Categoria AgirAzul Memória (Números Impressos)

porEditor

O Plano Diretor e os habitantes esquecidos de Porto Alegre

Artigo do Biólogo  Gerson Buss

Uma das características que fazem com que alguém seja nativo de um determinado lugar é o fato dele conhecer o lugar onde vive. E que conhecimento é esse? É saber o clima, conhecer as plantas, os bichos, os lugares, saber os caminhos que levam aos lugares importantes pra ele, conhecer as pessoas e saber se comunicar com elas.

Nossa vivência urbana, televisiva e global nos afasta da vivência local, do conhecimento do mundo natural e por conseguinte, das pessoas. Como não observamos os relacionamentos do mundo natural, nossos relacionamentos da vida pessoal se tornam superficiais. Como não observamos as causas e as consequências, achamos que “podemos tudo”. Vivemos num meio artificial, nossa cidade, com um grande número de indivíduos de uma única espécie, a nossa, e essa situação nos cria a ilusão de que é isso que precisamos e que o resto não nos atinge, podendo ser descartado. Senhores do caótico meio urbano queremos agora, com essa mentalidade, planejar o desenvolvimento do município. E nesse contexto, imaginamos o município como uma grande cidade, as áreas naturais como áreas a serem ocupadas, as praias como áreas que necessitam calçadões e iluminação, e por aí vai.

O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental foi elaborado para atender as necessidades de uma espécie, sem levar em consideração que para uma existência saudável dependemos de todas as demais espécies. Das três espécies de primatas que habitam nosso município, só nos lembramos de uma, a nossa. O que falar então, do Graxaim-do-campo, da Figueira-de-folha-miúda, da Capivara, do Gavião-caramujeiro, da Lontra, do Ingá, etc. Todas essas espécies tem populações, que habitam um determinado lugar e que se relacionam de alguma forma conosco. E com isso, chegamos a conclusão que todos os demais habitantes do Município de Porto Alegre estão sendo esquecidos.

O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental no máximo de sua evolução reconhece apenas a diversidade do uso humano das áreas, esquecendo, ou não considerando, a diversidade biológica do município. Eu me pergunto, será que os técnicos da FLACAN, da Secretaria de Planejamento Municipal e os demais membros da equipe que elaboraram o Plano conhecem o Município de Porto Alegre? Eu acho que não, imagino que eles conheçam somente a cidade de Porto Alegre, pois só isso explica o fato das questões relativas ao Meio Ambiente Municipal estarem tratadas tão superficialmente, ao contrário da questão da habitação, por exemplo. Além disso o PDDUA tem propostas extremamente preocupantes, como a  criação de uma zona de ocupação intensiva ao lado da Reserva Biológica do Lami; de criarem um corredor agro-industrial entre o Morro São Pedro e o Morro da Extrema; entre outras.

Será que eles sabem que ainda existem bugios no Morro São Pedro, Morro da Extrema , Lami e Boa Vista e que para a sobrevivência dessas populações é extremamente necessário que sejam preservadas as conexões de mata entre essas áreas ? Senão, a presença do bugio vai se tornar apenas uma lembrança vaga na cabeça de alguns pesquisadores e dos moradores mais antigos. E um dia vai ser esquecido. Quem mora hoje no Bairro Cristal não imagina que na década de 60 ainda existiam bugios nas matas do Bairro, e quem mora hoje na Ponta Grossa também perdeu a oportunidade de ouvir um dos sons mais impressionantes do mundo natural, que é o ronco de um bando de bugios.  Assim como foi esquecida a onça pintada que, na época da fundação da cidade, foi morta onde hoje é  a Cidade Baixa. Será que vai ser esse o destino da fauna silvestre em nosso município?

Além de toda a importância desses animais para o ecossistema, existe um aspecto importantíssimo que estamos desconsiderando, estamos perdendo os personagens que embelezam o fenômeno da existência. Estamos transformando o Teatro da Vida em um Monólogo da Espécie Humana. Quem de nós já viu uma lontra brincando no Arroio Lami, filhotes de tatu voltando para a toca,  não se assustou com o grito de alerta de uma capivara. Isso ainda é possível em nosso município. Resta-nos fazer o possível para que tais experiências não passem a existir somente na memória de alguns, e que as futuras gerações de cidadãos Porto-alegrenses

(Pág. 11)

porEditor

Aumenta oferta de Alimentos sem agrotóxicos

O movimento por uma agricultura sem o uso de agrotóxicos está se multiplicando no Estado mais meridional do Brasil, o Rio Grande do Sul. Já são sete feiras semanais, realizadas em Porto Alegre, Pelotas, Passo Fundo, Viamão e Caxias do Sul.

Na capital gaúcha, além das duas feiras principais, organizadas e promovidas pela Coolméia – Cooperativa Ecológica, temos os pontos de oferta realizados pela Prefeitura Municipal.

Informa Glaci Campos Alves, da Coolméia, que também está havendo preocupação em se promover as sementes ´crioulas´ em oposição à Monsanto e outras grandes transnacionais da química que até com apoio da Embrapa já começaram a comercializar produtos oriundos do manejo de gens em experiências de laboratório.

“Isso tudo também representa a busca, por parte de movimentos de consumidores, de alimentos livres de resquícios tóxicos”, diz Glaci.

