Arquivos da Categoria: Edição nº 13 – 25 de julho de 1998

Índice – AgirAzul Impresso nº 13

AgirAzul 13

Conteúdo editorial:

  1. Plano Diretor da Capital precisa maior discussão (capa)
  2. Dayrell é homenageado em Porto Alegre (capa, 12, 13, 14 e 15)
  3. Expediente (2)
  4. Ibama proporciona triste espetáculo no RS (2)
  5. Invadido Parque Nacional do Iguaçu (2)
  6. Aumenta oferta de alimentos sem agrotóxicos (2)
  7. A Crise da Esperança, por Rodrigo Cambará Printes (3)
  8. As SMAMs nas administrações públicas municipais, por Cláudio Turtelli (4)
  9. Reflexão: Início, meio e fim., por Lama Padma Samten (Alfredo Aveline) (5)
  10. Amazônia preocupa líderes brasileiros de instituições ligadas a políticas de meio ambiente (6)
  11. Henrique Roesser e sua luta dentro de uma perspectiva histórica, por Arno Kayser (7)
  12. A Natureza na mídia: a imagem que vende, por Guilherme Castro (8)
  13. O Minuto Ecológico, demagogia ou desleixo? por Júlio César Pereira Tomazzoli (8)
  14. A Prefeitura de Porto Alegre também devasta, por Augusto Carneiro (9)
  15. Mono-carvoeiro precisa de proteção (9)
  16. Cancro cítrico não é problema, pela Equipe Técnica da Fundação Gaia (10)
  17. O Plano Diretor e os habitantes esquecidos de Porto Alegre, por Gerson Buss (11)
  18. Carlos Alberto Dalyrell é cidadão de Porto Alegre (12, 13 e 14)
  19. Um testemunho do primeiro protesto ecológico, por Sérgio Becker (15)
  20. O Projeto Museu da Araucária pode mudar a serra gaúcha, por Cilon Estivalet (16)
  21. Saúde Global, prosa e versos de Ursula Aner (17)
  22. Santa Catarina – Litoral na encruzilhada da destruição total (18)
  23. Áreas litorâneas – Sobrevôos identificam degradação ambiental (19)
  24. Gasoduto Brasil-Bolívia (19)
  25. Zeno Simon: “grande ecologista, amigo, companheiro, paizão – valeu !” (20)
  26. Um radical livre chamado Zeno, por Carlos Gustavo Tornquist (21 e 22)
  27. O Futuro Roubado (22)
  28. Noticiário – Agapan, 27 anos – Movimento Roessler – CLEPEI quer estagiários – 300 participantes no EEEE de São Borja – Fundação Gaia em ação
  29. Mortandade de pingüins no sul do Brasil (24)
  30. ADFG-Amigos da Terra muda razão social para Núcleo Amigos da Terra (24)
  31. A Carta da Lagoa dos Patos (24)
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O Plano Diretor e os habitantes esquecidos de Porto Alegre

Artigo do Biólogo  Gerson Buss

Uma das características que fazem com que alguém seja nativo de um determinado lugar é o fato dele conhecer o lugar onde vive. E que conhecimento é esse? É saber o clima, conhecer as plantas, os bichos, os lugares, saber os caminhos que levam aos lugares importantes pra ele, conhecer as pessoas e saber se comunicar com elas.

Nossa vivência urbana, televisiva e global nos afasta da vivência local, do conhecimento do mundo natural e por conseguinte, das pessoas. Como não observamos os relacionamentos do mundo natural, nossos relacionamentos da vida pessoal se tornam superficiais. Como não observamos as causas e as consequências, achamos que “podemos tudo”. Vivemos num meio artificial, nossa cidade, com um grande número de indivíduos de uma única espécie, a nossa, e essa situação nos cria a ilusão de que é isso que precisamos e que o resto não nos atinge, podendo ser descartado. Senhores do caótico meio urbano queremos agora, com essa mentalidade, planejar o desenvolvimento do município. E nesse contexto, imaginamos o município como uma grande cidade, as áreas naturais como áreas a serem ocupadas, as praias como áreas que necessitam calçadões e iluminação, e por aí vai.

O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental foi elaborado para atender as necessidades de uma espécie, sem levar em consideração que para uma existência saudável dependemos de todas as demais espécies. Das três espécies de primatas que habitam nosso município, só nos lembramos de uma, a nossa. O que falar então, do Graxaim-do-campo, da Figueira-de-folha-miúda, da Capivara, do Gavião-caramujeiro, da Lontra, do Ingá, etc. Todas essas espécies tem populações, que habitam um determinado lugar e que se relacionam de alguma forma conosco. E com isso, chegamos a conclusão que todos os demais habitantes do Município de Porto Alegre estão sendo esquecidos.

