O legado de um visionário: Imprensa Gaúcha relembra a luta e as facetas de José Lutzenberger

A Associação Riograndense de Imprensa (ARI) promoveu nesta quinta-feira (11/6/2026) um encontro histórico em suas dependências, reunindo grandes nomes da comunicação gaúcha para debater o impacto, a convivência pioneiro do ambientalismo no Brasil, José Lutzenberger. O painel “José Lutzenberger e os Jornalistas” serviu não apenas como uma homenagem no ano do centenário de seu nascimento, mas também como um alerta sobre a necessidade urgente de um jornalismo ambiental forte diante da atual crise climática. O painel foi mediado pelo jornalista João Batista Santafé Aguiar, editor do site AgirAzul.com e diretor de meio ambiente da ARI.

A Imprensa Como a Única Voz Pública Para Lara Lutzenberger, bióloga e presidente da Fundação Gaia, a relação de seu pai com a imprensa foi vital. Ela recordou que, entre as décadas de 1970 e 1990, muito antes da era das redes sociais, Lutzenberger dependia inteiramente dos repórteres para que suas denúncias ganhassem alcance. “Era uma outra forma de se comunicar, com outra relevância para o próprio trabalho dos jornalistas, que permitia que mais da metade da população tomasse conhecimento de causas tão sérias“, destacou Lara, agradecendo o compartilhamento de memórias que mantêm o legado vivo para as novas gerações referindo-se também ao filho Maurício e à filha Jasmin, presentes ao evento.

O presidente da ARI, José Nunes, sublinhou que a defesa do meio ambiente se tornou, na prática, o “quarto pilar” da instituição, unindo-se à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa e à democracia. Em consonância com esse espírito ativo, Heverton Lacerda, atual presidente da AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), aproveitou o espaço para trazer as lutas de Lutzenberger para o presente. Exibindo uma antiga edição do jornal Sobrevivência que alertava sobre o perigo das dioxinas, Lacerda convocou os jornalistas a debaterem criticamente os impactos dos novos megaempreendimentos no Estado, como a ampliação da fábrica da CMPC, e não apenas celebrarem as cifras bilionárias de investimento.

“O Alemão Louco” Que Desconstruía Pautas O painel foi marcado por relatos pitorescos sobre a rotina de Lutzenberger. Marco Antonio Villalobos relembrou a primeira vez que foi enviado à casa daquele “alemão louco”, encontrando um escritório caótico e um homem que usava o capô de um Fusca roxo para anotar seus compromissos. Dessa irreverência nasceu uma forte amizade, consolidada na cobertura do desastre ecológico do Hermenegildo, quando Villalobos acompanhou o ambientalista de perto enquanto os animais morriam na praia. Lutzenberger foi de carona ao local com o Villalobos e equipe.

Nesse contexto de embates, o jornalista Flávio Carneiro teve um papel histórico ao facilitar a publicação na íntegra do revolucionário “Fim do Futuro – Manifesto Ecológico Brasileiro” nas páginas do Correio do Povo, o principal jornal do Rio Grande do Sul à época, em 1971, dando visibilidade massiva às ideias do ecologista. Participou do painel via gravação em vídeo produzida recentemente.

Nelson Adams Filho, profissional que reside há muitos anos em Torres, RS, e se tornou um grande historiador da região, relembrou, em gravação, o dia em que foi pautado pelo Jornal do Comércio para entrevistar o ambientalista sobre os “benefícios e o progresso” que o Polo Petroquímico de Triunfo traria ao Estado. Em vez de validar a pauta, “Lutz” a desconstruiu inteiramente, deixando o jovem repórter de olhos arregalados com suas duras críticas ao modelo de desenvolvimento. Foi super bem-tratado e chegou a conhecer o jardim da residência dele.

A capacidade de influência de Lutzenberger, munido de dados científicos irrefutáveis, gerou ações governamentais reais. Walmaro Paz narrou como um almoço informal com Lutzenberger, que lhe apresentou estudos sobre a doença de Minamata no Japão, o levou a alertar o então Secretário Estadual da Saúde, resultando na suspensão imediata das obras da empresa norueguesa Borregaard temendo a contaminação do Rio Guaíba por mercúrio.