Peça informações sobre vendas de produtos ecológicos mais perto de você.

  • Contatos: Fone/Fax (051) 333-4211 ou na Av. José Bonifácio, 675 – sobreloja -, Porto Alegre, RS Brasil.

(Pág. 2)

porEditor

As SMAMs nas administrações públicas municipais

Artigo de Cláudio Turtelli

É comum observamos verdadeiros absurdos quando nos deparamos com informações e medidas oriundas das Secretarias Municipais do Meio Ambiente – SMAMs, aqui no Brasil. O que vem acontecendo, e de maneira generalizada, é o grande equívoco que existe em relação às verdadeiras atribuições que devem ser desenvolvidas por este importante mecanismo gerenciador da administração pública.

Lamentavelmente, na maioria das vezes por arranjos políticos, as Secretarias do Meio Ambiente nas prefeituras brasileiras são conduzidas por pessoas totalmente despreparadas para as funções técnicas e administrativas que o cargo requer, ou, quando muito, são pessoas ligadas a movimentos de defesa aos animais, vegetação e outros, isoladamente, deixando a entender para população menos avisada que a proteção ao ecossistema se resume somente a esses aspectos.

Analisando o conteúdo das inúmeras conferências nacionais e internacionais sobre as atividades dos cientistas ambientais que hoje estão à frente de organismos estatais de meio ambiente, verificamos no perfil internacional, ao contrário do que assistimos por aqui, que a verdadeira função das SMAMs é atuar de maneira integrada com a administração pública (prefeitura), servindo como uma espécie de consultoria e assessoria, além de fazer o patrulhamento ambiental constante às demais secretárias, autarquias e outros órgãos da administração pública municipal.

Para que isso aconteça, o órgão ambiental deve possuir em seus quadros, profissionais qualificados para criar e manter um Sistemas de Gerenciamento Ambiental que contemple todas as esferas da administração pública. Saliento que o orçamento anual do  referido órgão, deve cobrir apenas as despesas com manutenção mínima estrutural, ficando os custos de projetos e implantações das medidas ambientais, para as secretarias, autarquias e outros envolvidos, dentro e fora da administração.

Esta medida de caráter econômico, desvinculando o custo operacional embutido na ação ambiental, daquele que gera a medida, garante ao aparelho, a possibilidade de maior autonomia na fiscalização e cobrança das normas ambientais preestabelecidas.

Para que uma administração municipal realmente tenha um órgão ambiental eficiente e verdadeiramente funcional, algumas medidas preliminares devem ser adotadas.

Entre estas medidas estão: a elaboração de um Projeto de Gerenciamento Ambiental Integrado, alcançando todos os setores da administração pública, possibilitando a implantação de planos e programas de atividades de prevenção e controle de poluição ambiental, tanto nas áreas internas (serviços públicos), como nas áreas externas (atividades privadas); elaboração de manuais, normas, especificações e instruções técnicas relativas ao controle ambiental, principalmente nas áreas de competência exclusiva dos municípios; organização e manutenção de bancos de dados sobre ocorrência de incidentes e/ou acidentes ambientais ocorridos dentro e fora da administração pública; preparação e implantação de programas de redução de geração de resíduos, tanto para os órgãos administrativos internos como para os diversos setores da sociedade produtiva (indústria, comércio, serviços e etc.); preparação e implantação de um plano de ação para as situações de emergência, envolvendo variáveis ambientais; ministrar treinamentos sobre temas ligados ao saneamento ambiental em todas os setores públicos e privados possíveis; redigir matérias que tratem da divulgação das atividades de prevenção e controle ambiental exercido pela administração pública, assim como representá-la em assuntos que envolvem as questões ambientais, e o mais importante, quando houver a elaboração de um ajuste  ao Plano Diretor Municipal, traçar as linhas mestras, pois qualidade de vida é a bandeira do órgão ambiental e o fator lógico de uma sociedade predominantemente racional.

É claro que para adoção de tais medidas, as administrações municipais devem ter um plano de gerenciamento administrativo bem definido quanto às atribuições de seus órgãos de atuação. Lamentavelmente, como a maioria das administrações publicas municipais brasileiras são dirigidas por pessoas com elevado grau de incompetência e desonestidade, fica realmente debilitada qualquer estratégia em defesa do ecossistema.

Mas, não podemos perder as esperanças, pelo contrário, temos que esperar o surgimento de homens públicos com um mínimo de consciência coletiva, que ao contrário dos que ai estão, se empenhem, com sinceridade, na busca da melhor qualidade de vida para todos.


O autor é especialista em Direito e Gerenciamento Ambiental e dirigente do Partido Verde em São Paulo. Corr.Eletrônico: pvsp@partidoverde.org.br.

(Pág. 4)

porEditor

Expediente – AgirAzul 13

Publicação dirigida à ação dos ambientalistas brasileiros e
simpatizantes em geral

Ano VI —  Número 13 – com 24 páginas

Correspondências para a Caixa Postal 1222 – 90001-970 Porto Alegre, Rio Grande do Sul Brasil

Fechamento desta edição: 25 de julho de 1998

Editor: Jornalista João Batista Santafé Aguiar
reg. prof. 4826 DRT/RS

Assinaturas e Anúncios: Informações nos Cupons anexos ou conosco. Entre em contato!

