José Lutzenberger faleceu há 20 anos e faz muita falta

Há exatos 20 anos falecia em Porto Alegre José Antônio Kroeff Lutzenberger. Era apenas um indivíduo mas assumiu a luta de muitos em prol de uma nova visão de desenvolvimento e comportamento ético para com a natureza e em respeito às gerações futuras. A presença dele em Porto Alegre, presidindo a AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, apoiado pelos seus militantes a partir de 1971 até 1983, deixou tontos administradores públicos e empresários que propunham projetos mirabolantes.

Foi também empresário, lutador pela Amazônia e pelos índios, atuou contra a bomba nuclear brasileira, organizador da Conferência da ONU para o Meio Ambiente ocorrida no Rio de Janeiro em 1992, como Secretário do Meio Ambiente na presidência da República e ativista respeitado internacionalmente. Foi paisagista no Parque Estadual da Guarita e em diversas outras regiões. Criou a Fundação Gaia e com ela viabilizou diversos projetos entre os quais o Rincão Gaia, até hoje exercendo com sucesso seu papel educativo.

Lutzenberger faleceu na Santa Casa de Misericórdia e estava em meio a um telefonema da sua filha Lilly Lutzenberger. É ela quem conta ao AgirAzul.com:

“Foi horrível”

Meu pai faleceu de uma parada cardíaca no hospital Pereira Filho, onde ele tinha se internado por alguns dias para se submeter a uma bateria de exames. Seu enfisema e insuficiência cardíacas já estavam muito avançados e os exames eram para ver como deveria seguir seus tratamentos.

Na véspera, eu ainda o visitei no quarto com as minhas meninas, que, na época estavam com 10 e 8 anos. Ficamos ali com ele, conversando mansamente. Ele parecia sereno e razoavelmente estável, só recebendo um pouco de oxigênio pelo nariz. Mas sentado ereto na cama, bem lúcido e animado com nossa visita.

Saímos de lá com a intenção de voltar no dia seguinte. Na manhã seguinte liguei para o seu quarto, ele atendeu, disse alô e tudo ficou em silêncio. Prevendo o pior, interrompi a chamada e liguei imediatamente para a enfermaria, pedindo para correrem lá.

Depois, pulei num táxi, me mandei para lá o mais rápido que deu e subi correndo até o seu quarto (naquele tempo ainda era possível circular livremente pelos hospitais). Mas já era tarde. Encontrei a porta escancarada e lá dentro uma desconcertada equipe médica que acabava em vão de tentar reviver o paciente.

Morreu vítima de infarte.

Ele estava terminando de tomar o café da manhã, rodeado pelos jornais do dia e alguns do muitos periódicos científicos que assinava regularmente. Foi horrível.

Lutz e o Rincão Gaia

Também neste sábado, Lilly publicou no perfil da Fundação Gaia no Facebook o texto que segue,

Prodigiosa Gaia

por Lilly Lutzenberger

Precisamos de uma nova ética, na verdade muito antiga, holística e abrangente, uma ética que abrace toda a Criação, uma ética baseada no princípio fundamental, proposto por Albert Schweitzer, de reverência pela vida em todas as suas formas e manifestações.

José Lutzenberger

A tarde vai findando, morna e gentil. É outono no Rincão Gaia. Reflexos dourados dançam suavemente sobre a água do Lago das Estrelas. Aqui e ali, estremecimentos quase imperceptíveis quebram a lisura da superfície, indicando a presença de peixes. Reclinado numa surrada espreguiçadeira sobre a balsa de madeira amarrada à margem, Lutz lê um exemplar da revista Der Spiegel, o semanário alemão que assina há quarenta e cinco anos, desde 1957, sem nunca ter pulado um único número.

Um Martin Pescador surge no céu e executa vários voos rasantes, antes de pousar sobre o galho seco de um velho maricá, a poucos metros dali. Lutz percebe a chegada da ave, põe a revista de lado devagarinho, e observa. De súbito e em alta velocidade, ela mergulha de cabeça no lago, ressurgindo em seguida e voltando para seu posto no galho com um pequeno peixe se debatendo no bico. Com alguma dificuldade, consegue engoli-lo inteiro, ainda vivo. Repete esta operação meia dúzia de vezes, sempre com a mesma destreza e precisão, até ficar saciado. Então, limpa o bico, esfregando-o no galho e voa para longe.

Boa e merecida refeição, meu amigo, murmura Lutz, com um sorriso sereno estampado no rosto descarnado. Ele está com setenta e cinco anos, os últimos quatro ou cinco sofrendo limitações crescentes por conta da insuficiência cardíaca e de um enfisema pulmonar em estágio avançado. Aquele homem outrora combativo e cheio de energia, incansável em sua luta em prol da mãe Terra, deu lugar a uma pessoa de movimentos lentos e contidos, norteados por uma constante falta de ar. Sente que seus dias vão chegando ao fim, por isso passa todo o tempo que pode no Rincão Gaia, o pequeno paraíso natural que concebeu e ama profundamente.

Ele retoma a revista, mas logo a larga outra vez para perder-se na contemplação mansa do lago e da paisagem verdejante ao redor. Como tudo isso é belo, admira-se. Como Gaia é prodigiosa. Com os olhos da memória, visualiza a fisionomia daquele lugar quando o conheceu. Lhe é difícil acreditar na formidável transformação ocorrida no decorrer de menos de duas décadas. Onde ora está sentado, flutuando sobre as águas límpidas e palpitantes de vida do lago, havia uma gigantesca cratera, antiga pedreira de basalto abandonada, rodeada por uma paisagem lunar composta de brita, pó e grandes manchas de breu. Há anos nada brotava nem crescia naquele lugar, gigantesca e estéril ferida de pedra cravada em meio às suaves coxilhas do Pampa Gaúcho.

Então, surgiu a oportunidade de recuperar aquele espaço, de dar uma nova chance à vida, mostrar ao mundo do que ela é capaz. Lutz ficou entusiasmado, aquele deserto antropomorfo era o cenário ideal para demonstrar na prática a força de recuperação de Gaia. Arregaçou as mangas e pôs mãos à obra: adubou um pouco daqui e dali, plantou cactos e outras espécies suculentas no terreno devastado e seco, e deixou que a chuva se acumulasse na hostil cratera, que, em poucos anos, transmutou-se num belo lago de águas cristalinas, rodeadas de verde. Peixes e outras criaturas aquáticas apareceram, seus ovos trazidos nos bicos dos pássaros que ali vinham matar a sede. Algumas construções foram erguidas, harmoniosamente inseridas na topografia do lugar. Com o passar do tempo, novas plantas e animais foram se chegando. A biodiversidade perdida regressou pujante.

Mas quem fez todo o trabalho foi Gaia, eu apenas dei um empurrãozinho camarada. Quando paramos de agredir a natureza e a deixamos em paz, ela se cura e regenera sozinha, sabe fazer isso melhor do que ninguém. Se, ao invés de combatê-la brutalmente, nos unimos a ela, trabalhando em parceria e respeitando suas leis, o resultado é ainda melhor. O oásis de beleza e vida que surgiu aqui em tão pouco tempo, literalmente a partir do nada, é prova disso e pode reproduzir-se me qualquer outro lugar. Quando, ao invés de subjugá-la, começarmos e colaborar com Gaia, todos sairão ganhando.

Todos sairão ganhando, todos sairão ganhando. Lutz repete estas palavras baixinho, numa cadência, como se fosse um mantra, até pegar no sono. Quando desperta de seu cochilo, já é noite fechada e a superfície do lago, perfeitamente espelhada pela total ausência de vento, reflete o magnífico céu estrelado dos pampas.

Lutz deixa-se impregnar por aquele espetáculo, embevecido.

– Quero ficar aqui para sempre.

E em Gaia ficou.

Homenagem aos 20 anos do falecimento do ecologista José Lutzenberger escrita por sua filha Lilly Lutzenberger.

E a Lara Lutzenberger, filha do Lutzenberger, também publicou no perfil da Fundação Gaia no Facebook. Lara é a presidente da instituição:

“Nós seguimos amando e honrando ele”

por Lara Lutzenberger

Meu pai, nosso Lutz, voou para outra dimensão e hoje fazem 20 anos.

Nós seguimos amando e honrando ele, zelando por ele no Rincão Gaia e fazendo deste um lugar sempre mais vital, onde ele e sua mensagem seguem tocando e inspirando milhares de pessoas. Pensando melhor, ele não voou para outra dimensão.

Seu olhar, sua atitude, seu jeito de ser, estão impressos nos beija-flores, no umbú, nos carás, nos cactus, em todos os seres e na ampla e encantandora paisagem do Rincão Gaia.

E sua mensagem de pragmatismo, está transcrita na transformação e movimentos contínuos que percebemos naquele espaço e que vão um tanto além da biodiversidade que se multiplica. Esta está expressa na linda convergência de pessoas que ali se sentem amparados e fortificados para empreender soluções no âmbito da agricultura e pecuária regenerativas, das construções integradas à natureza; do manejo de resíduos; do uso mais consciente e da geração energética para o atendimento das nossas necessidades, também revendo estas criteriosamente.

Meu amado pai não voou para outra dimensão, ele ampliou a sua dimensão e sua força segue pulsando!

Lara Lutzenberger
Presidente da Fundação Gaia
14 de maio de 2022

Para saber mais sobre José Lutzenberger:

Fundação Gaia, com textos de Lutzenberger em diversas línguas

Lutz Global, projeto da historiadora Elenita Malta Pereira, com colaborações

— Página na Wikipedia em português, uma biografia

— Página da Wikipedia alemã

AgirAzul.com.br com textos — pesquisa aqui

— Artigo de Cristiano Goldschmidt no Matinal Jornalismo — ver aqui

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