O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental no máximo de sua evolução reconhece apenas a diversidade do uso humano das áreas, esquecendo, ou não considerando, a diversidade biológica do município. Eu me pergunto, será que os técnicos da FLACAN, da Secretaria de Planejamento Municipal e os demais membros da equipe que elaboraram o Plano conhecem o Município de Porto Alegre? Eu acho que não, imagino que eles conheçam somente a cidade de Porto Alegre, pois só isso explica o fato das questões relativas ao Meio Ambiente Municipal estarem tratadas tão superficialmente, ao contrário da questão da habitação, por exemplo. Além disso o PDDUA tem propostas extremamente preocupantes, como a  criação de uma zona de ocupação intensiva ao lado da Reserva Biológica do Lami; de criarem um corredor agro-industrial entre o Morro São Pedro e o Morro da Extrema; entre outras.

Será que eles sabem que ainda existem bugios no Morro São Pedro, Morro da Extrema , Lami e Boa Vista e que para a sobrevivência dessas populações é extremamente necessário que sejam preservadas as conexões de mata entre essas áreas ? Senão, a presença do bugio vai se tornar apenas uma lembrança vaga na cabeça de alguns pesquisadores e dos moradores mais antigos. E um dia vai ser esquecido. Quem mora hoje no Bairro Cristal não imagina que na década de 60 ainda existiam bugios nas matas do Bairro, e quem mora hoje na Ponta Grossa também perdeu a oportunidade de ouvir um dos sons mais impressionantes do mundo natural, que é o ronco de um bando de bugios.  Assim como foi esquecida a onça pintada que, na época da fundação da cidade, foi morta onde hoje é  a Cidade Baixa. Será que vai ser esse o destino da fauna silvestre em nosso município?

Além de toda a importância desses animais para o ecossistema, existe um aspecto importantíssimo que estamos desconsiderando, estamos perdendo os personagens que embelezam o fenômeno da existência. Estamos transformando o Teatro da Vida em um Monólogo da Espécie Humana. Quem de nós já viu uma lontra brincando no Arroio Lami, filhotes de tatu voltando para a toca,  não se assustou com o grito de alerta de uma capivara. Isso ainda é possível em nosso município. Resta-nos fazer o possível para que tais experiências não passem a existir somente na memória de alguns, e que as futuras gerações de cidadãos Porto-alegrenses

(Pág. 11)

Aumenta oferta de Alimentos sem agrotóxicos

O movimento por uma agricultura sem o uso de agrotóxicos está se multiplicando no Estado mais meridional do Brasil, o Rio Grande do Sul. Já são sete feiras semanais, realizadas em Porto Alegre, Pelotas, Passo Fundo, Viamão e Caxias do Sul.

Na capital gaúcha, além das duas feiras principais, organizadas e promovidas pela Coolméia – Cooperativa Ecológica, temos os pontos de oferta realizados pela Prefeitura Municipal.

Informa Glaci Campos Alves, da Coolméia, que também está havendo preocupação em se promover as sementes ´crioulas´ em oposição à Monsanto e outras grandes transnacionais da química que até com apoio da Embrapa já começaram a comercializar produtos oriundos do manejo de gens em experiências de laboratório.

“Isso tudo também representa a busca, por parte de movimentos de consumidores, de alimentos livres de resquícios tóxicos”, diz Glaci.

Peça informações sobre vendas de produtos ecológicos mais perto de você.

  • Contatos: Fone/Fax (051) 333-4211 ou na Av. José Bonifácio, 675 – sobreloja -, Porto Alegre, RS Brasil.

(Pág. 2)

Expediente – AgirAzul 13

Publicação dirigida à ação dos ambientalistas brasileiros e
simpatizantes em geral

Ano VI —  Número 13 – com 24 páginas

Correspondências para a Caixa Postal 1222 – 90001-970 Porto Alegre, Rio Grande do Sul Brasil

Fechamento desta edição: 25 de julho de 1998

Editor: Jornalista João Batista Santafé Aguiar
reg. prof. 4826 DRT/RS

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João Batista Santafé Aguiar, conselheiro-vice-presidente, e
Luiz Afonso  Barnewitz,, conselheiro-tesoureiro.