Números anteriores: proceda a assinatura normal informando a edição de início desejada no campo adequado do cupom avulso.

AgirAzul não se responsabiliza por conteúdo de matéria com autor identificado. Um autor não necessariamente se identifica ou concorda com o conteúdo de outros artigos ou matérias.

Faz-se intercâmbio. É livre o aproveitamento do material editorial desde que citada a fonte.

Pagamentos e contribuições através de depósito direto ou cheque nominal à PANGEA
Conta nº 4.031-2 da  Agência 3529-7 do Banco do Brasil  (Agência Avenida Júlio) Porto Alegre, RS Brasil

AgirAzul  é  realização da PANGEA — Associação Ambientalista Internacional
(lê-se pângéa) – Entidade sem fins lucrativos –

CGC 94.959.095/0001-19

Conselho Diretor:
Augusto César Cunha Carneiro, conselheiro-presidente;
João Batista Santafé Aguiar, conselheiro-vice-presidente, e
Luiz Afonso  Barnewitz,, conselheiro-tesoureiro.

porEditor

Cancro Cítrico não é problema

pela Equipe Técnica da Fundação Gaia

Foi cometido, há vários anos atrás, um incrível vandalismo oficial que afetou centenas de citricultores brasileiros. A Campanha Nacional para Erradicação do Cancro Cítrico (Canecc) conseguiu quase exterminar a citricultura do Paraná e só não levou adiante este objetivo no Rio Grande do Sul por causa da forte e determinada posição de alguns poucos ecologistas como o agrônomo José Lutzenberger. Quando encontravam sintomas desta doença numa única folha, de uma única planta de um viveiro ou pomar, cortavam e queimavam impiedosamente todas as cítricas de todo um município. Esta determinação foi diminuindo para 1000, 500, 100 metros de raio a partir daquela planta, graças a reação desses indignados cidadãos. Não adiantavam protestos. Era um ato de guerra. Felizmente, aquela campanha acabou morrendo, depois de duras discussões e, inclusive, processo judicial.

A filosofia que fundamentava a ação da campanha parte de um postulado errado: o agente patogênico, a bactéria Xanthomonas citri, é considerado inimigo arbitrário, feroz, capaz de, quando presente junto a qualquer planta cítrica, acabar com todo um pomar, com todo um viveiro e até com toda a citricultura brasileira. Se isso fosse uma verdade científica teríamos que erradicar, por exemplo  todas as parreiras atacadas por bacterioses, ou quem sabe todas as plantas cultivadas contaminadas por bactérias ou exagerando, todos os seres vivos que tivessem uma bactéria no seu organismo.

Na realidade, parasitas e agentes patogênicos não são inimigos arbitrários todo-poderosos na destruição. Se assim fosse, a Humanidade teria sucumbido às epidemias de pestes e outras. Todas as grandes epidemias só afetam parte de uma população. Os sobreviventes saem vacinados. Pragas e parasitas são indicadores biológicos que nos dizem estar nossas plantas ou animais doentes ou desequilibradas. Elas não têm vez em organismos sadios, metabolicamente equilibrados.

A solução, portanto, não está na erradicação. A bactéria do cancro cítrico jamais será erradicada. Ela é cosmopolita, ou seja, vive em diversas partes do planeta e em diversas plantas da família das Rutáceas, a família dos citros. Se a Secretaria da Agricultura, de Ciência e Tecnologia e a Emater pretendem fazer um trabalho realmente científico, sério, racional e humano (e todos queremos ajudá-los nisso!), terão que inverter a atual filosofia de trabalho. Vamos ensinar aos citricultores gaúchos métodos de cultivo que produzam plantas sadias que não precisam temer o cancro.

Se a nossa citricultura está hoje vulnerável a tanta doença e praga é porque os atuais métodos de cultivo estão errados. Podemos ler folhetos dos órgãos governamentais sobre condução de pomares que ensinam exatamente o contrário  do que deveriam ensinar para fazer plantas sadias, resistentes a parasitas e enfermidades. Em toda a parte vemos pomares doentes, com folhas amareladas, cloróticas. Isto porque a maioria dos agricultores seguindo orientação dos técnicos governamentais insiste em lavrar profundo, em fazer lavoura de milho e mandioca entre as linhas de árvores, já com espaçamento insuficiente, e principalmente usar adubos nitrogenados amoniacais em altas quantidades, como uréia e sulfato de amônio além de usar e abusar de agrotóxicos como os herbicidas, fungicidas e inseticidas que desequilibram a fisiologia das plantas.

Vamos aproveitar construtivamente  o dinheiro da pesquisa oficial e do Programa Estadual de Citricultura. Vamos ensinar ao citricultor a melhorar os pomares e a fazer viveiros bem feitos, dentro dos conceitos de uma agricultura ecológica: espaçamento adequado, enxertos que levem em conta resistência e afinidade, nunca lavrar profundo, manter cobertura com leguminosas e plantas nativas que nunca será capinada, apenas roçada, adubação orgânica bem madura, de estercos bem compostados ou de biofertilizante maduro, adubação mineral de solubilidade lenta, aplicações não de venenos, mas de substâncias que fortaleçam as plantas e quebra-ventos.

