, a Deusa do século XX, fez com que o macaco-de-sapatos passasse a negar sua própria natureza. Quanto mais tecnologia, tanto menos animal ele se sentia e hoje vive-se numa tecnocracia, com o mundo ao alcance do braço, via internet, para alguns, mas o pão longe das mãos, para a maioria. A tecnologia exagerou as diferenças individuais e sociais, agravou a distribuição desigual de renda no terceiro mundo e levou a natureza a um declínio nunca antes imaginado. Perda de florestas, poluição das águas, extinções massivas de espécies e produção exagerada de lixo são apenas alguns exemplos.

Mas a diversidade é a matéria-prima da vida e até no comportamento ela se manifesta. Graças a esta diversidade de comportamentos, há neste mundo pessoas trabalhando pela conservação da natureza. Elas batalham todos os dias quase sem apoio e reconhecimento das instituições. Conseguem no máximo sobreviver à custa de projetos ou consultorias e raramente têm um emprego fixo. Não é de impressionar que sofram crises, que se sintam sufocadas pelas pressões deste planeta tão “moderno” e que pensem às vezes que o futuro da humanidade se apresenta no mínimo obscuro.

Tal é a crise da esperança que abala ora uns ora outros entre os conservacionistas. Mas via de regra a crise da esperança é transitória. Porque assim como a vida é absurda, a energia e a vontade para defendê-la também o são. E quantas vezes nós não pudemos resolver os problemas, mas passamos por cima deles com exímia eficiência?

E quantas vezes nós triunfamos silenciosamente no nosso dia-a-dia, enquanto o inimigo pensava que vencia? Nossa vantagem é que o inimigo é míope. Esta mesma miopia que o leva a ver a natureza como um bem para o consumo imediato o trai, colocando-o a mercê dos seus próprios instintos destrutivos ….

A diferença entre o suicida e o herói é uma idéia bastante explorada pelos psicólogos. Enquanto o suicida se mata porque não vê objetivo algum a sua frente, o herói luta até a morte por um objetivo. Coletivamente, a humanidade hoje parece ter perdido seus objetivos e passado a executar um comportamento suicida em relação à utilização dos recursos naturais. Esta é uma crise de valores e não uma crise de esperança, portanto trata-se de algo muito mais difícil de ser superado.

Conseguiremos deter as extinções? Conseguiremos resolver os conflitos habitação versus conservação, uso humano da terra versus preservação dos ecossistemas? Encontraremos uma política de desenvolvimento que leve em conta a limitação imposta pelos recursos e que considere os limites naturais para o crescimento econômico? Quanto tempo ainda teremos para decidir?

O ocaso do século XX é um convite à reflexão. Ou nos reconciliamos com nossa própria natureza ou compramos a ilusão de sermos semideuses, ao custo da nossa sobrevivência. Ou partimos para o bom combate ou nos entregamos às decisões imediatistas dos fiéis seguidores do chamado “desenvolvimento” econômico e da democracia de mercado.

Jamais esperemos que alguém resolva nossos problemas. A revolução da esperança depende muito de nós. Ela precisa acontecer todos os dias e para os que nela acreditarem a única e verdadeira derrota será entregar a esperança. A esperança não é a última que morre; ela não morre, não pode morrer.

O autor é Biólogo, Pós-Graduado em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre .

(Pág. 3)