Jorge Herrmann comenta o trabalho da ASSECAN – Planalto das Araucárias

Em carta divulgada no site da ASSECAN – Associação Ecológica Canela, associada da APEDEMA/RS, o professor e artista Jorge Herrmann comenta a importância do trabalho realizado por Cilon Estivalet e os companheiros da ASSECAN há mais de 20 anos para a conservação do ambiente natural em Canela, RS, que redundaram na criação da Reserva Particular do Patrimônio Natural Bosque de Canela. Herrmann denuncia mudanças na paisagem da região do Município, sem critério e sem controle. 

Segue a íntegra da carta:

 

CRÔNICAS DA PAISAGEM

O Bosque de Canela –  apontamentos de campo

21 de Outubro de 2013

A velha sapopema se destaca em meio à floresta. É capaz de abrigar até quatro adultos de pé em seu “útero”, uma enorme cavidade que ocupa quase toda a base do tronco. Esta grande árvore é remanescente de uma floresta primária que foi parcialmente derrubada para a extração do pinheiro e outras madeiras de lei. Foi preservada sabe-se lá por que razão, assim como suas duas irmãs, um pouco mais jovens. Estou no interior do Bosque de Canela, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, área de preservação mantida graças à abnegação do ambientalista Cilon Estivalet, sua companheira Rosvita Bauer e seus pares da ASSECAN – Associação Ecológica Canela-Planalto das Araucárias. Vim a Canela com uma missão específica: trazer às crianças das escolas próximas à reserva, um momento de experimentação do desenho como forma de manifestar sua percepção da Natureza.

Cilon é um incansável personagem na tarefa de levar às pessoas uma nova possibilidade de percepção da vida e da paisagem. Criou esta reserva, e ao longo de mais de 20 anos, tornou esse lugar uma referência para a educação ambiental da região, organizando trilhas, vivências e inesquecíveis experiências de contato com o mundo natural.

Com alegria, participo do projeto “Bosque de Canela na Escola”, criado por Cilon, e encontro crianças curiosas e vivazes, que respondem com inteligência às minhas provocações. Minha preocupação é mostrar como um lugar é capaz de guardar as marcas das ações do ser humano. E as crianças dão mostras de compreender perfeitamente o que quero dizer.

Aqui nesta região, está em curso uma profunda alteração da paisagem, fruto de ações sem reflexão, sem critério, e praticamente sem controle. O bosque era antes mais silencioso. Hoje, de dentro do mato, já é possível ouvir um ronco surdo e incessante. É a “pequena” Canela, cheia de automóveis. Aqui, como em outros lugares, a face ruim da civilização avança, e envia alguns sinais inquietantes: o ruidoso ritmo dos “bate-estacas”, o lixo e… caçadores. Estes, costumam invadir a área nos dias em que Cilon está ausente. É gente de “fino trato”, que costuma reagir de forma, digamos, muito pouco educada, quando flagrados. Só costumam respeitar a Patrulha Ambiental, que quando necessário, sabe usar métodos persuasivos, como a prisão em flagrante. Por aqui há bugios, cotias, veados do mato, e uma rica variedade de aves. Vi uma cotia pastando no jardim, ao lado da casa sede O veado do mato, que era freqüente por aqui, ultimamente não tem sido visto, o que é motivo de preocupação. Aqui e ali, a mata renascida revela grandes pinheiros, uma diversidade de onze caneleiras e outras espécies nativas de porte, entre elas, é claro, as velhas sapopemas. Estas sapopemas, são árvores seculares, que testemunharam acontecimentos obscuros. A seus pés, se desenrolou um passado humano cheio de conflitos. Por aqui transitou gente do mato. Essa gente vivia em casas semi-subterrâneas, que deixaram profundas cicatrizes circulares na terra. Aos pés dessas árvores, os descendentes dessa gente de pele escura, foram desalojados e dependendo da circunstância, massacrados, por pessoas de pele branca, a quem nada nesse lugar parecia transmitir algum sossego. Este passado ainda permanece pouco esclarecido. Talvez por pouco tempo.