Trabalhos preventivos, para se contrapor ao alastramento do cancro enquanto a maioria das plantas for suscetível, deverão se limitar a localizar e tratar as plantas afetadas e a manter o viveiro ou pomar em quarentena até o desaparecimento total de infecções. Após, poderão ser liberados.

A verdadeira ameaça à citricultura gaúcha não está no cancro cítrico, o grande perigo está nos métodos de trabalho com o solo e com as plantas recomendados pela agronomia oficial. Ao invés da erradicação de viveiros e de maus tratos aos pomares, sugerimos a aplicação de técnicas ecológicas e regenerativas na instalação e manejo dos pomares.

Fundação Gaia,  Julho de 1998

(Pág. 10)

porEditor

A Prefeitura de Porto Alegre também devasta

Artigo de Augusto César Cunha Carneiro*

Não obstante a pesada propaganda da Secretaria Municipal do Meio Ambiente – SMAM, através de cartazes, principalmente e inclusive da  Agenda 21, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre devastou completamente os acostamentos da antiga Estrada Edgard Pires de Castro, em Belém Novo. Foi um desbaste com maior violência do que qualquer obra semelhante às que faz o DNER nas estradas federais. A devastação municipal foi feita com machado e facão em toda a extensão da nossa estrada. As vítimas foram os arbustos e até árvores de porte.

Também em 1997, em junho, o mesmo DMLU, violando a Lei Florestal que protege as margens de rios, foi até a Praia do Leblon, no centro do Bairro Belém Novo, e ali se atirou com fúria contra a vegetação local.

Naquele recanto porto-alegrense há uma praça e defronte, uma pequena enseada com cerca de 100 metros de comprimento. Os inimigos da vegetação chegaram a entrar na água com roçadeira e degolaram os juncos até uma largura de mais ou menos 50m. Cortaram os arbustos e maricás, além de podarem árvores de porte. Havia também uns seis sarandis, sendo que quatro foram cortados a facão e os dois que sobraram o foram porque o pessoal da AGAPAN, intervindo, conseguiu impedir otérmino da estúpida obra.

AGAPAN e um voluntário defensor das árvores conseguiram parar a perniciosa obra. Efetuaram denúncia ao Ministério Público estadual que providenciou perícia, intimou a Prefeitura e está estudando a contradita da acusada, para a tomada de providências legais. Na Praia do Lami a Prefeitura repetiu o feitolimpando a vegetação “feia”.

A Prefeitura assim age porque parece que a SMAM é esquecida e não tem nenhuma influência sobre as demais repartições municipais, sendo sempre desconsiderada por quem realiza obras. Há prova desta omissão, pois os funcionários da Secretaria Municipal da Cultura chegaram a arrancar diversas árvores na praça-estacionamento do Teatro Renascença sem que se notasse a existência da SMAM nem para multar.

O autor é presidente da PANGEA. Contato: (0xx51) 3224-7014.

(Pág. 9)

porEditor

Ibama proporciona triste espetáculo no RS

Em 16 de junho, o Juiz do Tribunal Regional Federal da 4ª Região Amir José Finocchiaro Sarti colocou os pingos nos “is”, data venia, ao despachar recurso contra decisão de colega seu que havia revogado decisão da Juíza Federal de Caxias do Sul, Isabel Pezzi Klein, que impedia a reabertura do Parque Nacional dos Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul.

À reinauguração, dia 30 de maio, assegurada pela liminar cassada pelo Juiz Sarti, das obras que teriam gasto R$ 4 milhões (2,5 do Governo do Estado e 1,5 do Ibama) acorreu a turma do sr. Eduardo Martins, presidente do IBAMA, juntamente com a claque do Sr. Governador do Estado do RS, Antonio Britto, incluindo aí o sr. Presidente da Fepam, em clima de ‘campanha eleitoral’, conforme registrou jornal local, com a presença de todos os prefeitos da região, vereadores, deputados, mais apresentação da Orquestra Sinfônica e público. Foi um dos últimos atos do Governador Britto antes de licenciar-se do cargo para concorrer à reeleição.

O fato é que conforme o Decreto 84.917/79, “o uso e a destinação das áreas que constituem os Parques Nacionais devem respeitar a integridade dos ecossistemas abrangidos”, o que não estaria sendo proporcionado na área, apesar dos esforços de propaganda aparentemente darem idéia contrária. Deixou-se de cumprir diversos itens exigidos pelos Planos de Manejo, privilegiando-se a atividade do ‘ecoturismo’ em detrimento da conservação da área.

A ADFG-Amigos da Terra fez-se presente à ‘reinauguração’ afirmando que a reabertura era precipitada, eleitoreira e sem que fosse implantada a infra-estrutura necessária e, exigiu pagamento das desapropriações das terras.

Diz o Juiz Sarti em sua decisão, que o IBAMA já foi condenado a executar o Plano de Manejo do Parque. E é o mesmo órgão que vem defendendo a reabertura sem que as medidas recomendadas para a sua conservação sejam tomadas.

Acompanhe o desenrolar dos fatos na página de Notícias do saite do AgirAzul na Internet (www.agirazul.com.br). Ali há também a íntegra da decisão do Juiz Sarti.

(Pág. 2)

porEditor

Mono-Carvoeiro precisa proteção

União Internacional para a Conservação da Natureza – IUCN deve passar o muriqui da categoria “vulnerável à extinção” para a  de “criticamente  ameaçado”.

