Data centers: apresentado resultados preliminares de estudo sobre a promessa tecnológica e a omissão de impactos climáticos no YouTube

Resumo de pesquisa apresentada no Congresso da Intercom analisa 912 vídeos e aponta a predominância de discursos econômicos da indústria financeira em contraste com o baixo alcance de alertas socioambientais.

Porto Alegre, 14/9/2026 — A corrida global pelo avanço da Inteligência Artificial (IA) exige uma infraestrutura cada vez mais robusta de processamento e armazenamento de dados. No entanto, a instalação de grandes data centers no Brasil — como os projetos em Eldorado do Sul (RS) e Caucaia (CE) — tem mobilizado disputas narrativas nas redes sociais, revelando fortes marcas de desinformação e greenwashing. É o que aponta o resumo do estudo intitulado “Desinformação climática e construção de data centers no Brasil: mapeamento de atores e narrativas no YouTube”, desenvolvido no âmbito do Núcleo de Estudos em Jornalismo de Dados e Computacional (DataJor – IDP/CNPq) e apresentado em Brasília recentemente. 

O trabalho é coordenado pela professora da UNISINOS, Taís Seibt. Ainda participam dos estudos Vitor Almeida dos Santos, Gabriela Martins Dias, Marcela Canavarro e Lucas Pereira de Souza. (ver minibio abaixo). A pesquisa ainda não está concluída e deve ser publicada em 2027. O resumo foi apresentado no Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e 49º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação foi realizado em Brasília de 11 a 14 de agosto de 2026, etapa remota, e de 1º a 5 de setembro, etapa presencial.  Os trabalhos estão publicizados neste endereço.

O resumo do estudo considera que “o investimento crescente da indústria de tecnologia em soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA) veio acompanhada de expansão de data centers, centro de operações para processar e armazenar dados”. Ainda nota que “o debate, porém, não se limita ao campo tecnológico, já que a construção desses centros implica em alta demanda energética e de abastecimento de água, provocando impactos socioambientais nos locais onde são instalados, sem garantia de retorno para o desenvolvimento social e humano das comunidades impactadas”.

Nesse cenário, projetos de instalação de grandes data centers no Brasil, como em Eldorado do Sul (RS), anunciado pelo governo do Rio Grande do Sul em 2024, e em Caucaia (CE), autorizado pelo governo do Ceará em 2025, mobilizaram o debate público revelando disputas narrativas entre o desenvolvimento tecnológico e a desinformação climática.”, afirmam os autores.  

Para compreender a dinâmica das narrativas digitais, a equipe de pesquisadores coletou dados de 912 vídeos no YouTube publicados entre janeiro de 2024 e maio de 2026, utilizando a ferramenta YouTube Data Tools e o software de análise de redes Gephi. A análise exploratória revelou um crescimento contínuo do tema na plataforma, mas com uma distribuição fortemente assimétrica de visibilidade:

  • Liderança do setor financeiro: O canal da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) destacou-se com quase 6 milhões de visualizações acumuladas no período. Através de podcasts e cortes no formato Shorts, os conteúdos da entidade promovem a ideia de avanço tecnológico e crescimento econômico (“Avanço dos data centers no Brasil na era da IA”), enquanto omitem ou secundarizam as elevadas demandas energéticas e hídricas dessas infraestruturas.
  • Sensacionalismo e engajamento: O canal Fernando Miranda – Marketing registrou o maior volume de comentários da amostra (4.296 interações) com o vídeo de título alarmista “É ASSIM QUE A CHINA ESTÁ COMPRANDO O NORDESTE DO BRASIL COM R$ 90 BILHÕES”, evidenciando estratégias discursivas orientadas ao algoritmo da plataforma.
  • Imprensa e canais especializados: Portais de notícias e canais de tecnologia/negócios (como CNBC, BBC News Brasil, Canaltech, G1 e Business Insider) figuram entre os mais vistos, porém com alcance significativamente menor do que os conteúdos do setor bancário.

Vozes dissonantes e visibilidade reduzida

Embora a maioria das publicações mais vistas reforce o ecossistema de “desinformação por omissão” (invisibilizando riscos às comunidades afetadas e recursos naturais), o estudo identificou que críticas e alertas sobre o “colonialismo digital” e a alta pegada ambiental da IA dependem de divulgadores científicos e influenciadores independentes.

Canais como o de Atila Iamarino (com o vídeo “IA está sedenta”, que alcançou 243 mil visualizações) e Ian Neves (com “DATA CENTERS NO BRASIL E O COLONIALISMO DIGITAL”, somando 124 mil visualizações) atuam como vozes dissonantes relevantes. Na análise de rede, o Intercept Brasil destacou-se por ter alta centralidade na cobertura investigativa das controvérsias territoriais e ambientais envolvendo essas instalações.

Quem são os autores do estudo

O trabalho foi assinado por cinco pesquisadores com trajetória destacada na interseção entre jornalismo de dados, métodos computacionais, comunicação e análise de mídias digitais:

Taís Seibt  |  Coordenação, Pesquisa Bibliográfica e Análise

Doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — com menção honrosa no Prêmio Capes de Tese — e mestre em Comunicação pela Unisinos. É professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação do IDP (DF) e do curso de Jornalismo da Unisinos (RS). Lidera o Núcleo de Estudos em Jornalismo de Dados e Computacional (DataJor – IDP/CNPq), é diretora na agência de transparência pública Fiquem Sabendo e fundadora da iniciativa Afonte Jornalismo de Dados. Atuou por mais de sete anos no jornal Zero Hora e colabora frequentemente com veículos como The Intercept, Folha de S.Paulo, Piauí e BBC Brasil.

Marcela Canavarro  |  Análise de Redes

Doutora em Mídias Digitais pela Universidade do Porto (Portugal), mestra em Comunicação e Cultura pela UFRJ e pós-graduanda em Ciência de Dados pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Atua como jornalista de dados no DeltaFolha (jornal Folha de S.Paulo) e é professora de Cultura Digital e Ciência de Dados, reunindo mais de uma década de experiência na aplicação de métodos computacionais ao jornalismo e às ciências sociais aplicadas.

Gabriela Martins Dias  |  Coleta e Análise de Dados

Mestre em International Studies on Media, Power and Difference pela Universitat Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona (Espanha), e graduada em Jornalismo pela UFRGS. Pesquisadora associada ao UPF-Centre for Animal Ethics, possui atuação focada em ética midiática, jornalismo ambiental, produção audiovisual e análise crítica do discurso em plataformas digitais.

Vitor Almeida dos Santos  |  Coleta e Análise de Dados

Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PPGJOR-UEPG), bolsista Capes e graduado em Jornalismo pela mesma instituição. Atua em pesquisas sobre desinformação, comunicação política e impactos da inteligência artificial na sociedade, além de integrar projetos de extensão jornalística e cultural no Paraná.

Lucas Pereira de Souza  |  Análise de Dados

Especializando em Ciência de Dados pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e bacharel em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Desenvolve trabalhos de análise computacional de dados, jornalismo investigativo e pesquisas voltadas a direitos humanos, diversidade e dinâmicas do ecossistema de mídias digitais.

Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar. Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul

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