Corrupção, Agrotóxicos e as Dores do Ministério A militância incansável contra a “máfia dos venenos” (agrotóxicos) foi relembrada por Ilza Girardi. Atuando como jornalista na Secretaria da Agricultura, e depois na Sociedade de Agronomia do Rio Grande do Sul, ela viu de perto quando Lutzenberger lotou um auditório do Ministério da Agricultura para denunciar abertamente a ligação corrupta entre a indústria química e servidores públicos. Ilza ainda divertiu a plateia ao lembrar de uma “fria” na qual Lutz a colocou: servir de guia para um jornalista alemão que acabou publicando um livro sobre os agrotóxicos na Europa sem lhe dar qualquer crédito.

Aceitar o cargo de ministro do Meio Ambiente no governo de Fernando Collor foi, segundo sua biógrafa Lilian Dreyer, o “sacrifício mais doloroso” que Lutzenberger se impôs. Ele o fez para tentar barrar a destruição da Amazônia por dentro da máquina governamental. Lilian lembrou de um episódio marcante dessa época, quando o então ministro distribuiu uma circular recusando-se temporariamente a dar entrevistas, criticando abertamente o desleixo de alguns repórteres, os erros de edição que distorciam suas falas e a cultura das redações de destruir reputações.

Apesar do pragmatismo e da seriedade acadêmica elogiada por Ricardo Azeredo — que o diferenciava do mero discurso inflamado de ativistas da época —, o lado humano de Lutz sempre surpreendia. Azeredo relembrou uma inusitada entrevista para a TV na qual Lutzenberger, reclamando de fortes dores e muito mal-humorado, subitamente abaixou as calças para provar ao repórter que estava com um enorme hematoma causado por um tombo recente. Após a insólita cena, acomodou-se de lado na cadeira e concedeu uma brilhante entrevista.

Um Aviso Ignorado e o Futuro do Jornalismo O legado de Lutzenberger ressoa tragicamente com a atual realidade gaúcha. O documentarista Guilherme Castro, que está preparando uma série documental sobre a a defesa do meio ambiente no Rio Grande do Sul, definiu Lutzenberger como um “luminar de inteligência absurda”. Castro ressaltou a enorme alienação histórica da sociedade atual, lembrando que ninguém pode dizer que foi pego de surpresa pelo colapso climático, já que “Lutz” alertava sobre esses exatos riscos desde a década de 1970.

Falando da platéia, o jornalista Batista Filho, ex-presidente da ARI, destacou a importância de reverenciar José Lutzenberger, ressaltando que o seu legado se mantém vivo. Relembrou sua atuação como responsável pelo jornalismo da TV Piratini, destacando que a emissora buscava fazer o público pensar de forma crítica. Nesse contexto, Lutzenberger rendia as melhores pautas, estando sempre disponível para compartilhar sua sabedoria e sua “loucura permanente” em insistir naquilo que acreditava. Afirmou que Lutzenberger e seus contemporâneos representaram o que havia de melhor na sociedade durante a ditadura militar no Brasil, uma época de fortes restrições à liberdade de expressão e de imprensa. Ele ressaltou que, em um período onde não se podia pensar criticamente, essas pessoas traziam propostas inteligentes e novas. E comparou o ambientalista e outras ativistas da época (como Magda Renner e Dona Palmira, defensora dos animais) a Dom Quixote. Para ele, eram figuras “quixotescas” que acreditavam em suas próprias verdades e lutavam permanentemente por ideias revolucionárias de proteção à natureza e valorização do ser humano, mesmo quando isso parecia inviável.

O painel encerrou-se com uma reflexão crítica sobre a carência de um verdadeiro jornalismo ambiental na imprensa hegemônica atual, frequentemente silenciado pela pressão do mercado e de fortes anunciantes, como a indústria imobiliária. A mensagem deixada pela ARI e pelos veteranos da imprensa é clara: o jornalismo precisa ser crítico e transversal para sobreviver, e a sociedade, mais do que nunca, precisa resgatar a “loucura” lúcida de José Lutzenberger.

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Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul

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Jornalista, Porto Alegre, RS Brasil.

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