Esta foi a conclusão geral do encontro que aconteceu de 23 a 26 de maio de 1998, em Belo  Horizonte, em forma de workshop, para reavaliar o status de conservação do mono-carvoeiro ou muriqui (Brachyteles arachnoides), o maior primata americano, que vive na Mata Atlântica. O objetivo do workshop foi realizar um PHVA (análise da viabilidade populacional da espécie e do seu habitat), sugerindo medidas para sua conservação.

Participaram especialistas em muriqui de todo o país, mais representantes da  Sociedade Brasileira de Primatologia, Conservation International, União Internacional para a Conservação da Natureza – UICN (entidade com sede na Suiça que elabora os critérios e categorias de extinção: vulnerável, ameaçado, extinto, etc); a Dra. Karen Strier (University of Wisconsin, USA),  Fundação Biodiversitas e do IBAMA. O patrocínio para o encontro veio da Margot Marsh Foundation (USA).

Com a utilização do programa Vortex, que simula a possibilidade de extinção, quatro grupos de trabalho cruzaram informações sobre as populações remanescentes, a situação dos habitats, os esforços para reproduzir a espécie em cativeiro e o impacto humano nas áreas de ocorrência da espécie,foram feitas projeções sobre o comportamento das populações para os próximos 200 anos.

Concluiram que a população de Minas Gerais, a maior parte concentrada em um fragmento de mata de mil hectares, deve sobreviver sem problemas de consangüinidade durante os próximos 100 anos. A partir disto devem comecar a aparecer os problemas decorrentes do cruzamento entre parentes devido ao isolamento populacional. A taxa de desmatamento de Mata Atlântica naquele Estado é de 20 mil hectares/ano e precisa ser congelada para que os muriquis sobrevivam.

No Espírito Santo, a situação é mais grave: as populações vivem em pequenos fragmentos e não terão problemas nos próximos 50 anos. Em São Paulo, estão as últimas áreas de Mata Atlântica não fragmentadas e lá os animais devem sobreviver durante os próximos 200 anos, se o desmatamento não aumentar. Na Bahia, a espécie já foi extinta pelos desmatamentos dos últimos 20 anos.

Para evitar o desmatamento, sugeriram-se como atividades econômicas viáveis: turismo ecológico, fruticultura, psicultura, e também melhorias do sistema de plantio do café, para se coibir a utilização de novas áreas para plantio.

Deve-se  barrar o avanço da pecuária sobre a área de mata, fiscalizar pequenos desmatamentos em terrenos que serão utilizados para especulação imobiliária, que não aparecem nas fotos de satélite e hoje são os maiores  responsáveis pelo desmatamento; implementar mata-corredores entre fragmentos isolados; continuar a pesquisa sobre reprodução em cativeiro que é feita no Centro de Primatologia do RJ; e pesquisar a vida deste primata em outras regiões do Brasil.

Como conclusão geral do encontro, a IUCN deve passar o muriqui da categoria “vulnerável à  extinção” para “criticamente ameaçado”. Para o biólogo Rodrigo Cambará Printes, presente ao workshop, “devemos resgatar o muriqui como espécie-bandeira da conservação no Brasil”. (RCP/jbsa)

(Pág. 9)

porEditor

O Minuto Ecológico, demagogia ou desleixo ?

Artigo de Júlio César Pereira Tomazzolli

Para manterem os índices de audiência, as redes de televisão, em especial o grupo RBS, do sul do Brasil, vem se utilizando cada vez mais da chamada mídia ecológica. Neste caso destacamos o Minuto Ecológico. Programa, ou melhor, pacote ecológico, comprado do centro do país, que vem sendo veiculado já há algum tempo nas proximidades do programa Jornal do Almoço (como diz o nome, perto do meio-dia). Em contato informal com a emissora, verifiquei que os programas vão continuar por algum tempo.

O que poderia ser, em princípio, uma boa idéia, consegue transmitir muitas informações errôneas. Para um público sedento de informações sobre o meio ambiente, principalmente o estudantil, o resultado pode ser catastrófico.

Normalmente são mostrados animais que habitam outras regiões (exemplo: Pantanal), não ocorrem aqui entre nós – fato que o programa não deixa claro para seus telespectadores. Tuiuiús, Guarás, Ibis, etc. são aves típicas do ecossistema pantaneiro; o macaco-aranha próprio das regiões tropicais e assim por diante.

Os nomes populares dos animais, que o programa aproveita, são muitas vezes regionalizados. Isto é, um determinado animal, como por exemplo, o que apresenta o nome científico Furnárius Ruffus, que vale para todo o planeta, é conhecido no Brasil, como João-de-Barro. Na Argentina e no Uruguai  ele é conhecido como Hornero. Assim poderíamos citar vários outros casos.

Há outro problema também sério: a forma ´humana´ como os animais se manifestam, com necessidades e desejos. Porque não admitir que existe em cada espécie uma forma específica de se comunicar? E que às vezes o homem não alcança os seus significados?

Devemos alertar a produção do Jornal do Almoço e aos telespectadores quanto aos erros de aprendizagem que conteúdos apresentados destas formas causam. Afinal, a RBS tem condições de sobra e qualidade nos profissionais para produzir programas regionalizados, que mostre os animais de nosso meio natural! O premiado programa Globo Ecologia poderia servir de exemplo de informação passada sem mistificação a um público maior.

