Pedro Lovatto: de venenos a frutas vermelhas: o encontro com José Lutzenberger transformou o agricultor

O caminhão desaparecia na curva da estrada de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, carregado de tomates, cenouras e repolhos recém-colhidos. Para o jovem agricultor Pedro José Lovatto, não se tratava apenas de mercadoria a caminho do mercado; eram alimentos banhados em agrotóxicos que logo estariam nas mesas de crianças, gestantes e idosos. “Foi ali que percebi que alimento não é só mercadoria”, relembrou Lovatto, detalhando o desconforto visceral de aplicar pesticidas que deixavam apenas insetos mortos pelo caminho.

Essa revelação profunda e a jornada de transformação que se seguiu são o foco de uma fascinante entrevista conduzida por Elenita Malta, professora de história da Universidade Federal de Rondonópolis. A conversa integra o projeto jornalístico e documental “Minhas Memórias com o Lutz“, do canal Lutz Global no YouTube, concebido para celebrar o centenário de nascimento do ambientalista brasileiro e porto-alegrense José Antônio Lutzenberger, nascido em 1926 e falecido em 14/5/2002.

Pedro José Lovatto, formado em Filosofia e agricultor em São Luis, distrito de Farroupilha, e que comparece aos sábados na FAE – Feira dos Agricultores Ecologistas, na primeira quadra da av. José Bonifácio, em Porto Alegre, desde 1989.

Filho de agricultores da Serra Gaúcha, Lovatto havia mergulhado nas promessas tecnológicas da chamada Revolução Verde no final da década de 1970. Junto com o irmão, aderiu a um pacote de adubos sintéticos, fungicidas e inseticidas para aumentar a rentabilidade das parreiras de uva e outras culturas. Contudo, a ilusão de modernidade durou pouco, à medida que doses cada vez maiores e novos produtos químicos, que causavam tontura ao serem inalados, se tornavam necessários para combater novas doenças.

O verdadeiro ponto de inflexão ocorreu após Lovatto se refugiar em uma mata virgem vizinha à sua propriedade. Ao observar a complexidade de um sistema natural sustentando uma explosão de vida sem nenhuma intervenção humana, ele se questionou se a agricultura também não poderia imitar essa perfeição autossuficiente. A validação de sua intuição veio em 1982, ao ler uma entrevista de José Lutzenberger no jornal Correio Riograndense, na qual o agrônomo detalhava os perigos mortais da agroquímica.

Inspirado, o jovem de 22 anos viajou a Porto Alegre pela primeira vez, movido pela urgência de encontrar o homem que ecoava suas inquietações. Após alguns desencontros e com a ajuda de diretores da associação ambientalista AGAPAN, Lovatto conseguiu interceptar Lutzenberger durante um compromisso na cidade de Bento Gonçalves. O encontro marcou o início de uma nova era para sua família. Durante uma carona no fim do dia, Lutzenberger ditou a Lovatto as “10 regras básicas da agricultura ecológica”, anotadas apressadamente em uma folha de rascunho que o agricultor plastificou e consulta até hoje.

Desde então, Lovatto não apenas abandonou os defensivos químicos, como também ajudou a fundar, em 1989, a histórica Feira dos Agricultores Ecologistas – FAE no Parque da Redenção, a primeira iniciativa agroecológica desse tipo no país criada e coordenado nos anos iniciais pela Coolmeia – Cooperativa Ecológica. Formado em Filosofia, Pedro e sua família administram o próspero “Sítio Espaço do Sossego“, onde produzem pequenas frutas certificadas, como amoras e framboesas, servindo de modelo econômico e ambiental.

Elenita Malta, Historiadora e Professora

Na visão de Lovatto, Lutzenberger era um verdadeiro “filósofo da ecologia”, que não apenas condenava o uso de químicos, mas que ensinava a urgência de ampliar os horizontes culturais e científicos da sociedade, fugindo da ignorância da hiperespecialização. Em um apelo contundente, Lovatto lembra que comer é um ato político e refuta o mito de que o orgânico é elitista. Segundo o produtor, o consumidor não deve esperar um diagnóstico grave de saúde para mudar de hábitos. “Ao buscar o alimento orgânico, tu tá dizendo para o agricultor mudar; é dessa forma que a gente muda o mundo”, defendeu.

Para assistir à íntegra desta conversa sobre José Lutzenberger, acesse o vídeo diretamente na plataforma: Minhas memórias com o Lutz | Agricultor e Filósofo Pedro Lovatto no YouTube. Da mesma série, sobre os 100 anos de José Lutzenberger, já foram realizadas entravistas com Sebastião Pinheiro e Jacques Saldanha.

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Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul

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Jornalista, Porto Alegre, RS Brasil.

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