Cancro Cítrico não é problema

pela Equipe Técnica da Fundação Gaia

Foi cometido, há vários anos atrás, um incrível vandalismo oficial que afetou centenas de citricultores brasileiros. A Campanha Nacional para Erradicação do Cancro Cítrico (Canecc) conseguiu quase exterminar a citricultura do Paraná e só não levou adiante este objetivo no Rio Grande do Sul por causa da forte e determinada posição de alguns poucos ecologistas como o agrônomo José Lutzenberger. Quando encontravam sintomas desta doença numa única folha, de uma única planta de um viveiro ou pomar, cortavam e queimavam impiedosamente todas as cítricas de todo um município. Esta determinação foi diminuindo para 1000, 500, 100 metros de raio a partir daquela planta, graças a reação desses indignados cidadãos. Não adiantavam protestos. Era um ato de guerra. Felizmente, aquela campanha acabou morrendo, depois de duras discussões e, inclusive, processo judicial.

A filosofia que fundamentava a ação da campanha parte de um postulado errado: o agente patogênico, a bactéria Xanthomonas citri, é considerado inimigo arbitrário, feroz, capaz de, quando presente junto a qualquer planta cítrica, acabar com todo um pomar, com todo um viveiro e até com toda a citricultura brasileira. Se isso fosse uma verdade científica teríamos que erradicar, por exemplo  todas as parreiras atacadas por bacterioses, ou quem sabe todas as plantas cultivadas contaminadas por bactérias ou exagerando, todos os seres vivos que tivessem uma bactéria no seu organismo.

Na realidade, parasitas e agentes patogênicos não são inimigos arbitrários todo-poderosos na destruição. Se assim fosse, a Humanidade teria sucumbido às epidemias de pestes e outras. Todas as grandes epidemias só afetam parte de uma população. Os sobreviventes saem vacinados. Pragas e parasitas são indicadores biológicos que nos dizem estar nossas plantas ou animais doentes ou desequilibradas. Elas não têm vez em organismos sadios, metabolicamente equilibrados.

A solução, portanto, não está na erradicação. A bactéria do cancro cítrico jamais será erradicada. Ela é cosmopolita, ou seja, vive em diversas partes do planeta e em diversas plantas da família das Rutáceas, a família dos citros. Se a Secretaria da Agricultura, de Ciência e Tecnologia e a Emater pretendem fazer um trabalho realmente científico, sério, racional e humano (e todos queremos ajudá-los nisso!), terão que inverter a atual filosofia de trabalho. Vamos ensinar aos citricultores gaúchos métodos de cultivo que produzam plantas sadias que não precisam temer o cancro.

Se a nossa citricultura está hoje vulnerável a tanta doença e praga é porque os atuais métodos de cultivo estão errados. Podemos ler folhetos dos órgãos governamentais sobre condução de pomares que ensinam exatamente o contrário  do que deveriam ensinar para fazer plantas sadias, resistentes a parasitas e enfermidades. Em toda a parte vemos pomares doentes, com folhas amareladas, cloróticas. Isto porque a maioria dos agricultores seguindo orientação dos técnicos governamentais insiste em lavrar profundo, em fazer lavoura de milho e mandioca entre as linhas de árvores, já com espaçamento insuficiente, e principalmente usar adubos nitrogenados amoniacais em altas quantidades, como uréia e sulfato de amônio além de usar e abusar de agrotóxicos como os herbicidas, fungicidas e inseticidas que desequilibram a fisiologia das plantas.

Vamos aproveitar construtivamente  o dinheiro da pesquisa oficial e do Programa Estadual de Citricultura. Vamos ensinar ao citricultor a melhorar os pomares e a fazer viveiros bem feitos, dentro dos conceitos de uma agricultura ecológica: espaçamento adequado, enxertos que levem em conta resistência e afinidade, nunca lavrar profundo, manter cobertura com leguminosas e plantas nativas que nunca será capinada, apenas roçada, adubação orgânica bem madura, de estercos bem compostados ou de biofertilizante maduro, adubação mineral de solubilidade lenta, aplicações não de venenos, mas de substâncias que fortaleçam as plantas e quebra-ventos.

Trabalhos preventivos, para se contrapor ao alastramento do cancro enquanto a maioria das plantas for suscetível, deverão se limitar a localizar e tratar as plantas afetadas e a manter o viveiro ou pomar em quarentena até o desaparecimento total de infecções. Após, poderão ser liberados.

A verdadeira ameaça à citricultura gaúcha não está no cancro cítrico, o grande perigo está nos métodos de trabalho com o solo e com as plantas recomendados pela agronomia oficial. Ao invés da erradicação de viveiros e de maus tratos aos pomares, sugerimos a aplicação de técnicas ecológicas e regenerativas na instalação e manejo dos pomares.

Fundação Gaia,  Julho de 1998

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