*O autor é Professor de Ciências e Biologia no 2º Grau.

(Pág. 8)

porEditor

A Crise da Esperança

Artigo de Rodrigo Cambará Printes

Espécies são como bandas de rock. Muitas surgem no fluxo das circunstâncias. Muitas são realmente originais e outras nem tanto. Mas poucas ficarão, porque segundo a lei da impermanência (“nada é, tudo está”), será difícil conservar uma estratégia de sucesso. Também como as bandas de rock, algumas espécies ficarão por muito tempo no topo, outras serão efêmeras e desaparecerão ainda antes de deixar qualquer registro (um CD ou um fóssil….).

A vida não é uma linha reta e o tempo é uma dimensão multidimensional. Agora é a face do tempo onde todos os outros tempos se encontram. O que somos hoje e como hoje vivemos depende dos eventos do passado; é como se hoje fosse a ponta de uma cadeia de eventos pretéritos que nos trouxeram até aqui.

Ou seja, o passado não passa. E como o futuro começa agora, então agora é o momento crítico da dimensão mutidimensional que é o tempo. Para as outras espécies que nos acompanham neste mundo também esta perspectiva temporal é válida. As que permanecem apresentam atributos desenhados no passado e terão que, com estes atributos, responder às exigências de hoje. Mas haverá sempre um atraso entre a resposta da seleção natural e as novas exigências que o ambiente impõe. Ignorando isto, o ser humano está levando muitas espécies à extinção dentro do irrisório período de tempo que corresponde a sua passagem pelo planeta.

Bem, todo mundo sabe desta última parte, mas vamos reconstituí-la historicamente. Imagine que uma série de atributos naturais de uma espécie tenha sofrido mudanças adaptativas relacionadas que conduziram esta espécie a uma situação de sucesso em seu ambiente (o que os evolucionistas chamam de suíte adaptativa), e depois a uma verdadeira predominância sobre as outras espécies.

Foi o que aconteceu desde que o gênero Homo pisou pela primeira vez o solo deste planeta, há cerca de um milhão de anos atrás. Então o macaco-de-sapatos tornou-se arrogante, e além de obter o maior pênis entre os primatas, conquistou também o maior cérebro, algo descomunal, com 1400 cm3, passando a fazer desta terra um local de conflitos. E quanto mais teve tempo para pensar, mais o macaco-de-sapatos fez coisas para melhorar seu conforto. Atingiu-se então um ponto de onde se torna difícil voltar: primeiro as tecnologias satisfaziam necessidades, depois passaram a criar novas necessidades.

E mais: Tecnologia, a Deusa do século XX, fez com que o macaco-de-sapatos passasse a negar sua própria natureza. Quanto mais tecnologia, tanto menos animal ele se sentia e hoje vive-se numa tecnocracia, com o mundo ao alcance do braço, via internet, para alguns, mas o pão longe das mãos, para a maioria. A tecnologia exagerou as diferenças individuais e sociais, agravou a distribuição desigual de renda no terceiro mundo e levou a natureza a um declínio nunca antes imaginado. Perda de florestas, poluição das águas, extinções massivas de espécies e produção exagerada de lixo são apenas alguns exemplos.

Mas a diversidade é a matéria-prima da vida e até no comportamento ela se manifesta. Graças a esta diversidade de comportamentos, há neste mundo pessoas trabalhando pela conservação da natureza. Elas batalham todos os dias quase sem apoio e reconhecimento das instituições. Conseguem no máximo sobreviver à custa de projetos ou consultorias e raramente têm um emprego fixo. Não é de impressionar que sofram crises, que se sintam sufocadas pelas pressões deste planeta tão “moderno” e que pensem às vezes que o futuro da humanidade se apresenta no mínimo obscuro.

Tal é a crise da esperança que abala ora uns ora outros entre os conservacionistas. Mas via de regra a crise da esperança é transitória. Porque assim como a vida é absurda, a energia e a vontade para defendê-la também o são. E quantas vezes nós não pudemos resolver os problemas, mas passamos por cima deles com exímia eficiência?

E quantas vezes nós triunfamos silenciosamente no nosso dia-a-dia, enquanto o inimigo pensava que vencia? Nossa vantagem é que o inimigo é míope. Esta mesma miopia que o leva a ver a natureza como um bem para o consumo imediato o trai, colocando-o a mercê dos seus próprios instintos destrutivos ….

A diferença entre o suicida e o herói é uma idéia bastante explorada pelos psicólogos. Enquanto o suicida se mata porque não vê objetivo algum a sua frente, o herói luta até a morte por um objetivo. Coletivamente, a humanidade hoje parece ter perdido seus objetivos e passado a executar um comportamento suicida em relação à utilização dos recursos naturais. Esta é uma crise de valores e não uma crise de esperança, portanto trata-se de algo muito mais difícil de ser superado.

Conseguiremos deter as extinções? Conseguiremos resolver os conflitos habitação versus conservação, uso humano da terra versus preservação dos ecossistemas? Encontraremos uma política de desenvolvimento que leve em conta a limitação imposta pelos recursos e que considere os limites naturais para o crescimento econômico? Quanto tempo ainda teremos para decidir?

