PORTO ALEGRE — Todos os dias, as águas do Lago ou do rio Guaíba correm o risco de receber uma carga tóxica sem precedentes, capaz de alterar irreversivelmente o ecossistema e a vida de milhões de gaúchos. A proposta de ampliação da fábrica de celulose CMPC, de origem chilena, com uma nova planta industrial no Município de Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul, projeta o despejo diário de 242 milhões de litros de efluentes industriais contaminados em uma área classificada como de altíssima qualidade hídrica (Classe 1), localizada a poucos quilômetros do ponto de captação de água potável da ETA (Estação de Tratamento de Água) Ponta do Arado. Segundo as especialistas, esse volume faraônico de resíduos, somado ao lançamento da CMPC de Guaíba, 154,4 milhões de litros de efluentes por dia, com contaminantes tóxicos e persistentes, pode superar a capacidade de autodepuraçao / diluição / dispersão do material nas águas do Guaíba.

O episódio deste sábado, 25/4/2026, do programa Mesa Verde (disponível no YouTube), no qual membros da Agapan e especialistas debatem os graves impactos ambientais da expansão da empresa de celulose CMPC no Rio Grande do Sul traz denúncias sobre a contaminação do Guaíba por compostos orgânicos clorados, principalmente dioxinas e furanos — os mais tóxicos conhecidos no mundo, e criticam a omissão de dados no estudo de impacto ambiental. Além da preocupação com a saúde pública e o bioma Pampa, participantes do episódio do Mesa Verde apontam o que consideram falhas no licenciamento e a falta de diálogo com comunidades indígenas.
O episódio teve a apresentação do jornalista Heverton Lacerda, presidente da AGAPAN, de Francisco Milanez, coordenador da Comissão Técnico-Científica da entidade, e como convidados, Catia Regina Duarte Machado, bióloga e Mestre em Ecologia com 32 anos de interação com atividades industriais, Alda Maria de Oliveira Corrêa, engenheira-química, especialista em hidrologia aplicada a saneamento ambiental e Analista Ambiental da FEPAM, aposentada, e Helena Barreto dos Santos, médica intensivista, Doutora em Epidemiologia e participante do coletivo Medicina em Alerta.

O pedido de licenciamento ambiental do Projeto Natureza proposto pela CMPC está em andamento na FEPAM, órgão ambiental estadual responsável pela avaliação, com aprovação ou não, de empreendimentos com potencial de estragos ao meio ambiente (ver parte final deste texto).
O aspecto mais alarmante desse despejo, apontam participantes da transmissão, reside na sua composição química. A insistência da empresa em utilizar derivados de cloro no branqueamento do papel gera dioxinas e furanos, substâncias apontadas entre as mais tóxicas do planeta. Esses compostos organoclorados não se degradam na natureza; eles são cumulativos e lipofílicos, o que significa que se fixam nos sedimentos dos rios e se acumulam na gordura dos organismos vivos, entrando de forma letal na cadeia alimentar. Médicos e cientistas alertam que a exposição contínua a esses elementos provoca efeitos mutagênicos irreversíveis, aumentando as taxas de câncer, tumores e malformações congênitas em bebês, além de agravar doenças respiratórias e dermatológicas devido à fuligem e poeira emitidas no ar.
A destruição silenciosa também avança sobre a terra firme e a economia local. Para sustentar a megaoperação, a empresa fomenta a proliferação da monocultura de eucalipto, desestruturando o solo do bioma Pampa, esgotando aquíferos subterrâneos e eliminando banhados essenciais para a resiliência climática contra enchentes e estiagens. Nas águas, a contaminação inevitável dos sedimentos ameaça se deslocar até a Lagoa dos Patos, colocando em risco direto a subsistência de até 15 mil pescadores da região, que dependem de espécies como o camarão, o primeiro a ser atingido por se alimentar no fundo das águas.
Apesar da gravidade do cenário, o processo de licenciamento ambiental avança sob um manto de omissões e pressões políticas. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) apresentado pela empresa apresenta falhas severas, conforme os participantes do programa: não incluiu testes de toxicidade crônica para avaliar o efeito dos compostos em organismos vivos e ignorou completamente a análise de contaminação nos sedimentos — justamente onde as toxinas mais se concentram.
Esclareceu Cátia ao AgirAzul.com que “na unidade existente em Guaíba são feitos os testes de toxicidade, talvez por exigência da FEPAM — porém no EIA RIMA da nova fábrica da CMPC não aparecem simulações a respeito ou o compromisso de que serão feitos testes de toxicidade crônica no efluente da nova fábrica de celulose. Os testes de toxicidade permitem verificar os efeitos tóxicos sobre organismos vivos“.
