Em meio à crise climática, megaprojeto de Celulose divide o sul do Brasil

POR REDAÇÃO

PORTO ALEGRE, Brasil — As cicatrizes das enchentes catastróficas de maio de 2024 ainda marcam profundamente a paisagem e a psique do Rio Grande do Sul. No entanto, dentro das paredes do parlamento gaúcho, uma nova tempestade se forma. No centro de um debate acalorado está o “Projeto Natureza”, um empreendimento colossal de 27 bilhões de reais que promete revitalizar a economia estagnada da região sul do estado, mas que ativistas e cientistas temem ser uma bomba-relógio ecológica para o Guaíba. A reunião foi chamada por requerimentos de três Comissões permanentes da Assembleia Legislativa e copresidida pelos deputados Leonel Radde (PT) e Marcus Vinícius Vieira de Almeida (PP). Mais deputados estaduais se fizeram presentes.

A empresa chilena do setor de papel e celulose, CMPC, planeja erguer uma das maiores fábricas do mundo na pacata Barra do Ribeiro (a fazenda Barbanegra, local desejado atualmente da planta, está à 10km da cidade, na beira do Guaíba), com a meta de produzir 3 milhões de toneladas de celulose por ano. Durante o evento, a empresa apresentou uma visão reluzente de sustentabilidade industrial. Otemar Alencastro Santos – Gerente de Projetos Especiais da CMPC e Eng. Mecânico, destacou que a planta não utilizará diretamente combustíveis fósseis, reciclará 86% da água e que suas florestas (sic) sequestrarão 120 vezes mais gases de efeito estufa do que toda a sua operação logística emitirá. Clovis Zimmer, consultor de meio ambiente da empresa, foi categórico ao rejeitar os temores de contaminação, afirmando que a adoção da tecnologia ECF (livre de cloro elementar) “eliminou a geração de dioxinas e furanos” (ver links abaixo). A apresentação da empresa, quasi ao final, foi interrompida pelo presidente dos trabalhos porque já teria excedido o tempo.

O professor Paulo Brack colaborou com o Engenheiro Otemar ao corrigi-lo quando este chamou de ‘floresta’ as monoculturas, no que foi prontamente corrigido. (A intervenção expontânea e no sentido de colaborar do Professor Brack e aceita pela CMPC foi objeto de 5 minutos de pedidos dos deputados para que não houvesse mais intervenções das pessoas convidadas).

O empreendimento no Rio Grande do Sul atualmente conta com uma unidade industrial no Municipio de Guaíba, em frente à Porto Alegre. A planta inicial para produção de celulose foi implantada no local pela norueguesa Borregaard no período da ditadura empresarial-militar no Brasil, na década de 1970/1980 com inúmeros problemas de localização e tratamento de efluentes. A situação foi amplamente atacada por setores dos governos estaduais a partir de críticas de ambientalistas e técnicos chegando a se tornar respeitada no meio fabril como uma das mais ‘limpas’ do mundo. 

A comunidade científica e ambiental, contudo, formou um paredão de ceticismo. O pesquisador e botânico Paulo Brack, da UFRGS e do InGa, desmistificou o verniz ecológico das extensas plantações de eucalipto, classificando-as estritamente como “lavouras de madeira” desprovidas da biodiversidade de uma floresta real. Ele apresentou um contraponto alarmante no consumo hídrico: o complexo consumirá cerca de 288 milhões de litros de água por dia e despejará 240 milhões de litros de efluentes — um volume que supera o consumo e o descarte de toda a população de Porto Alegre.

Em declarações complementares ao portal AgirAzul.com, Brack desnudou a pegada de carbono oculta na logística internacional do projeto, rebatendo o suposto sequestro de emissões defendido pela CMPC. Ele alertou que cerca de um terço da produção será destinada à China, exigindo frotas de navios que percorrerão 20 mil quilômetros em viagens de 45 dias. Cada embarcação queimará até 3 milhões de litros de diesel fóssil, gerando uma imensidão de gás carbônico na atmosfera. “É um modelo de economia de dependência… periferia mundial, em que nós estamos exportando celulose com alto custo”, criticou o professor, afirmando que o estado, na prática, está exportando matérias-primas primárias e “água pura“.

