
Leia a nota do OC (em inglês).
Segundo o cálculo apresentado numa nota explicativa do OC, na melhor das hipóteses o Brasil terminaria 2020 com emissões de carbono 2,3% maiores do que o compromisso menos ambicioso da política nacional, e 7% superiores ao compromisso mais ambicioso.
Esses números, porém, são conservadores: eles se baseiam em projeções feitas com base nas emissões de 2017. Estas desconsideram o aumento de 8,5% no desmatamento da Amazônia em 2018, que deve elevar as emissões, e a explosão ainda não computada da devastação em 2019, que afastará o país definitivamente do cumprimento da lei, salvo em caso de milagre. Em novembro, o OC lançará a edição 7 do SEEG com as estimativas atualizadas das emissões em 2018, que permitirão estimar com maior precisão em quanto a meta deverá ser perdida.
A Política Nacional sobre Mudança do Clima, de 2009, tornou lei um compromisso voluntário assumido pelo Brasil naquele mesmo ano, na conferência do clima de Copenhague, de chegar a 2020 com uma redução suas emissões em 36,1% a 38,9% em relação ao que emitiria se nada fosse feito.
Embora na época isso tenha sido um passo importante – era a primeira vez que um país emergente admitia compromissos de redução de emissões, o que tirava a desculpa dos Estados Unidos para não adotar nenhuma meta –, o cenário tendencial no qual a redução brasileira se baseava era completamente fictício. O governo brasileiro assumia que, entre 2009 e 2020, o PIB nacional cresceria 5% ao ano (pode rir, a piada é essa) e que toda a demanda adicional por energia seria suprida por combustíveis fósseis (uma virtual impossibilidade no país da cana e da energia hidrelétrica).
A projeção resultante dessas premissas era uma emissão de 3,236 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2020. O esforço nacional, sacramentado em 2010 num decreto que regulamentou a política, seria de chegar a 2020 emitindo qualquer coisa entre 2,068 bilhões de toneladas (36,1% de redução) e 1,977 bilhão de toneladas (38,9% de redução). O decreto também criava metas setoriais – entre elas a de reduzir em 80% a taxa de desmatamento na Amazônia em relação à média de 1996 a 2025, o que significava chegar a 2020 com 3.925 km2 de perda de floresta.
Em 2017, segundo o SEEG, o Brasil emitia 2,071 bilhões de toneladas brutas de CO2 equivalente. Projetando para 2020 o comportamento das emissões naquele ano, chegaríamos ao final do ano que vem emitindo 47 milhões de toneladas a mais do que o limite inferior (36,1%) do intervalo e 138 milhões de toneladas a mais do que o limite superior.
A meta de desmatamento da Amazônia só deverá ser cumprida em circunstâncias muito extraordinárias – e inéditas: com 7.536 km2 desmatados em 2018, o país estava 92% acima da meta. Nunca desde o início das medições houve uma redução da taxa à metade de um ano para o outro. E, neste ano, a crer no indicado pelo sistema Deter, do Inpe, que produz alertas de desmatamento, a taxa oficial será muito maior do que a do ano passado: a área de alertas cresceu 50% em 2019.
Em pelo menos uma reunião que teve nos EUA na semana do dia 20, antes de embarcar para a Europa, Salles disse que o Brasil estava no caminho de cumprir suas metas no Acordo de Paris – citou, por exemplo, a produção de etanol e a matriz energética com alta proporção de renováveis. O governo também tem afirmado que o país já cumpriu grade parte da restauração florestal proposta no documento anexo da NDC (a meta brasileira) e dois terços da restauração de pastagens proposta no mesmo documento.
Como a nota do OC explica, o país nem sequer apresentou um plano para implementar a NDC a partir de 2020. Ao contrário, as instituições do governo federal que deveriam elaborar e implementar esse plano foram extintas por Jair Bolsonaro e ninguém está cuidando disso hoje. Também parado está o Plano Nacional de Adaptação à mudança do clima, que é parte integral da meta brasileira em Paris. Ao deixar de cumprir as metas da lei de clima para 2020, o Brasil deve entrar endividado no período de cumprimento do Acordo de Paris, o que tornará a NDC mais cara e difícil de cumprir.