Mais grave ainda, destaca Cátia, estudos anteriores que investigavam uma misteriosa situação de malformação de peixes no Guaíba foram paralisados. “Assim uma possível comprovação da ligação com as atividades industriais foi impedida. A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM), órgão que deveria proteger o ecossistema gaúcho, parece estar cedendo ao lobby econômico. A FEPAM deveria garantir o respeito à exigência internacional de consulta prévia, livre e informada às comunidades indígenas afetadas pelo projeto.”
O grande argumento utilizado para justificar tamanho sacrifício ambiental é a promessa de progresso econômico, traduzida na criação de 12 mil empregos. Contudo, essa narrativa esconde uma realidade efêmera. Os números inflados referem-se apenas a um pico temporário durante a fase de construção civil, que dura poucos meses. Na prática, por ser altamente automatizada, a megafábrica estão previstos cerca de 800 empregos diretos 1.500 terceirizados permamentes (conforme estudos apresentados pela empresa – pág. 15 vol I do EIA), um número ínfimo se comparado ao universo de trabalhadores da pesca que terão seus meios de vida destruídos.

O contraste se torna ainda mais revoltante quando se observa o cenário internacional. Na Escandinávia, indústrias modernas já abandonaram o uso do cloro, adotando tecnologias Totalmente Isentas de Cloro (TCF), baseadas em peróxido de hidrogênio e ozônio, para produzir papel seguro até mesmo para fraldas de bebês. Ao aceitar uma tecnologia defasada que seu próprio país de origem (Chile) rejeitou para novas expansões, o Rio Grande do Sul se sujeita a lucros privatizados para uma multinacional, enquanto a sociedade gaúcha arcará, sozinha, com uma conta impagável de devastação ecológica e degradação da saúde pública.
As vozes do alerta: especialistas denunciam o colapso iminente do Guaíba
A engenheira química Alda Maria de Oliveira Corrêa, especialista com quase 40 anos de atuação no serviço público ambiental, é categórica ao classificar a megaoperação como uma anomalia global. “Não existe no mundo nenhum corpo receptor de águas interiores que receba uma vazão de tamanho como essa”, alerta Alda, referindo-se aos mais de 240 milhões de litros de efluentes diários previstos que somam-se aos atuais 154,4 milhões de litros da fábrica existente em Guaíba. Ela ressalta que o maior perigo reside no uso do cloro, afirmando que “as fábricas de celulose são consideradas no mundo como a primeira fonte de emissão de dioxinas e furanos (…) para contaminação de águas superficiais“. Diante desse cenário de despejo contínuo, a engenheira decreta: “É uma catástrofe anunciada, porque coisas persistentes, toxicas e cumulativas não têm como remover. Serão duas megafábricas de celulose emitindo efluentes com vazão total de 396.400 m3 por dia, equivalente em volume de consumo de agua de uma populaçao de 1 milhao e 900 mil habitantes, muito superior à população de Porto Alegre, de 1 milhão e 400 mil habitantes.“
Para Alda, “o modelo de impacto apresentado pela AFRY consultora apresenta falhas estruturais por não considerar a tendência desses compostos organoclorados (AOX) e Dioxinas e Furanos a se concentrarem nos sedimentos, como importante fonte de contaminação e impacto ambiental”.
O verniz de sustentabilidade do projeto também é duramente criticado pela bióloga e mestre em ecologia Cátia Regina Duarte Machado. Ela esclarece que a diluição do esgoto industrial não anula o perigo à vida e questiona a contaminação de águas puras. O “lançamento vai ser na única área do Guaíba que é considerada classe 1. Classe 1 é a melhor água que se pode ter no corpo hídrico“, lamenta. Segundo Cátia, o sistema de tratamento de efluentes da empresa tem limites graves: “Esse tratamento não remove elementos que são cumulativos, persistentes e cancerígenos”.
Cátia também expõe a maquiagem dos números sociais e a negligência investigativa. Sobre as promessas de trabalho, ela revela: “Os 12 mil empregos é só no pico da obra. (…)”. No campo ambiental, a bióloga cobra respostas sobre um problema abafado no rio: “Existe sim um estudo sobre malformação de peixes que foi estancado (…) por que não foi dado andamento para comprovar que, na verdade, essas atividades fabris não têm vínculo com esse processo?“.


Na linha de frente da saúde pública, os prognósticos são igualmente sombrios. A médica epidemiologista Helena Barreto dos Santos descreve a contaminação em cascata que atingirá a população. “Os efeitos na saúde humana, eles começam com efeitos na saúde do trabalhador“, explica a médica. Logo a seguir, os poluentes lançados na água “entram na cadeia alimentar e que podem causar principalmente efeitos mutagênicos, então defeitos, alterações em bebês, alterações congênitas e neoplasias, tumores, cânceres“. Helena alerta que a sociedade não está preparada para as consequências: “A gente está falando de um impacto em um sistema de saúde que a gente já vê quase que colapsando”.
