Lavouras de soja e silvicultura são principais responsáveis pela conversão da vegetação nativa do Pampa (Foto: Divulgação / Prefeitura de Jaguarão)
Dados do MapBiomas Pampa Trinacional mostram que o Brasil registrou maior redução de vegetação nativa nos últimos 40 anos
Por Micael Olegário para o site http://www.projetocolabora.com.br | ODS 15
As monoculturas são as principais responsáveis pela perda da vegetação nativa do Pampa na América do Sul. Entre 1985 e 2024, o bioma teve uma redução de 11,3 milhões de hectares de sua biodiversidade natural, principalmente, campestre. No mesmo período, a área agrícola aumentou em 33% e a silvicultura em 503%.
A vegetação nativa, que antes da colonização europeia cobria toda a região pampeana, agora cobre apenas a metade ou 56 milhões de hectares. Os dados são da Coleção 5 do MapBiomas Pampa, divulgada nesta sexta-feira (04/09), resultado de análise com imagens de satélite por uma rede colaborativa de especialistas da Argentina, Brasil e Uruguai.
Na porção brasileira do bioma, no Rio Grande do Sul, a área de silvicultura, que ocupava 44 mil hectares em 1985, passou a ocupar 738 mil hectares em 2024, o que representa um aumento superior a 1500%, sendo as principais espécies plantadas eucalipto, pinus e acácia. Já a área destinada para cultivos anuais e perenes, principalmente soja, foi de 4,8 para 7,8 milhões de hectares, um crescimento de 3 milhões de hectares ou 63,2%.
O avanço dessas monoculturas ajuda a explicar o fato do Brasil ter a maior perda proporcional de vegetação nativa no período analisado. Entre 1985 e 2024, a área ocupada pelas pastagens e campos passou de 12,4 milhões de hectares para 8,6 milhões de hectares, redução de 30%. A perda total foi de cerca de 3,7 milhões de hectares, equivalente a 75 vezes a superfície do município de Porto Alegre (RS).
“No Brasil, a perda dos campos nativos aumentou nos últimos dez anos e não mostra sinais de redução significativa”, alerta Eduardo Vélez, da equipe MapBiomas Brasil e um dos responsáveis pelo monitoramento.
Argentina e Uruguai
A Argentina foi o país que registrou a maior perda de vegetação nativa em termos absolutos: cerca de 4,8 milhões de hectares, redução de 12% em 40 anos. A área de Pampa transformada no país corresponde a mais de 123 vezes a superfície ocupada pela região metropolitana de Buenos Aires.
Assim como no Brasil, a degradação do Pampa argentino está associada diretamente com a expansão das monoculturas. “A área agrícola teve um aumento líquido de 4,8 milhões de hectares”, aponta Diego de Abelleyra, do Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria (INTA), da Argentina.

No Uruguai, a perda de vegetação nativa foi de 2,8 milhões de hectares, uma queda de 19% entre 1985 e 2024. Nesse período, a área agrícola aumentou 136%, passando de 1,4 milhão para 3,4 milhões de hectares. A mudança também esteve associada a um aumento relativo de mais de 900% da área de silvicultura, que passou de 117 mil hectares em 1985 para 1,3 milhão de hectares em 2024.
“Em nosso país, a perda dos campos nativos resultou de um efeito combinado do avanço da agricultura e da silvicultura”, destaca Santiago Baeza, da Faculdade de Agronomia da Udelar e coordenador do MapBiomas Pampa no Uruguai.
Juntas, as áreas de silvicultura e de lavouras de grãos, respondem por 4,7 milhões de hectares ou 26,5% de todo o território do país, que é de 17,62 milhões de hectares, o segundo menor da América do Sul.

Diversidade ameaçada
A região pampeana cobre cerca de 109 milhões de hectares, o equivalente a 6% da América do Sul, e compreende o sul do Brasil, todo o Uruguai e o centro-leste da Argentina.
Os campos nativos possuem diversas espécies de gramíneas e ervas, além de uma fauna adaptada e endêmica, como o quero-quero, o tuco-tuco-das-dunas, o gato-palheiro-pampeano e o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha. Para além da visão tradicional, o Pampa possui grande diversidade de flora: em um metro quadrado de pastagem é comum encontrar de 10 a 60 espécies de plantas.
O lançamento dos dados da Coleção 5 do MapBiomas Pampa acontece no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, declarado pelas Nações Unidas. O objetivo é reconhecer o valor ecológico e social desses ecossistemas, a exemplo do Pampa.
Eduardo Vélez chama atenção para o papel da biodiversidade do Pampa na regulação do ciclo da água e no controle da erosão, atuando como um tipo de esponja natural. “Quando as monoculturas avançam muito, reduzindo substancialmente as áreas de vegetação nativa, florestal, campestres ou de banhados, há uma perda da função de regulação da vazão os arroios e rios da região”, aponta o pesquisador.
O Pampa é, assim como outros biomas, também parte da identidade e cultural regional. Pecuaristas familiares, indígenas, quilombolas, povos ciganos são algumas das populações tradicionais que dependem do bioma.
A degradação da vegetação nativa ocorre em um contexto de extremos de clima cada vez mais frequentes e intensos na região pampeana, consequência direta da ação humana que leva às mudanças climáticas. Segundo o pesquisador do MapBiomas, perder a vegetação nativa do bioma é abrir mão de um tipo de garantia para o futuro, uma vez que, esse ecossistema é adaptado para lidar com extremos, a exemplo da sua capacidade de regulação hídrica.
“O efeito da vegetação nativa para atenuar os efeitos danosos desses fenômenos tem sido pouco valorizado e quase não existem medições quantitativas do quanto a perda dessa vegetação impacta a intensidade das enchentes. Mas impacta e muito. Manter a vegetação nativa é um tipo de solução baseada na natureza, que não depende de obras caras de engenharia que muitas vezes nem funcionam conforme projetado ou causam mais impactos negativos do que benefícios”, acrescenta Eduardo Vélez.
O autor é Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade. Reproduzido no AgirAzul.com com autorização do autor.

