Pesquisa acadêmica recém-finalizada analisa o deslocamento forçado em São Leopoldo e aponta que a cobertura jornalística priorizou a emergência em detrimento da prevenção histórica.
Madrid, 26/8/2026 – – Um estudo acadêmico recém-concluído na Espanha traz um diagnóstico profundo sobre as conexões entre a crise climática, o planejamento urbano inadequado e os fluxos de mobilidade humana forçada no Brasil. Intitulado “Desplazamientos forzados por impactos climáticos: riesgos ambientales, presiones humanas y estrategias de adaptación desde el municipio de São Leopoldo, Río Grande do Sul, Brasil”, o Trabalho de Fin de Máster (TFM) foi apresentado no Instituto Universitário de Estudos sobre Migrações da Universidade Pontificia Comillas, em Madri.
A autoria é do jornalista e pesquisador brasileiro Aldem Bourscheit Cezarino, sob a orientação do professor Alfredo dos Santos Soares. O estudo, concluído em junho de 2026, joga luz sobre as históricas enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, analisando o caso de São Leopoldo e avaliando a qualidade do jornalismo de risco na cobertura do desastre.
Objetivos: O Nexo entre Clima, Solo e Informação
O objetivo geral do trabalho foi analisar os nexos entre os deslocamentos forçados de populações, a crise climática e as formas de ocupação do solo, além de avaliar o papel e a qualidade do jornalismo ambiental na forma como a sociedade compreende e reage a esses desastres. De forma específica, o estudo buscou analisar as tendências climáticas locais e demonstrar como o uso do território, a degradação ambiental e a perda de áreas naturais aumentam a exposição de certas populações a riscos.
Outro pilar da pesquisa foi escrutinar a cobertura midiática das cheias de 2024, determinando se ela ajudou a explicar as causas de fundo e as responsabilidades envolvidas ou se limitou a registrar os danos imediatos. Conforme as hipóteses levantadas pelo autor, a redução de futuros deslocamentos climáticos depende diretamente de uma melhor articulação entre as políticas públicas de adaptação climática, o planejamento territorial urbano, a conservação do meio ambiente e uma cobertura jornalística contínua e contextualizada.
A Pesquisa: Métodos Qualitativos e Percepção de Jornalistas
A metodologia adotada para o desenvolvimento do estudo combinou abordagens qualitativas e quantitativas. O pesquisador realizou uma extensa revisão bibliográfica sobre migração, deslocamento forçado e vulnerabilidades socioambientais. Além disso, coletou e analisou dados socioambientais e territoriais com o apoio das plataformas MapBiomas e Natureza On (2026) para mapear o uso do solo e quantificar o risco de inundações em São Leopoldo.
Para avaliar a dimensão comunicacional e o papel da imprensa, Cezarino aplicou um questionário online de 25 perguntas a 32 jornalistas profissionais vinculados à Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), cujos membros interagem via grupo de emails e de whatsapp. A pesquisa capturou as percepções desses profissionais sobre os limites editoriais, o acesso a dados e a eficácia da cobertura informativa durante e após a fase mais aguda das inundações de 2024.
O Caso de São Leopoldo: Tragédia e Vulnerabilidade Acumulada
O estudo utiliza o município de São Leopoldo como expressão local de vulnerabilidades acumuladas ao longo de séculos de urbanização desordenada. Nas cheias de 2024, provocadas por chuvas históricas acumuladas de até 700 mm no estado, cerca de 180 mil moradores da cidade foram diretamente afetados (equivalente a 83% da população total do município). Desses afetados, até 150 mil pessoas se viram obrigadas a abandonar seus lares no ponto mais crítico da emergência, quando as águas do Rio dos Sinos transbordaram e romperam os diques locais.
Cezarino demonstra que a catástrofe de São Leopoldo não é um evento puramente natural. A bacia do Rio dos Sinos passou por um processo de ocupação residencial, agrícola e industrial consolidado desde a chegada da imigração alemã em 1824, muitas vezes avançando sobre áreas ribeirinhas baixas e de drenagem natural.
Dados coletados pelo projeto MapBiomas mostram que, entre 1985 e o período recente, as áreas de água livre em São Leopoldo diminuíram 24%, enquanto a mancha urbana cresceu 76% (passando de 2.600 para 4.600 hectares), concentrando-se pesadamente em zonas baixas altamente suscetíveis a cheias.