Brack também expôs a fragilidade socioeconômica das promessas corporativas frente às comunidades tradicionais. Enquanto a empresa garante 2.300 postos de trabalho diretos na operação, o professor ressaltou que dados oficiais do Ministério da Pesca registram 7.078 pescadores que dependem da integridade ecológica do Guaíba e da Lagoa dos Patos para trabalhar, cujos meios de subsistência estão sob grave ameaça. Diante da gravidade, Brack confirmou que o comitê que está acompanhando o licenciamento do empreendimento acionará o Ministério Público Estadual para solicitar que solicite o desaforamento de uma ação judicial que corre em Barra do Ribeiro para a capital, e a realização de audiências públicas em Porto Alegre. A justificativa é cristalina: bairros como Belém Novo e suas áreas de captação de água estão na rota direta da pluma de efluentes da indústria.

A crítica de Brack à contaminação foi reforçada por Alda Maria de Oliveira Correa, ex-técnica da FEPAM, que alertou para a complexa hidrodinâmica do lago que não consegue lavar as toxinas. Ela explicou que compostos lipofílicos, como dioxinas e furanos, tendem a se acumular nas argilas do fundo, afetando os organismos bentônicos e subindo pela cadeia alimentar até o consumo humano.

Sophia Maia Rose, ativista de 18 anos da ONG Ser Ação, capturou a ansiedade de uma geração assombrada por desastres. Após relatar casos de doenças severas em trabalhadores da CMPC e moradores, ela confrontou a mesa com o inevitável imprevisto climático. “O que acontece na nossa próxima emergência climática com os 396 milhões de litros de efluentes industriais diários quando uma nova catástrofe como a de maio de 2024 se encontrar no Guaíba?“, questionou Rose, acusando o modelo industrial de privatizar os lucros para acionistas no Chile enquanto socializa os danos na água brasileira.

Eduardo Raguse, da Amigas da Terra Brasil, corroeu ainda mais a confiança na promessa corporativa ao focar no histórico da unidade já existente da empresa na cidade vizinha de Guaíba. Ele denunciou que a população local convive com odores de “ovo podre”. Raguse afirmou a FEPAM (órgão ambiental estadual) de trabalhar uma “legalidade construída” ao afirmar que normas teriam sido flexibilizadas para permitir o funcionamento da empresa, alertando também que moradores vivem a poucos metros de tanques de armazenamento contendo mais de 100 toneladas de gás cloro letal, um barril de pólvora.

A avaliação técnica final e contundente veio de Lisiane Becker, conselheira do CONAMA e do Conselho Regional de Biologia, e da entidade Mira Serra. Becker revelou que os próprios relatórios da CMPC admitem que o município sede, Barra do Ribeiro, não possui infraestrutura urbana para suportar a magnitude populacional da obra. Ela apontou falhas graves na modelagem que desconsidera a conexão com a Lagoa dos Patos e concluiu taxativamente: “O grau de impacto sobre o meio ambiente está acima do limite para ser compensado financeiramente”. A fala da bióloga não chegou ao final (ver texto abaixo).

Apesar do forte rechaço científico e social, a fratura política e econômica no estado ditou o tom de encerramento da sessão. Lideranças políticas da empobrecida metade sul do estado e representantes industriais da FIERGS atacaram a “grenalização” do investimento de R$ 27 bilhões. Vereadores acusaram os ambientalistas da região metropolitana de criticarem o desenvolvimento do conforto de seus “ares-condicionados”, ignorando a miséria de municípios que veem na celulose a sua última chance de sobrevivência. No epicentro da crise climática brasileira, o Rio Grande do Sul segue dividido entre a esperança de um renascimento econômico forçado e o medo sombrio de selar o seu próprio colapso ecológico.

O missionário Roberto Antonio Liebgott, representando o CIMI – Conselho Indigenista Missionário fez as seguintes observações, em transcrição livre:

— “Dois povos são afetados pelo empreendimento, né, o povo Guarani com diversas comunidades e o povo Caingangue com uma comunidade. E, com relação a consulta livre, prévia e informada, é importante esclarecer que os Guarani têm um protocolo de consultas. Há efetivamente sobre as comunidades mais diretamente impactadas uma presença e uma incidência grande da empresa da CMPC. Mas o protocolo de consulta exige dois momentos, e o Cacique Santiago aqui ajudou a construir esse protocolo. O protocolo prevê que quando um empreendimento impacta algumas comunidades, os caciques de todos os territórios guarani da região precisam ser consultados. Essa é a primeira etapa. A segunda etapa do protocolo é sobre aqueles que terão um impacto direto. O que que aconteceu? Houve um saltar, e se passou a investir num contato direto com as comunidades que são impactadas e não respeitar o protocolo de consulta livre, prévia e informada. E isso é que motivou as lideranças do estado do Rio Grande do Sul. E aí houve uma reunião na Procuradoria Regional Federal com quase 50 lideranças indígenas em que eles pediram ao Dr. Ricardo Gralha, (Nota do Editor: ver nota) procurador da República, que pedisse para a FEPAM, para o empreendimento e para a FUNAI que o protocolo de consulta dos Guarani fosse respeitado. A partir disso houve uma mobilização contra o Ministério Público, contra o próprio procurador da República e contra lideranças indígenas no sentido de que ele estaria passando por cima da legislação. Não, ele apenas faz aquilo que as lideranças indígenas, em reunião com o procurador da República, requereram. Então há uma lacuna que vocês não preencheram nesse procedimento.”

Também se referiu a um ‘velho guarani’: “Ah, e eu conheci um velho guarani que é o avô do Arnildo, seu Turíbio, e ele vivia com a enxadinha. E ele sobreviveu com a enxadinha. Ele morreu com 101 anos, e ele sempre me dizia quando eu ia na aldeia dele, assentaram eles numa área que só tinha eucaliptos. E aí ele dizia: ‘Roberto, tá vendo essas árvores? Nem passarinhos sentam nelas’. Eu disse: ‘É verdade, seu Turíbio’, porque elas são estéreis, né?. Então nós vamos ter um monocultivo gigante aqui no estado do Rio Grande do Sul, eucaliptos que não são florestas, né?.

Ao final dos seus três minutos questionou a CMPC sobre quanto gastam em publicidade — “Porque vocês estão financiando rádios com programas de futebol, vocês financiam jornalismo. É 24 horas por dia propaganda da CMPC na rádio. Quanto é que está sendo gasto em publicidade para vender ilusão?”.

Não houve espaço para respostas da empresa: o bloco reservado para os executivos responderem às críticas ocorreu antes da abertura dos microfones ao público geral. Logo após a fala de Roberto, o microfone foi passado imediatamente para as duas últimas inscritas do público. Na sequência, como o relógio atingiu pontualmente 14h, o presidente da comissão encerrou a sessão de forma abrupta e compulsória, pois o regimento exigia o início da sessão ordinária da Assembleia Legislativa no mesmo horário. O microfone da Lisiane Becker, que estava falando no momento e protestando por terminar duas ou tres frases, foi cortado por determinaçao do deputado Leonel Radde. Consequentemente, a empresa não teve a oportunidade de retomar a palavra no final do evento. O deputado Miguel Rossetto defendeu a realização de mais audiências sobre o assunto.

Leia também:

— O uso da tecnologia de branqueamento ECF (livre de cloro elementar), no tratamento da fabricação de celulose, não gera dioxinas e furanos? ou gera? indicar as fontes? Respostas do Chatgpt e do Gemini. A eliminação das dioxinas e furanos não é total.

— Matinal Jornalismo Audiência pública da CMPC teve 2 horas de elogios; críticos foram vaiados – Matéria de Pedro Pereira

— Agência de Notícias da ALRS – Matéria da Rádio da Assembleia Legislativa – repórter Bárbara Scussel,

— – Agência de Notícias da ALRS – Audiência Pública defende Projeto Natureza e debate segurança jurídica do maior investimento do RS – – Texto de Solange Fortuna,

— Agência de Noticias da ALRS – – Audiência Pública debate impacto da implantação de fábrica de celulose em Barra do Ribeiro – Texto do jornalista Vicente Romano, da ALRS. (com link para fotografias em alta resolução)

— Íntegra do evento no YouTube

— GZH – Indígenas, efluentes e eucalipto: apontamentos da audiência e respostas da CMPC sobre nova fábrica
Encontro lotou uma sala na Assembleia Legislativa nesta quarta-feira

— Correio do Povo – Processo envolvendo instalação de planta da CMPC é tema de audiência na ALRS

— Jornal do Comércio – Projeto da CMPC é debatido em audiência na Assembleia Legislativa – Matéria de Jefferson Klein.

Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul.com.

Fotografia de Marcelo Oliveira (ALRS)

 

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Jornalista, Porto Alegre, RS Brasil.

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