Cancro Cítrico não é problema

pela Equipe Técnica da Fundação Gaia

Foi cometido, há vários anos atrás, um incrível vandalismo oficial que afetou centenas de citricultores brasileiros. A Campanha Nacional para Erradicação do Cancro Cítrico (Canecc) conseguiu quase exterminar a citricultura do Paraná e só não levou adiante este objetivo no Rio Grande do Sul por causa da forte e determinada posição de alguns poucos ecologistas como o agrônomo José Lutzenberger. Quando encontravam sintomas desta doença numa única folha, de uma única planta de um viveiro ou pomar, cortavam e queimavam impiedosamente todas as cítricas de todo um município. Esta determinação foi diminuindo para 1000, 500, 100 metros de raio a partir daquela planta, graças a reação desses indignados cidadãos. Não adiantavam protestos. Era um ato de guerra. Felizmente, aquela campanha acabou morrendo, depois de duras discussões e, inclusive, processo judicial.

A filosofia que fundamentava a ação da campanha parte de um postulado errado: o agente patogênico, a bactéria Xanthomonas citri, é considerado inimigo arbitrário, feroz, capaz de, quando presente junto a qualquer planta cítrica, acabar com todo um pomar, com todo um viveiro e até com toda a citricultura brasileira. Se isso fosse uma verdade científica teríamos que erradicar, por exemplo  todas as parreiras atacadas por bacterioses, ou quem sabe todas as plantas cultivadas contaminadas por bactérias ou exagerando, todos os seres vivos que tivessem uma bactéria no seu organismo.

Na realidade, parasitas e agentes patogênicos não são inimigos arbitrários todo-poderosos na destruição. Se assim fosse, a Humanidade teria sucumbido às epidemias de pestes e outras. Todas as grandes epidemias só afetam parte de uma população. Os sobreviventes saem vacinados. Pragas e parasitas são indicadores biológicos que nos dizem estar nossas plantas ou animais doentes ou desequilibradas. Elas não têm vez em organismos sadios, metabolicamente equilibrados.

A solução, portanto, não está na erradicação. A bactéria do cancro cítrico jamais será erradicada. Ela é cosmopolita, ou seja, vive em diversas partes do planeta e em diversas plantas da família das Rutáceas, a família dos citros. Se a Secretaria da Agricultura, de Ciência e Tecnologia e a Emater pretendem fazer um trabalho realmente científico, sério, racional e humano (e todos queremos ajudá-los nisso!), terão que inverter a atual filosofia de trabalho. Vamos ensinar aos citricultores gaúchos métodos de cultivo que produzam plantas sadias que não precisam temer o cancro.

Se a nossa citricultura está hoje vulnerável a tanta doença e praga é porque os atuais métodos de cultivo estão errados. Podemos ler folhetos dos órgãos governamentais sobre condução de pomares que ensinam exatamente o contrário  do que deveriam ensinar para fazer plantas sadias, resistentes a parasitas e enfermidades. Em toda a parte vemos pomares doentes, com folhas amareladas, cloróticas. Isto porque a maioria dos agricultores seguindo orientação dos técnicos governamentais insiste em lavrar profundo, em fazer lavoura de milho e mandioca entre as linhas de árvores, já com espaçamento insuficiente, e principalmente usar adubos nitrogenados amoniacais em altas quantidades, como uréia e sulfato de amônio além de usar e abusar de agrotóxicos como os herbicidas, fungicidas e inseticidas que desequilibram a fisiologia das plantas.

Vamos aproveitar construtivamente  o dinheiro da pesquisa oficial e do Programa Estadual de Citricultura. Vamos ensinar ao citricultor a melhorar os pomares e a fazer viveiros bem feitos, dentro dos conceitos de uma agricultura ecológica: espaçamento adequado, enxertos que levem em conta resistência e afinidade, nunca lavrar profundo, manter cobertura com leguminosas e plantas nativas que nunca será capinada, apenas roçada, adubação orgânica bem madura, de estercos bem compostados ou de biofertilizante maduro, adubação mineral de solubilidade lenta, aplicações não de venenos, mas de substâncias que fortaleçam as plantas e quebra-ventos.

Trabalhos preventivos, para se contrapor ao alastramento do cancro enquanto a maioria das plantas for suscetível, deverão se limitar a localizar e tratar as plantas afetadas e a manter o viveiro ou pomar em quarentena até o desaparecimento total de infecções. Após, poderão ser liberados.

A verdadeira ameaça à citricultura gaúcha não está no cancro cítrico, o grande perigo está nos métodos de trabalho com o solo e com as plantas recomendados pela agronomia oficial. Ao invés da erradicação de viveiros e de maus tratos aos pomares, sugerimos a aplicação de técnicas ecológicas e regenerativas na instalação e manejo dos pomares.

Fundação Gaia,  Julho de 1998

(Pág. 10)

A Prefeitura de Porto Alegre também devasta

Artigo de Augusto César Cunha Carneiro*

Não obstante a pesada propaganda da Secretaria Municipal do Meio Ambiente – SMAM, através de cartazes, principalmente e inclusive da  Agenda 21, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre devastou completamente os acostamentos da antiga Estrada Edgard Pires de Castro, em Belém Novo. Foi um desbaste com maior violência do que qualquer obra semelhante às que faz o DNER nas estradas federais. A devastação municipal foi feita com machado e facão em toda a extensão da nossa estrada. As vítimas foram os arbustos e até árvores de porte.

Também em 1997, em junho, o mesmo DMLU, violando a Lei Florestal que protege as margens de rios, foi até a Praia do Leblon, no centro do Bairro Belém Novo, e ali se atirou com fúria contra a vegetação local.

Naquele recanto porto-alegrense há uma praça e defronte, uma pequena enseada com cerca de 100 metros de comprimento. Os inimigos da vegetação chegaram a entrar na água com roçadeira e degolaram os juncos até uma largura de mais ou menos 50m. Cortaram os arbustos e maricás, além de podarem árvores de porte. Havia também uns seis sarandis, sendo que quatro foram cortados a facão e os dois que sobraram o foram porque o pessoal da AGAPAN, intervindo, conseguiu impedir otérmino da estúpida obra.

AGAPAN e um voluntário defensor das árvores conseguiram parar a perniciosa obra. Efetuaram denúncia ao Ministério Público estadual que providenciou perícia, intimou a Prefeitura e está estudando a contradita da acusada, para a tomada de providências legais. Na Praia do Lami a Prefeitura repetiu o feitolimpando a vegetação “feia”.

A Prefeitura assim age porque parece que a SMAM é esquecida e não tem nenhuma influência sobre as demais repartições municipais, sendo sempre desconsiderada por quem realiza obras. Há prova desta omissão, pois os funcionários da Secretaria Municipal da Cultura chegaram a arrancar diversas árvores na praça-estacionamento do Teatro Renascença sem que se notasse a existência da SMAM nem para multar.

O autor é presidente da PANGEA. Contato: (0xx51) 3224-7014.

(Pág. 9)

Ibama proporciona triste espetáculo no RS

Em 16 de junho, o Juiz do Tribunal Regional Federal da 4ª Região Amir José Finocchiaro Sarti colocou os pingos nos “is”, data venia, ao despachar recurso contra decisão de colega seu que havia revogado decisão da Juíza Federal de Caxias do Sul, Isabel Pezzi Klein, que impedia a reabertura do Parque Nacional dos Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul.

À reinauguração, dia 30 de maio, assegurada pela liminar cassada pelo Juiz Sarti, das obras que teriam gasto R$ 4 milhões (2,5 do Governo do Estado e 1,5 do Ibama) acorreu a turma do sr. Eduardo Martins, presidente do IBAMA, juntamente com a claque do Sr. Governador do Estado do RS, Antonio Britto, incluindo aí o sr. Presidente da Fepam, em clima de ‘campanha eleitoral’, conforme registrou jornal local, com a presença de todos os prefeitos da região, vereadores, deputados, mais apresentação da Orquestra Sinfônica e público. Foi um dos últimos atos do Governador Britto antes de licenciar-se do cargo para concorrer à reeleição.

O fato é que conforme o Decreto 84.917/79, “o uso e a destinação das áreas que constituem os Parques Nacionais devem respeitar a integridade dos ecossistemas abrangidos”, o que não estaria sendo proporcionado na área, apesar dos esforços de propaganda aparentemente darem idéia contrária. Deixou-se de cumprir diversos itens exigidos pelos Planos de Manejo, privilegiando-se a atividade do ‘ecoturismo’ em detrimento da conservação da área.

A ADFG-Amigos da Terra fez-se presente à ‘reinauguração’ afirmando que a reabertura era precipitada, eleitoreira e sem que fosse implantada a infra-estrutura necessária e, exigiu pagamento das desapropriações das terras.

Diz o Juiz Sarti em sua decisão, que o IBAMA já foi condenado a executar o Plano de Manejo do Parque. E é o mesmo órgão que vem defendendo a reabertura sem que as medidas recomendadas para a sua conservação sejam tomadas.

Acompanhe o desenrolar dos fatos na página de Notícias do saite do AgirAzul na Internet (www.agirazul.com.br). Ali há também a íntegra da decisão do Juiz Sarti.

(Pág. 2)

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