Vou caminhando dentro do Bosque, parando aqui e ali para desenhar. E vejo que ao longo desses anos todos de convívio com o Cilon, essa floresta tonou-se uma espécie de híbrido. Por toda parte, apresenta sinais de uma suave presença humana. São esculturas, bandeiras, fitas, mensagens em garrafinhas, pequenos labirintos, totens, inscrições e outras singelas intervenções que antes de tudo, procuram dialogar com esse lugar. Dá para dizer que esta é uma floresta que de certa forma, se tornou humana. Mas se por aqui há uma floresta que se tornou um pouco humana, também há um homem que se tornou um pouco floresta. É o Zé do Passarinho, nascido há 55 anos na região. Artista, andarilho, observador e pesquisador da imensa diversidade biológica dessas serras, o Zé é capaz de ficar horas dentro do mato, só para captar o som de um passarinho. Que ele inclui em seu arquivo de sons, já com mais de uma centena de pássaros registrados. É um personagem singular. Mergulha no mato que nem bicho, para emergir com novos sons e preciosos detritos do mato, que lhe servirão de matéria prima para seu rústico e belo trabalho de escultor, um verdadeiro fruto humano dessas matas.

Depois de realizar as oficinas de desenho nas escolas, fiquei divagando sobre os possíveis resultados da educação ambiental. Que frutos produzirá, nunca se saberá de antemão. Cada criança é uma mensagem para o futuro, uma garrafa no mar. A que praia chegará? Não tem como saber ao certo. Cabe-nos apenas acompanhá-las com zelo e carinho, até onde nossa vista puder alcançar. De qualquer forma, ao final desta experiência com as crianças de Canela, sou capaz de ao menos avaliar o efeito delas sobre mim.

Um dia antes de ir a Canela, experimentei musicar o poema “O Tesouro da Casa Branca”, de Manuel Estivalet, filho de Cilon. É inspirado numa história de Simões Lopes Neto, sobre um cacique que protegia um tesouro na floresta. Ao mostrar a música para as crianças, sua reação foi tão especial, que resolvemos então gravar a música em estúdio. É uma homenagem aos protetores das nossas verdadeiras riquezas: a mata, os bichos, e as pessoas… Esta música está em meu site, no link “Acervo”.

No retorno, passo por Gramado e Canela, e me deparo com uma exuberância cada vez mais superlativa, que parece não ter limites. Gramado, em particular, se tornou um verdadeiro conto de fadas, importado de um mundo distante. Mas às margens dessa exuberância, há efeitos colaterais. Uma grande e crescente população marginal gravita em torno desse mundo ideal, povoando outras realidades não tão exuberantes assim. E a paisagem também apresenta os efeitos do crescimento dessas cidades. A subida da serra, que sempre foi motivo de orgulho, hoje está ficando feia, descontínua, cheia rupturas. A cobertura florestal que revestia os morros impressionantes e que lhes dava unidade, está fragmentada por pedreiras, plantações de árvores exóticas e abertura sem cuidado, de novas frentes habitacionais. A paisagem está ficando remendada. Enquanto desço a serra que já foi tão linda, fico pensativo e um pouco triste. Que mundo as crianças herdarão de nós? Estamos insistindo no caminho do crescimento, sem lembrar que crescimento não é necessariamente algo positivo, afinal, como certa vez ouvi José Lutzenberger dizer, coisas ruins também crescem…

Teremos afinal, o direito de privar as crianças das belezas que não criamos?

Ver outras imagens postadas em www.jorgeherrmann.com (por ordem de leitura): Sapopema (2013); Bosque (2008); Bromélia (2013); Tótem do Banhado (2013); Obra de Zé do Passarinho (2013); Bosque (2008); A Casa Branca do Bosque (2013), apontamentos de campo e releituras ( Jorge Herrmann)

As “Crônicas da Paisagem”são contribuições de um artista, para que se dê atenção ao mundo que se descortina muito além de nossas cidades. Minha preocupação, assim como a de tantas outras pessoas, é a preservação das paisagens com identidade, capazes de amenizar, e quem sabe, nos ajudar a reverter a crise ambiental da qual todos somos responsáveis.

Esta e outras crônicas podem ser visualizadas na íntegra em www.jorgeherrmann.com

Atenciosamente, JorgeHerrmann