O professor e ex-presidente da Agapan, Francisco Milanez, traduz a indignação com o modelo de negócio que privatiza lucros e socializa o adoecimento. Ele denuncia a subserviência gaúcha ao aceitar um projeto poluente que poderia ser evitado: “A certeza de fazer mal para a nossa saúde em troca de uma tecnologia superada que existe melhor”. Para Milanez, a equação é injusta, pois “o povo gaúcho inteiro perde sua saúde em troca de uma empresa chilena (…) ganhar dinheiro e morar bem longe daqui”. A empresa foi fundada em 1920 e é a pioneira na fabricação de celulose e papel no Chile. O Grupo CMPC é o segundo maior do setor na América Latina, com 44 plantas industriais em 8 países: Brasil, Chile, Argentina, Colômbia, Equador, México, Peru e Uruguai. O Grupo conta com mais de 17 mil colaboradores.
O jornalista Heverton Lacerda, presidente da Agapan, não hesita em apontar uma possível interferência política que contamina o processo de aprovação do projeto, ignorando leis internacionais de consulta a povos indígenas e falhas técnicas. “Nós temos excelentes técnicos na FEPAM e no Estado brasileiro: concursados, bem preparados, mas que precisam ter liberdade plena para trabalhar”.
RPPN Barba Negra
A CMPC pretende que a Reserva Particular de Patrimônio Natural RPPN Barba Negra, localizada aonde a empresa deseja montar a sua nova unidade fabril, seja em parte desafetada. Para viabilizar a passagem do emissário de efluentes, da adutora de captação de água e a construção do terminal portuário, será necessária, considera o projeto, a supressão de vegetação nativa, especialmente de Restinga Arbórea. Para que isso ocorra, foi solicitada a “desafetação” (retirada do status de proteção legal) de uma parcela da RPPN: 2,29 hectares para um emissário e 12,84 hectares para o terminal portuário e adutora. O fato foi destacado no programa pela bióloga Cátia: “se trata da instalação de uma nova unidade dentro de uma area protegida. Existe a argumentação de que a empresa é proprietária da area, portanto está propondo a desafetação. Desafetar é desfazer esta área de proteção natural, local onde inclusive foram mapeadas espécies em extinção”. Ver descrição da RPPN em https://www.sema.rs.gov.br/rppn-estadual-barba-negra.
Licenciamento
Em abril de 2026, a FEPAM oficiou à CMPC para que respondesse as observações de parecer técnico. É possível consultar o processo de licenciamento 3705-05.67/25-9 no sistema SOL É público para quem entrar via sistema gov.br. Dentre as exigências do parecer está o seguinte:
Não foram avaliados especificamente os possíveis impactos de alteração da qualidade da água para as captações de água para abastecimento público, bem como para a diluição dos efluentes já lançados pelas ETEs ETE Navegantes, ETE Serraria e ETE Belém Novo. Foi informado que, conforme as modelagens, os impactos não ocorrerão e conclui-se que a operação do
empreendimento não acarretará impactos significativos na qualidade da água do Lago Guaíba; também foi informado que as captações e lançamentos no Guaíba não deverão sofrer impactos decorrentes do lançamento de efluentes do empreendimento. É necessário apresentar a avaliação da modelagem já realizada, ponto a ponto desses usos existentes, de forma que se comprovem as modificações em termos de qualidade da água antes e depois do lançamento pretendido. Ainda assim, mesmo que as modelagens indiquem que não haverá impacto, as captações e pontos de lançamento estão dentro da AID e, portanto, o impacto deve ser monitorados pois, se algo ocorrer em desacordo com as modelagens previstas, é preciso ter um plano de ação para evitar ou mitigar esse impacto. (Pág. 5/9 do PARECER TÉCNICO 114/2026 – SEGEH/DIGEN)(destaque original do documento). (Nota do editor: AID significa ‘Área de Influência Direta‘)
Veja mais:
- — Pesquisa no Google sobre o projeto Natureza da CMPC
- — Programa Mesa Verde deste sábado 25/4/2026 no YouTube
- — Localize no Mapa do Google a localização do local pretendido da futura fábrica, em Barra do Ribeiro
- — “CMPC” neste site do AgirAzul.com
- — “CMPC” no site das Amigas da Terra Brasil.
- — Mininco Florestal atuando no sul do Chile
Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contato e envio de materiais para o AgirAzul