O estudo também questiona os limites da engenharia convencional empregada no município, centrada em 18 km de diques construídos desde a década de 1970. Embora tais estruturas reduzam impactos de cheias de menor porte, elas geraram uma falsa sensação de segurança entre a população e os setores público e privado, fomentando a ocupação contínua de áreas naturais e de risco, o que agravou severamente os danos quando o sistema falhou.

A Cobertura na Mira: Falhas Preventivas e Limites Editoriais
A pesquisa com os jornalistas da RBJA revelou lacunas significativas na comunicação de riscos. Nada menos que 78,1% dos profissionais consultados discordaram de que a cobertura da imprensa tenha antecipado com suficiente antecedência os riscos de inundação, o que evidencia uma falha grave na comunicação preventiva. Além disso, 68,7% apontaram que os veículos falharam em explicar de forma clara a diferença entre oscilações meteorológicas pontuais e o processo estrutural de mudança climática a longo prazo.
A abordagem sobre os deslocados climáticos também foi avaliada criticamente: 65,6% dos participantes relataram que o abandono dos lares não foi apresentado de forma clara como um fenômeno relacionado à crise climática, sendo tratado apenas como uma consequência imediata e passageira das inundações. O estudo aponta ainda que, passada a fase de emergência, 75,4% dos jornalistas observaram uma perda drástica de relevância do tema na mídia, dificultando a discussão sobre reubicamento planejado, saúde mental e revisão de políticas públicas de adaptação.
O pesquisador constatou que a proximidade física do repórter com o desastre influenciou sua visão crítica: os jornalistas que residiam no Rio Grande do Sul (28,1% da amostra) avaliaram a cobertura com muito mais rigor do que aqueles localizados fora do estado. Apesar das críticas, 90% dos respondentes concordaram que o jornalismo ambiental possui um potencial estratégico essencial para atuar na mitigação e na redução de futuros riscos climáticos.
Conclusões e Recomendações: O Caminho das Soluções Naturais
O trabalho de Aldem Cezarino conclui que os deslocamentos forçados no Sul do Brasil expressam um quadro severo de injustiça climática e territorial, atingindo com maior violência as populações de baixa renda e menos recursos, que vivem em bairros periféricos inundáveis de São Leopoldo como Feitoria, Campina e Vicentina.
Para romper esse ciclo de vulnerabilidade e deslocamento sistemático, o pesquisador propõe recomendações práticas direcionadas à gestão governamental, urbana e da informação:
- Habitação Digna: Vincular as políticas de adaptação climática às de moradia popular segura, garantindo que as populações deslocadas não sejam movidas para novas áreas vulneráveis.
- Implementação de Soluções Baseadas na Natureza (SbN): Adotar medidas ecológicas de amortecimento hídrico de forma complementar aos diques tradicionais, como parques lineares multifuncionais, renaturalização de córregos urbanos e jardins de chuva para conter o escoamento.
- Planejamento Integrado de Bacia: Articular as ações de drenagem urbana de forma regionalizada em toda a bacia hidrográfica do Rio dos Sinos, em colaboração com o comitê de bacia (Comitesinos), superando decisões isoladas de governos municipais.
- Fortalecimento das Redações e Formação Profissional: Oferecer melhores condições de trabalho aos jornalistas, acesso a dados científicos abertos e incentivar uma cobertura contínua e contextualizada antes, durante e após os desastres.
- Comunicação Pública do Risco de Forma Permanente: Desenvolver canais integrados de informação contínua entre governo, universidades e comunidades para manter a população informada sobre rotas de evacuação, mapas de risco e sistemas de alerta.
O recém-finalizado estudo de Aldem Bourscheit Cezarino deixa uma lição definitiva: a contenção de danos e a mitigação dos deslocamentos climáticos não se resolvem apenas com tijolos e concreto de obras de emergência. O enfrentamento à crise do clima exige, de forma conjunta, o resgate das funções ambientais dos territórios, o combate firme às desigualdades sociais e uma comunicação transparente e comprometida com a justiça urbana.
Quem é Aldem Bourscheit Cezarino?
Jornalista nascido em Porto Alegre em 1973, Aldem Bourscheit iniciou sua relação com o movimento ambiental no Rio Grande do Sul e construiu uma carreira dedicada à cobertura de ciência, conservação da natureza, clima e políticas públicas.
