Meio século de urgência: Editora da UFRGS relança o histórico manifesto “Fim do Futuro? – Manifesto Ecológico Brasileiro”, de José A. Lutzenberger, com distribuição em PDF e gratuito

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Obra pioneira do ecologista José Lutzenberger ganha edição comemorativa em 2026, reafirmando sua impressionante atualidade diante das crises climáticas contemporâneas.

Porto Alegre, RS (29/10/2026)— Cinquenta anos após sua concepção nos ventos e nas falésias de Torres, conforme afirma Elenita Malta Pereira, o grito de alerta mais emblemático do ambientalismo brasileiro está de volta ao centro do debate acadêmico e público. A Editora da UFRGS lançou a edição comemorativa de “Fim do Futuro? Manifesto Ecológico Brasileiro”, obra clássica do engenheiro agrônomo e ecologista José Lutzenberger (1926–2002).

O livro digital já se encontra disponível para acesso público no repositório de obras acadêmicas e da editora da universidade LUME UFRGS, o repositório institucional da universidade.

A historiadora e pesquisadora Elenita assina um prefácio especial para a edição intitulado “Ideias para adiar o fim do futuro”. Nele, ela comenta a visão catastrofista adotada no livro, “bem comum nos anos 1970” e aplica alguns conceitos da teoria historiografica atual.

A reedição comemorativa integra os atos comemorativos aos cem anos de nascimento de Lutzenberger, a ser completado em 17/12/2026,

Lair Ferreira — O Professor aposentado da UFRGS e Eng. Agrônomo Lair Angelo Baum Ferreira, autor da nota introdutória original da obra, afirmou hoje ao AgirAzul.com que vê o livro como o “primeiro manifesto de brasileiro para a nossa realidade”. “Lutz não sonhou grande — só antecipou o que teríamos depois”. Considera ainda que o autor foi “corajoso e era sem papas na língua, ativo, inquieto, criativo, e um exemplo de profissional”. Lair conta ainda que seguidamente se encontrava com Lutzenberger no Pampulhinha que se localizava à época na rua Gaspar Martins porque servia salsicha, chucrute e chopps…

Celso Marques — Para o Sensei e membro da AGAPAN Celso Marques, “o fato é que a primeira e unica edição do “FIM DO FUTURO. MANIFESTO ECOLÓGICO BRASILEIRO“, foi publicada há mais de meio século. No entanto continua a ser uma resposta pioneira e original ao desafio sem precedentes da crise ecológica planetária em que vivemos.”

Considera que “haveria muito a comentar sobre o significado do FIM DO FUTURO, mas o fato é que na atual conjuntura este futuro é o presente — diante deste fato, a acanhada recepção e de respostas inteligentes à altura dos desafios e das problemáticas que ela suscita causa espanto e indignação”. “Enquanto que nossos reacionários, progressistas e desenvolvimentistas ainda não compreenderem o desafio ecologico, vemos a China proclamando ao mundo que está empenhada no projeto de constituir uma civilização ecológica“, finalizou.

Capa da edição comemorativa. Autor: Rafael Menezes Luz

A reedição, que celebra meio século da primeira circulação do texto em formato de tabloide (1976) e reconstrói a reprodução fac-similar da histórica edição de 1980, chega em um momento de profunda ressonância simbólica e material. A publicação revisita as bases filosóficas e científicas de uma das mentes mais lúcidas da conservação da natureza no país.

Um manifesto nascido entre a ciência e a utopia

Escrito originalmente entre 1975 e 1976 — em tardes inspiradas no litoral norte gaúcho enquanto Lutzenberger concebia o Parque Estadual da Guarita —, o manifesto nasceu com um propósito claro: chocar, incomodar e fazer pensar. Numa época em que o desenvolvimentismo cego ditava as regras do milagre econômico brasileiro, Lutzenberger ousou romper com o dogma do crescimento ilimitado.

O autor propôs uma visão sistêmica do planeta, definindo a ecologia como a ciência da Sinfonia da Vida e alertando que a dicotomia entre o ser humano e a natureza conduziria inevitavelmente ao colapso. Como afirmou José Lutzenberger em trecho da obra:

“A crise ecológica não é consequência de nossas más intenções, é consequência de boas intenções, mas estas boas intenções têm suas raízes em postulados falsos. Demolimos a Ecosfera porque em nossa visão alienada não lhe damos nenhum valor”.

A assustadora profecia do presente

Embora carregasse o tom de urgência típico dos manifestos dos anos 1970 — o que gerava previsões consideradas catastrofistas à época —, a releitura da obra em 2026 revela um acerto impressionante na diagnose dos rumos civilizatórios. Questões centrais levantadas por Lutzenberger ganharam contornos dramáticos nas últimas décadas, como a crise climática e os desastres extremos, visto que, segundo a professora Elenita Malta Pereira, o autor já apontava a vulnerabilidade climática global caso os grandes biomas fossem dilaçados, ecos que hoje reverberam na tragédia das enchentes históricas que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 e na degradação contínua do Cerrado e da Amazônia.

Crítico implacável da chamada “Revolução Verde”, Lutzenberger antecipou os impactos da agricultura empresarial em larga escala. Atualmente, o Brasil carrega o fardo de figurar entre os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, debatendo flexibilizações legislativas em meio a alertas de órgãos de saúde além de desagregar comunidades inteiras. Além disso, o ecologista questionava o Produto Nacional Bruto como métrica de progresso, afirmando, de acordo com o manifesto, que o indicador contabilizava a destruição de recursos naturais como “criação de riqueza”, ignorando completamente a descapitalização ecológica do planeta.

Ciência com ética: o legado para as novas gerações

Mais do que elencar fraturas ambientais, a segunda parte de Fim do Futuro? — batizada de “Reconquista do Futuro” — aponta saídas ancoradas no conceito de “ciência com ética” e na adoção do Princípio de Reverência pela Vida, formulado pelo médico e filósofo Albert Schweitzer e destacado por Lutzenberger. O ecologista defendia a descentralização econômica, o uso de tecnologias brandas, a exemplo de energias renováveis e agricultura orgânica, e o respeito intransigente aos povos indígenas e à diversidade cultural.

O relançamento disponível para todos no repositório da UFRGS cumpre um papel fundamental de preservação histórica e formação cidadã. Ao disponibilizar gratuitamente a obra para estudantes, pesquisadores e a sociedade em geral, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul revitaliza um verdadeiro “livro-semente”.

Conforme pontua a professora Elenita Malta Pereira no prefácio comemorativo, que a leitura de Lutzenberger sirva não apenas para constatar as feridas do planeta, mas para inspirar as ações urgentes necessárias para tentar adiar o fim do futuro.

A obra completa pode ser acessada de forma gratuita diretamente no portal do repositório digital LUME UFRGS.

Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar. Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul.com.

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