O ocaso do século XX é um convite à reflexão. Ou nos reconciliamos com nossa própria natureza ou compramos a ilusão de sermos semideuses, ao custo da nossa sobrevivência. Ou partimos para o bom combate ou nos entregamos às decisões imediatistas dos fiéis seguidores do chamado “desenvolvimento” econômico e da democracia de mercado.

Jamais esperemos que alguém resolva nossos problemas. A revolução da esperança depende muito de nós. Ela precisa acontecer todos os dias e para os que nela acreditarem a única e verdadeira derrota será entregar a esperança. A esperança não é a última que morre; ela não morre, não pode morrer.

O autor é Biólogo, Pós-Graduado em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre .

(Pág. 3)

porEditor

Reflexão: Início, meio e fim.

Artigo de Lama Padma Samten (Alfredo Aveline)

A afirmação básica do pensamento ecológico é justamente a unidade intrínseca de todas as coisas, mas isto não é uma exclusividade, visto que para várias antigas e novas tradições, o universo é como um vasto organismo, no qual o mundo natural, e nele o homem, é apenas uma parte. Esta visão, em um período da antigüidade no qual o taoísmo se tornou filosofia do estado na China, chegou aos aspectos jurídicos onde os crimes e disputas passaram a ser encarados como distúrbios no relacionamento do homem com a natureza – ou em seu sentido maior, com a unidade.

No código jurídico da dinastia Tang, por exemplo, estava especificado o real perigo em substituir esta forma de análise por formas simplistas voltadas a punições. A prática jurídica deixa de ser a apuração da responsabilidade do infrator, para focar a natureza sutil da infração e sua origem. Todas as visões simplistas determinam análises incompletas, e estas análises incompletas terminam sempre na simplista delimitação de um inimigo a ser combatido.

Para os movimentos realmente pacifistas, não há inimigos a serem derrotados. Na visão de Gandhi, o importante não era combater os ingleses, mas juntos, indianos e ingleses deveriam libertar—se do fuzil que dominava a ambos: aos indianos que ficavam à frente, e aos ingleses que ficavam atrás.

As visões corretas levam a objetivos corretos e à prática correta, resultando em ganhos reais. O ponto central da luta pacifista é descobrir o ponto sensível por onde o agente de desarmonia pode transformar-se em um agente de harmonia, sem nunca vê-lo como um inimigo ou adversário. A lógica da dor e da desarmonia é que é adversária de ambos.

Todos os seres desejam a felicidade e buscam se afastar do sofrimento. Assim podemos compreender uns e outros. Quando ações muito equivocadas e danosas são feitas, isto é, sempre o resultado da perda de visão da unidade. Quando o foco mental se perde, surge a fragilidade a todo o tipo de flutuação e equívoco, e as pessoas ficam suscetíveis à manipulação. As tensões sociais e culturais são canais pelos quais são manipuladas sutilmente. É como se estivessem sob o efeito de um encanto que dá sentido a tudo e as conduz às práticas que as afastam até mesmo de seus princípios.

Assim, a população que sente os efeitos da degradação ambiental, social e de sua saúde, é a mesma que, com seus gestos, sem perceber, dá respaldo e sustentação à raiz das dificuldades. Este círculo de força afeta até mesmo os grupos que trabalham pelas transformações, e não pode ser vencido por oposição, mas apenas pela compreensão e abandono de sua lógica. Para quebrar este encanto, é necessário o esforço de eliminação de artificialidades e automatismos mentais, e isto milenariamente é conhecido como meditação: tranqüilização, prática espiritual, reencontro com a serena natureza da unidade.

Quando o príncipe Sidarta, por esta prática, tornou-se o Buda, disse: “Libertei-me daqueles que foram meus senhores por incontáveis vidas, as disposições mentais e seus agregados. Os seres se debatem como peixes em água rasa. O sofrimento existe, mas por depender de causas, pode ser eliminado e há um caminho para isso: o reconhecimento da natureza de unidade, espacialidade e luminosidade.”

No sentido budista, o caminho é a superação completa dos obstáculos à experiência de unidade, que são os automatismos mentais que conduzem às ações equivocadas que, por sua vez, produzem as condições de sofrimento. Como os automatismos e impulsos surgem de uma região interna sutil, não basta a transformação das opiniões, é necessário chegar ao coração que é onde as ações brotam, e repousá-lo na natureza da unidade. É o retornar à unidade usando a própria unidade como caminho. Não é possível chegar à unidade através de parcialidades e hostilidades.

Esta compreensão, ao ser incorporada pelos vários movimentos de transformação social e ecológica pode trazer benefícios imediatos. Em lugar de mover pessoas com o peso de angústias, as reuniões e encontros podem transformar-se em momentos de vivência profunda e compreensão.

Os encontros precedidos e encerrados por pequenos períodos de meditação, asseguram a ausência de tensão, a clareza das mentes e a experiência da unidade no coração. Eliminado o cansaço, as pessoas trabalham com alegria. Experiências mostram a facilidade e verdadeiro gosto com que todos vivem os encontros de silenciosa meditação, energia, harmonia e união. É caminho e resultado final sendo praticados juntos.

Físico de formação, o autor foi professor do Departamento de Física da UFRGS e presidente da Cooperativa Ecológica Coolméia. Em dezembro de 1996, foi ordenado por S.E. Chagdud Tulku Rinpoche como “Lama Padma Samten”, na linhagem budista tibetana Ningmapa.


Contatos em 1998:

Contatos: Centro de Estudos Budistas, rua Barão do Cerro Largo, 487, Menino Deus, Porto Alegre – RS. 233-5161 e 231-6704. E-mail: rsf10133@pro.via-rs.com.br

(Pág. 5)

porEditor

A Natureza na mídia: a imagem que vende

Artigo de  Guilherme Castro

As representações da natureza na mídia, especialmente como “imagem” usada pela publicidade para vender de tênis à coca-cola. Este é o tema que a bióloga Marize Basso investigou em seu mestrado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Marize explica que para questionar as representações hegemônicas, que reproduzem relações desiguais de poder, desenvolve seu trabalho no campo dos estudos culturais. Seu objetivo é problematizar o dado como óbvio, o colocado como simples representação da verdade natural. Utiliza-se da semiótica, da filosofia e da história das ciências.

Assistindo a um comercial de TV que afirmava textualmente: “ainda bem que não somos bicho nem planta”, Marize resolveu descortinar mensagens que poderiam estar por trás desta representação. O comercial iniciava com folhas caindo das árvores e formigas indo para seus abrigos. Corta. Num ambiente interno e aconchegante, seres humanos, brancos, bonitos e alegres, se divertem. Não somos bichos, a natureza está lá fora. Como leitura Marize diz que é clara a alusão à fábula da cigarra e da formiga. Hoje, o ser humano assume o papel da cigarra, aproveitando o conforto tecnológico, que independe do clima e da natureza. A natureza é tratada como um recurso, o ser humano, não fazendo parte da natureza, é um consumidor. O consumo é associado à idéia de liberdade e conforto, de autonomia com relação à natureza.

Outro comercial lido sob esta ótica mostra bandos de animais exóticos à fauna brasileira se deslocando em seu ambiente natural, também estranho ao Brasil. Última cena: automóveis se deslocam em uma larga avenida. O destino destes bandos é aproveitar as ofertas do anunciante. Ao mostrar exemplares da natureza completamente distantes do seu público, o comercial impede qualquer interação. A natureza é idealizada: o leão, a girafa. A natureza é algo exótico. Quando mostra o bando urbano, o representante escolhido é o automóvel. O sujeito é substituído pela máquina. Assim está presente o elemento determinante de nossa cultura: a tecnologia é o que diferencia e separa o homem da natureza. Marize diz que ao escolher a imagem e o recurso técnico para a representação publicitária, faz-se uma escolha política (o carro: massa metálica, monocromática e uniforme; não humanos, pluriformes e pluricromáticos).

A tendência geral observada pela pesquisadora na utilização da natureza pela publicidade é agregar um falso valor ao produto. Uma natureza cada vez mais distante, idealizada e desconhecida ajuda a vender os mais variados produtos industriais. Por outro lado, normalmente se mostra o ambiente natural como o monótono e sem graça e o ambiente de consumo de produtos industrializados como diversificado e interessante.

Dentro desta tendência geral são desenvolvidos alguns diferentes discursos. Há o discurso da saúde, que vende cigarro associando-lhe à uma vida natural e saudável. Há o discurso do natural, que mostra o shampoo brotando da natureza. Também há o discurso tecnológico, que diz ser a natureza inferior e mostra potentes automóveis dominando terrenos selvagens. Em todos esses discursos a natureza é representada como o primitivo, o inóspito, que reforça o modelo do desenvolvimento subjugador.

O dado como óbvio, presente nas manifestações hegemônicas que representam a realidade, entra elas a publicidade, tem o ser humano como apartado da natureza, este é o senso comum.

O trabalho de mestrado de Marize Basso, que pode ser encontrado na Biblioteca da Faculdade de Educação da UFRGS, em Porto Alegre, propõe rediscutir o lugar da sociedade na natureza e o da natureza na sociedade.

O autor é jornalista.

(Pág. 8)

porEditor

Invadido Parque Nacional do Iguaçu

Em reunião de 30 de junho, o Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA – aprovou moção da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza – FBCN – protestando junto ao Ministério do Meio Ambiente pela falta de medidas efetivas para a expulsão dos invasores do Parque Nacional do Iguaçu solicitando fossem tomadas com urgência as medidas necessárias para o reestabelecimento da lei e da ordem na região. A turma do sr. Eduardo Martins, presidente do IBAMA, embora prometendo ação efetiva do órgão para a retirada dos invasores, ligados ao Partido dos Trabalhadores da região, nada vez de eficaz até o momento.

O Parque Nacional de Iguaçu foi criado em 1939 e é a única área natural no Brasil a receber da UNESCO o status de Patrimônio Natural da Humanidade.

A estrada, agora reaberta, data de 1954 e foi fechada em 1986, por ordem judicial, já que se constituia em ameaça constante à integridade do Parque. A estrada liga Capanema até a BR-277. Em maio de 1997, o Parque foi invadido sem qualquer resistência física por parte dos seus guardas. E, em 11 de janeiro de 1998, os mesmos invasores, por promoção do PT da região, ocuparam-no outra vez e a estrada se encontra em pleno funcionamento, inclusive a balsa que faz a travessia do rio Iguaçu, dentro dos limites do Parque Nacional. É um escândalo que esta situação perdure (jbsa).

(Pág. 2)