
Lara salienta o espírito questionador e filosófico do pai
Fundação Gaia/Divulgação/JC
Entrevista à jornalista Bruna Suptitz para o Jornal do Comércio
Filha de José Lutzenberger e presidente da Fundação Gaia, a bióloga Lara Lutzenberger carrega no sobrenome a responsabilidade de manter vivo o legado deixado pelo seu pai. Em conversa com o Jornal do Comércio, ela fala sobre como as ideias do pai se mantêm atuais e como a vida privada do ambientalista influenciou seu modo de enxergar o mundo.
Jornal do Comércio – Quais ideias e preocupações de José Lutzenberger você considera mais atuais, especialmente diante dos impactos das mudanças climáticas e dos debates ambientais atuais?
Lara Lutzenberger – Considero que o alerta que ele fazia da necessidade de nos reconhecermos como parte de um grande, complexo e frágil sistema vivo – visão esta compreendida também pelos povos originários e comprovada pela Teoria de Gaia, mais do que a ideia popular de nos vermos como passageiros protagonistas e ditadores dos rumos coletivos sobre a Terra, é um dos pontos cruciais da visão de mundo que orientou a sua trajetória de vida como pessoa, empresário e militante ambientalista. Cientistas de renome das mais diversas nacionalidades comprovam que a emergência climática que já estamos enfrentando e que arrisca agravar-se para níveis insuportáveis, é diretamente vinculada à queima de combustíveis fósseis e ao comprometimento sério dos biomas, ou seja, é diretamente vinculada à ação humana. Impactamos e somos impactados, porque integramos uma grande teia de vida. A própria saúde dos oceanos está por um fio já e é ali que reside o maior risco de se chegar a um colapso planetário, mas também a maior oportunidade de ação rápida para reversão do quadro. Controles rigorosos sobre a pesca e exploração petrolífera, recuperação de ambientes costeiros e redução drástica dos níveis de contaminação, podem recuperar com boa celeridade processos cruciais no equilíbrio planetário. Necessitam de uma governança global que reconheça e desencadeie mudanças estruturais e morais na economia de mercado que rege o mundo (humano). Outra questão que destaco nele, era o esforço deliberado de estabelecer diálogos construtivos. Suas críticas advinham de análises holísticas, complexas, multifatoriais e eram acompanhadas de propostas construtivas e contextualizadas. Ele sabia chegar à síntese em suas análises sem desmerecer a complexidade dos fatos. Vejo predominar no mundo abordagens simplistas e descontextualizadas, que levam a embates onde só restam desconfiança, feridos e perdedores, no lugar de ponderar todos os lados e buscar consensos sobre soluções sensatas. Talvez essa fosse uma das maiores virtudes de meu pai a servir-nos de inspiração e exemplo para o enfrentamento dos desafios atuais.
JC – No convívio familiar, que aspectos da personalidade de José Lutzenberger mais ajudam a compreender os ideais que fizeram dele um ambientalista atuante e reconhecido?
Lara – Meu pai teve a felicidade de crescer num contexto familiar e de mundo, que lhe permitiram vivenciar intensamente a natureza – Porto Alegre era muito menor, mais natural e segura na 1ª metade do século passado; testemunhar o valor da solidariedade – minha avó era engajadíssima em mobilizações comunitárias vinculadas à igreja católica; encantar-se e exercitar a criatividade e o aprendizado contínuo – meu avô era artista e engenheiro arquiteto com sólida formação europeia. De espírito questionador e filosófico, ele logo percebeu os limites planetários e a insanidade de enveredarmos por uma cultura hedonista, narcisista e com gana insaciável por sempre mais riqueza e poder. Ele foi uma pessoa muito culta, sábia, empreendedora e humana, que não poupou esforços em honrar isso.
Publicado originalmente no Jornal do Comércio. Reproduzido com autorização. Link para o original na web. Publicado na edição do Caderno Especial do Jornal do Comércio sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente / 5/6/2026
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