por Beth Renck*

Dia desses, uma grande amiga, cientista, comentou que, ao assistir uma entrevista do presidente do INPE, ouviu explicações claras, não apaixonadas, sobre aquecimento global. Respondi, que os alertas que os ecologistas fazem, há quarenta anos, não eram apaixonados, mas desesperados, apavorados com o que estava por vir. Após um debate amistoso no grupo de whatsapp, fiquei matutando sobre a razão pela qual pessoas inteligentes, boníssimas de coração, com a cabeça aberta, chegam a ter a impressão de que a paixão com que ambientalistas vêm se manifestando possa ser uma espécie de factoide, dada a ênfase com que se comunicam. Depois me veio a curiosidade de imaginar o que o Lutz* pensaria sobre como suas “crias” estão agindo no momento atual.
Pessoalmente, passei anos apática. Em parte por estar trabalhando para garantir meu sustento, em parte por acreditar que não adianta tentar prevenir o suicídio de quem já pulou da janela. Isto, claro, jamais me demoveu de fazer e de “pregar” sobre a importância de reduzir, reutilizar e compostar, de reciclar os resíduos por mim produzidos, andar de ônibus, usar preferencialmente roupas e calçados de materiais degradáveis etc etc.
Questionei-me sobre se não nos teremos tornado uma espécie de seita, pregando para convertidos, pois aí encontramos eco para nossas angústias. Importantíssimo enfatizar que desconhecia completamente o que andava fazendo cada um dos que buscaram, na turma original da AGAPAN, inspiração para sua vida, em termos de trabalho na luta ambiental.
Lembro sempre do Lutz falando da rede em que eles se haviam organizado, na teia internacional que montaram, com tantos outros mundo afora, naquela era pré-internet (por telefone, cartas e depois fax), e nos resultados que obtiveram. Ao constatar que muitos contemporâneos meus foram trabalhar em agências do setor público (uma andorinha não faz verão) e que leis muito boas foram promulgadas (no Brasil há este fato curioso, de leis que pegam ou que não pegam), eu, ingenuamente, acreditei que tínhamos aberto a trilha para a fundação de uma sociedade capaz de conviver em harmonia com a vida. Educação ambiental nas escolas, produção ecológica de alimentos, feiras de agricultores ecologistas, agricultura regenerativa, coleta seletiva de lixo, comitê de bacias… Mas Lutz também fazia um comentário recorrente: “nossas vitórias são sempre provisórias e nossos fracassos, definitivos”.
Compreendi que neste mundo onde consumimos informações (não mais revemos notícias), aquele modelo de fazer barulho, de se fazer ouvir, funciona eventualmente, quando uma pessoa carismática, teimosa ao extremo, consegue furar a bolha. Greta conseguiu por um tempo. Hoje restam pequenas notas num ou outro jornal sobre mais uma prisão desta destemida.
É inequívoco que não há uma força uníssona, que congregue aqueles que seguem nadando num mar coalhado de tubarões.
Imaginei então que poderíamos reunir uma galera e debater maneiras de chamar atenção sem discursos apocalípticos, usando métodos que atraiam interesse e virem notícia.
Na Alemanha, século 20, década de 80, foi feita uma projeção do que seria o SUPER-GAU – groesste anzunemende Unfall (maior desastre admissível) – para acidentes em usinas nucleares, para que estivessem preparados para proteger a população. Após imensas manifestações populares por todo o país, o programa de energia nuclear foi interrompido.
Estimativas costumam ser feitas baseadas nos desastres que já aconteceram (no caso das nucleares, olharam para a frente), do mesmo jeito que aqui ainda se constroem pontes com altura calculada tomando a maior marca histórica de cheias. Ter a enchente de 1941 como parâmetro para Porto Alegre não inclui na conta os aterros que fizeram na cidade desde o século passado, nem a drenagem do Banhado Grande do Gravataí. Argumentarão que construíram barragens rio acima para amenizar as cheias. Porém, a última, de novembro, encontrou barragens cheias! Isto não foi considerado.