Aldem Bourscheit nasceu em Porto Alegre, em 12 de junho de 1973. Formou-se em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em 2001. Durante a formação universitária, participou de atividades ligadas à comunicação e ao meio ambiente. (ihuonline.unisinos.br)
A aproximação com o movimento ambiental ocorreu na década de 1990. Em entrevista publicada pela revista Educação Ambiental em Ação, Bourscheit relata que começou, em 1995, trabalho voluntário na União Protetora do Ambiente Natural (UPAN). A entidade atuava na região do Vale do Rio dos Sinos, onde ele passou a acompanhar questões relacionadas à conservação e à recuperação ambiental. (revistaea.org)
Nos anos 2000, Bourscheit integrou o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ/RS) e trabalhou como assessor de imprensa da Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente (Abema). Em 2002, participou de debates sobre a Rio+10 e os preparativos para a conferência de Joanesburgo. (ihuonline.unisinos.br)
A carreira passou por jornais, rádios, agências de notícias, organizações não governamentais, governos e empresas. Também trabalhou no WWF-Brasil, onde atuou na área de políticas públicas. Seu percurso inclui estudos em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO). (revistaea.org, escavador.com)
A partir dos anos 2000, Bourscheit passou a publicar reportagens sobre conservação da natureza, ciência, agricultura, clima, povos indígenas, comunidades tradicionais e crimes contra a fauna. Entre os veículos com os quais colaborou estão ((o))eco, InfoAmazonia, Intercept Brasil, AgirAzul.com e outros meios de comunicação. Seu perfil no InfoAmazonia registra a cobertura de conservação, fauna, ciência e comunidades indígenas e tradicionais. (infoamazonia.org)
No ((o))eco, sua produção inclui reportagens sobre o Rio Grande do Sul. Em 2024, publicou textos sobre as enchentes que atingiram o Estado e sobre o papel da vegetação e das áreas protegidas na redução dos efeitos de eventos climáticos. (agirazul.com)
Em uma reportagem publicada em 2022, por exemplo, tratou da população de cervos-do-pantanal existente na região metropolitana de Porto Alegre, abordando a relação entre conservação de áreas úmidas, agricultura, urbanização e proteção da fauna. (ecycle.com.br)
Reconhecimento
A produção de Bourscheit recebeu prêmios e menções em concursos de jornalismo. Em 2006, recebeu o primeiro lugar na categoria Webjornalismo do 3º Prêmio Fepam de Jornalismo Ambiental, pela reportagem O rico, desconhecido e ameaçado Pampa, publicada pela EcoAgência de Notícias Ambientais. (br.linkedin.com)
Em 2007, conquistou o primeiro lugar na categoria Revista do Prêmio Bracelpa de Desenvolvimento Sustentável para Jornalistas, pela reportagem Nos porões da siderurgia, publicada na revista Com Ciência Ambiental.
No mesmo ano, recebeu menção honrosa no prêmio da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) pela reportagem Árvores para um país careca, publicada no ((o))eco. (oeco.org.br)
Em 2010, uma série de reportagens sobre os bosques de araucária da Região Sul foi classificada entre as seis produções da América Latina reconhecidas pelo Prêmio Reuters-IUCN. O registro consta do histórico profissional de Bourscheit. (br.linkedin.com)
A relação com o jornalismo ambiental
A trajetória de Aldem Bourscheit acompanha parte da formação do jornalismo sobre meio ambiente no Rio Grande do Sul. A participação no NEJ/RS, sua passagem pela UPAN e seu trabalho na Abema ocorreram em um período de formação de redes entre jornalistas, pesquisadores, organizações da sociedade civil e órgãos públicos.
A Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA) passou a reunir jornalistas envolvidos com a cobertura de questões ambientais no país. Bourscheit integra a rede e participa da Comissão de Educação e Comunicação da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). (periodicos.fundaj.gov.br, ijnet.org)
Sua trajetória registra também uma mudança no próprio campo do jornalismo sobre meio ambiente: de uma cobertura ligada a organizações e movimentos ambientais para uma produção que incorpora investigação, ciência, políticas públicas, economia e dados.
Leia também:
- Trabalhos de Aldem Bourscheit Cezarino para O Eco
- Contribuições de Aldem publicadas no AgirAzul.com
- InfoAmazonia – perfil de Aldem Bourscheit
- ((o))eco – perfil de Aldem Bourscheit
- Instituto Humanitas Unisinos – entrevista de 2002
- Revista Educação Ambiental em Ação – entrevista de 2015
- Agert – prêmio Bracelpa de 2007
- Ciência & Trópico – produção acadêmica
Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul
