ONGs climáticas promovem agenda própria de justiça ambiental durante a Semana do Clima de Nova York

Atividades oficiais e paralelas discutem combustíveis fósseis, financiamento do agronegócio, direito de protesto, geoengenharia, biodiversidade, pecuária e conservação da Amazônia

Porto Alegre, 20/9/2026 — Organizações ambientalistas e entidades da sociedade civil ocupam parte expressiva da programação da Semana do Clima de Nova York, realizada de 20 a 27 de setembro. Greenpeace, Friends of the Earth, WWF, The Nature Conservancy, NRDC, WRI, ActionAid e outras organizações promovem ou participam de debates que procuram introduzir na agenda climática questões como justiça ambiental, direitos dos povos indígenas, financiamento dos combustíveis fósseis, impactos do agronegócio e proteção da liberdade de manifestação.

A programação da Climate Week NYC é formada por um núcleo central, organizado pelo Climate Group, e por mais de mil atividades realizadas por governos, empresas, universidades, organismos internacionais e entidades da sociedade civil em diferentes locais de Nova York.

Muitos encontros promovidos pelas ONGs são atividades paralelas, mas estão incluídos no calendário oficial da Semana do Clima. Outros são fechados ou restritos a convidados, embora façam parte da programação reconhecida pelo evento.

Friends of the Earth questiona financiamento do agronegócio

A Friends of the Earth US promove, na terça-feira, 22 de setembro, o fórum “Food, Land, Forests & Finance” — Alimentação, terra, florestas e finanças. A atividade será realizada das 10h30 às 19h30 no The People’s Forum, em Manhattan.

O encontro pretende seguir o dinheiro que sustenta o sistema agroalimentar industrial e discutir quem se beneficia economicamente do modelo. Será lançado o relatório Food, Land & Money: The Case for Dismantling the Agribusiness Financial Complex and Funding the People’s Food Web, elaborado por organizações da sociedade civil de diferentes países.

O estudo identifica as cem empresas com maiores receitas no setor agroalimentar e procura mostrar as relações entre bancos, fundos, corporações agrícolas e cadeias globais de produção de alimentos.

Os debates abordarão as ligações entre combustíveis fósseis, agrotóxicos e conflitos armados; o direito humano à alimentação; soberania alimentar; concentração fundiária; direitos territoriais; e alternativas de financiamento controladas pelas próprias comunidades.

Entre os participantes está a brasileira Maria Luisa Mendonça, diretora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Também estão anunciados representantes da Friends of the Earth US, Foodrise, Pesticide Action Network International, ActionAid USA, Center for International Environmental Law, Institute for Agriculture and Trade Policy e movimentos ligados à agricultura e à justiça ambiental.

A atividade é aberta ao público, em inglês, e exige inscrição. A programação e o formulário estão disponíveis na página oficial do fórum.

FOE promove avaliação crítica da geoengenharia

Outra atividade registrada no calendário sob promoção da Friends of the Earth é o painel “Scientific Assessment of Geoengineering Proposals for Polar Regions”, nesta segunda-feira, dia 21, das 13h às 14h30.

O encontro híbrido reúne cientistas para avaliar propostas de intervenção tecnológica em grande escala nas regiões polares. Entre os projetos analisados estão a injeção de aerossóis na estratosfera para refletir a radiação solar, o bombeamento de água sobre o gelo marinho, a instalação de barreiras contra correntes mais quentes e a fertilização dos oceanos para aumentar a captura de carbono.

Os organizadores sustentam que essas propostas vêm recebendo atenção de investidores e financiadores sem avaliação suficiente de sua eficácia, viabilidade, custo, riscos ambientais e mecanismos de governança.

O painel apresentará um estudo elaborado por mais de 40 especialistas em clima e regiões polares. Segundo a avaliação, nenhuma das cinco tecnologias examinadas cumpriu critérios suficientes para justificar o desvio de recursos que poderiam ser empregados na redução das emissões e na remoção sustentável de carbono.

Greenpeace debate ações judiciais contra ativistas

O Greenpeace International promove nesta segunda-feira, dia 21, das 14h às 16h, o encontro híbrido “Greenpeace International and The Sixty-Five Million Dollar Letter”.

A atividade discute o uso de processos judiciais para intimidar, silenciar ou impor custos elevados a organizações ambientalistas, movimentos indígenas, jornalistas e defensores de direitos. Esses processos são conhecidos pela sigla inglesa SLAPP, referente a ações estratégicas contra a participação pública.

O debate toma como ponto de partida uma carta assinada por mais de 500 organizações há cerca de dez anos. O documento pedia que instituições financeiras interrompessem o financiamento do oleoduto Dakota Access devido aos riscos para a água, a qualidade do ar e os territórios indígenas.

A carta foi seguida por ações judiciais apresentadas pela empresa Energy Transfer. Em um dos processos, três organizações do Greenpeace foram responsabilizadas pelo pagamento de US$ 345 milhões em razão do apoio dado à resistência indígena em Standing Rock.

Para o Greenpeace, o caso representa uma ameaça à liberdade de expressão, à mobilização social e ao direito de organizações denunciarem os impactos da indústria dos combustíveis fósseis. O encontro reunirá ativistas e entidades que participaram da mobilização para discutir formas de enfrentar tentativas de silenciamento.

WWF discute financiamento para pecuária de baixa emissão

O WWF participa da organização de uma reunião sobre financiamento de sistemas pecuários e de pastoreio de baixa emissão. O encontro “Meeting the Moment: Financing Low-Emission Livestock and Grazing Systems” ocorre nesta segunda-feira, dia 21, das 13h às 16h.

A atividade reúne cientistas, instituições financeiras, formuladores de políticas públicas, empresas e representantes comunitários. Serão examinadas alternativas como melhoria das pastagens e da alimentação dos animais, manejo sustentável e redução das emissões de metano.

Os organizadores também pretendem discutir como essas práticas podem receber investimentos privados e financiamento misto, envolvendo recursos públicos e privados. O programa afirma que mulheres agricultoras e comunidades pastoris devem ocupar posição central na transição.

Além do WWF, promovem o encontro o International Livestock Research Institute, a Alliance of Bioversity International and CIAT, o CGIAR, o Bezos Earth Fund e a Global Dairy Platform. A reunião é fechada ao público.

Biodiversidade dos rios amazônicos entra na agenda

A The Nature Conservancy — TNC promove nesta segunda-feira, das 17h30 às 18h30, o encontro “Amazon Forgotten Fishes: Biodiversity for Nature, Food, and Climate”.

O evento apresenta um relatório sobre a biodiversidade de água doce da Amazônia e procura incorporar rios, áreas úmidas, planícies de inundação e espécies aquáticas às discussões internacionais sobre o clima.

Segundo a TNC, os ecossistemas de água doce são fundamentais para a adaptação climática, a segurança alimentar e a manutenção da biodiversidade, mas permanecem em segundo plano nos debates globais, mais concentrados nas florestas terrestres e na captura de carbono.

O encontro será realizado na Scandinavia House e terá a participação de Paula Caballero, Allison Aldous, Michele Thieme e Gabriel Azevedo. A atividade é aberta ao público, mediante inscrição.

A TNC também integra o “Nature Hub”, encontro de um dia promovido pela coalizão Nature4Climate na quarta-feira, 23 de setembro.

A programação do Nature Hub será dedicada ao financiamento das florestas, mercados de carbono de alta integridade, investimentos positivos para a natureza, adaptação, resiliência, oceanos e economia azul. A reunião terá dirigentes de empresas, instituições financeiras, governos, organizações civis, entidades filantrópicas e representantes de povos indígenas e comunidades locais.

Entre os parceiros estão Conservation International, Forest Stewardship Council, Wildlife Conservation Society, The Nature Conservancy, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e World Resources Institute. O evento é fechado e restrito a convidados.

Organizações brasileiras promovem debates sobre agricultura e finanças

Entidades brasileiras também aparecem na programação. O Instituto O Mundo Que Queremos, em parceria com a Eccon Soluções Ambientais e a Universidade de Nova York, promove na terça-feira, 22 de setembro, o “Climate Crossroads 2026”.

O fórum discutirá agricultura regenerativa, mercados de carbono, sistemas alimentares resilientes, combate ao desmatamento e financiamento sustentável. A proposta é aproximar representantes de governos, universidades, empresas e organizações sociais do Brasil e dos Estados Unidos.

A BrazilFoundation participa do encontro fechado “From Capital to Implementation”, no dia 22. A atividade reunirá aproximadamente 40 investidores, bancos, empresas, fundos e fundações para discutir as possibilidades de financiamento da transição brasileira para uma economia de baixo carbono.

O Instituto O Direito por um Planeta Verde é um dos organizadores do seminário “O futuro da litigância climática no mundo e as melhores práticas para o Brasil”, programado para quarta-feira, dia 23, na Universidade Columbia.

A atividade, que também tem a participação da PUCRS, discutirá como tribunais e instituições jurídicas podem cobrar compromissos climáticos e proteger direitos constitucionais diante da emergência ambiental.

Grandes redes ambientais ocupam programação

Organizações, como Natural Resources Defense Council — NRDC, World Resources Institute — WRI, Environmental Defense Fund, Center for International Environmental Law, ActionAid e 350.org, aparecem como promotoras, parceiras ou participantes de atividades sobre energia, cidades, justiça ambiental, adaptação, alimentação e financiamento climático.

Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul

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