São tantas as coisas que podemos atacar.…
Transporte público. Praticamente acabaram as lotações, aumentaram o intervalo entre um horário e outro dos ônibus. O Uber aumentou o número de carros em circulação. O carro, através de seus fabricantes e proprietários, hoje determina a organização urbana. Cada carro tem em geral duas vagas, uma na garagem de casa e outra no estacionamento. — os espaços onde ele transita são impermeabilizados, o tráfego deixa seus condutores tensos…
Sacolas plásticas no supermercado: contentamos-nos com a informação de que são feitas de plástico biodegradável. Plástico não é biodegradável! No Chile e na Argentina (desconheço se são leis estaduais ou federais) as sacolas são cobradas. Não sei como está nos outros países vizinhos.
A total ou parcial impermeabilização dos solos nos espaços de estacionamento a céu aberto, nos pátios das casas, poderia ser taxado no IPTU, para premiar os que plantam árvores nativas (que produzam alimento para humanos e a fauna das cidades), que compostam seus resíduos orgânicos, que captem água da chuva, que fazem hortas urbanas. Com uso de drones, torna-se muito fácil fazer avaliação anual. Além de refrescar, melhor dizer desaquecer o ambiente em torno, árvores tornam qualquer espaço mais aconchegante. É que folhas de árvore sujam o pátio, argumentam muitos…
Perdeu-se totalmente a conexão com a VIDA?
As igrejas de orientação judaico-cristã seguem com a tradição do Gênesis: ide e multiplicai-vos e dominai fauna e flora… É Impossível acreditar que aqueles patriarcas bíblicos pensassem em DOMINAR no sentido que hoje a sociedade do consumo dá ao termo. Certamente a asserção era no sentido de “aprendei a conviver em segurança COM as demais formas de vida”.
Replantar as beiras de rios e rearborizar nascentes é crucial para o futuro. Precisamos de todos para isto. Há dias um país criou um feriado nacional para plantar milhões de Árvores… Sebastião Salgado tem dado uma contribuição importante para reflorestar áreas de nascentes em Minas Gerais.
Citei alguns exemplos, mas há muita coisa que pode ser feita.
Pensar globalmente e agir localmente.
Lutz contava que certa feita estiveram com um governante, explicando a importância de certa decisão para evitar/resolver algum problema público. O governante compreendeu a importância da pauta que os ambientalistas defendiam. Ao ser perguntado sobre se agiria no sentido de implantar as sugestões, o mandatário respondeu: depende da força dos lobbies em confronto.
Nosso lobby pode contar com gente. Dinheiro não.
Cheguei à conclusão de que precisamos encontrar uma forma de comunicação que funcione nos tempos em que vivemos.
Convidei Lilian Dreyer para um chopp para expor minha angústia. Ela achou que sim, que vale a pena tentar algo, e perguntou se eu tinha algum contato com Silvia Marcuzzo. Disse que não. Depois do chopp recebi a programação de um seminário no MPRS sobre as catástrofes climáticas que já aconteceram. Foi muito bom. Imprensa ausente, pouco público. Lá encontrei João Batista Santafé Aguiar e Silvia Marcuzzo. Esta me falou do “poainquieta”, iniciativa com regras essenciais de convívio, para evitar cooptação por interesses que afastem os integrantes do objetivo coletivo.
A causa ambiental precisa ser apartidária, não é um espaço para indivíduos buscarem brilho pessoal. Muitas abelhas formam um enxame onde os indivíduos têm tarefas/talentos específicos para atender aos interesses do grupo. Muitos enxames criam VIDA e fazem mel.
Precisamos desenvolver a capacidade de polinizar o máximo possível de “flores-cabeça”.
Aí o algoritmo me mostra uma informação de um livro, Ser Ecológico, de Timothy Morton, filho de ativista do Greenpeace, da área de Humanas, dizendo que a forma de comunicação com que argumentamos rechaça as pessoas que pretendemos sensibilizar.
Que acham de nos unirmos para criar uma sinergia que rompa as barreiras existentes?
Um abraço!
*Beth Renck, a autora, é Enfermeira sanitarista. Coordenou o Rincão GAIA, sede rural da Fundação Gaia, entre o início, em 1988 até janeiro de 2003; tem certificação em permacultura e em sistemas agroflorestais. É agricultora urbana.
* José Antonio Lutzenberger, engenheiro-agrônomo, fundador da Agapan e da Fundação Gaia. Secretário Nacional do Meio Ambiente entre 1990 e 1992.
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Muito bom! Quando a Beth escreveu este texto?