O fim de invasoras: 14 mil pinus elliotti serão retirados do Parque Saint’Hilaire

Porto Alegre, RS — Em um movimento decisivo para restaurar a biodiversidade nativa dos biomas Pampa e Mata Atlântica, a Prefeitura de Porto Alegre apresentou nesta quinta-feira (7), durante a sessão ordinária do Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMAM), um projeto de larga escala para a erradicação de pinus no Parque Natural Municipal Saint-Hilaire, via a realização de um leilão de árvores em pé.

A meta estratégica é reverter o sufocamento do bioma, permitindo que espécies de campo nátivo como a Eugenia dimorpha e o Butiá retomem sua dominância natural.

Conforme apresentação realizada pelo servidor Nicolas Lucena Ventura (ver no YouTube), o  objetivo é eliminar do local os indivíduos da espécie Pinus elliottii, originária da América do Norte que, introduzida inicialmente para fins comerciais, tornou-se uma das maiores ameaças biológicas do Rio Grande do Sul. De acordo com os dados técnicos do projeto apresentados pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (SMAMUS), cerca de 14 mil pinheiros foram identificados na unidade de conservação. O impacto ambiental dessas árvores é considerado crítico: além de consumirem quantidades excessivas de água, secando o solo, a densidade de suas agulhas caídas (acículas) altera a acidez da terra e impede o crescimento de gramíneas locais, transformando campos nativos em monoculturas sem vida.

Para combater o que é considerado uma  “invasão agressiva“, a SMAMUS detalhou um edital de licitação para o leilão de madeira em pé. O projeto de extração abrange uma área de 29,2 hectares, dividida em 12 áreas menores, com um volume total estimado em 13.586,8 metros cúbicos de madeira. Avaliado em R$ 314.302,96, o leilão prevê que os recursos arrecadados retornem para melhorias no próprio parque. A meta estratégica do município é audaciosa: reduzir em 100% a presença da espécie no Parque Saint-Hilaire até o ano de 2027.

A execução do projeto ocorrerá em quatro fases rigorosas. Após o mapeamento de todos os núcleos de invasão, será realizado o corte raso (remoção total) da espécie em escala industrial. As etapas subsequentes envolvem o plantio e a reintrodução de mudas nativas, além do monitoramento constante para o controle de rebrotes. O objetivo final é reverter o sufocamento do bioma, permitindo que espécies nativas ameaçadas, como a Eugenia dimorpha (classificada como vulnerável) e o Butia odorata (em perigo), retomem sua dominância natural na paisagem.

Apesar do amplo apoio à recuperação dos territórios originais, questões importantes sobre salvaguardas ambientais foram levantadas na reunião. Após a apresentação da SMAMUS, a conselheira Lisiane Becker elogiou a iniciativa, mas expressou forte preocupação com o manejo da fauna local. Becker observou que, apesar de exóticos, os pinheiros e sua serrapilheira abrigam ninhos de aves e servem de toca para répteis, como lagartos e serpentes. Ela questionou os métodos de análise e manejo da fauna que seriam adotados para garantir a proteção e um possível remanejamento de espécies catalogadas no local. Além disso, a conselheira sugeriu que a área revitalizada seja futuramente integrada à “Rota dos Butiás”, destacando a importância de valorizar e identificar as espécies nativas que ressurgirão.

Em resposta às observações da conselheira, a equipe da SMAMUS assegurou que o ecossistema local está sendo tratado com a devida cautela. Levantamentos prévios utilizando observação direta e armadilhas fotográficas indicaram uma presença muito baixa de fauna no interior dos densos maciços de pinus. Ainda assim, protocolos rigorosos foram estabelecidos: técnicas de afugentamento de animais serão aplicadas antes do início das motosserras, e equipes de biólogos — tanto da empresa vencedora do leilão quanto da própria secretaria — monitorarão o dia a dia das operações.

A extração está programada para ser concluída em prazo de seis meses com cronograma planejado especificamente para evitar a primavera, período de nidificação das aves. Caso qualquer animal seja identificado durante a supressão das árvores, as operações serão imediatamente paralisadas para que o resgate especializado seja acionado, garantindo que o retorno às raízes do Pampa não custe a vida de seus atuais habitantes.

Brotos em desenvolvimento nos Pinus El

Rota dos Butiás – A integração do Parque Saint-Hilaire à “Rota dos Butiás” foi uma sugestão apresentada pela conselheira Lisiane Becker durante a sessão do Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMAM).  Lisiane participa do colegiado representando o CRBio – Conselho Regional de Biologia da 3a. Região. 

Foto incluída na apersentação desta quinta-feira, 7/5/2026. Butiás. Butia adorata encontrados em campo nativo do Parque Natural Municipal Saint-Hilaire – Classificação: Em Perito (EN)

A ideia surgiu em resposta às imagens apresentadas pela equipe da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (SMAMUS), que demonstraram que a retirada prévia de pinus invasores em algumas áreas do parque já permitiu a rápida recuperação dos campos nativos e o desenvolvimento de exemplares de butiá (Butia odorata), uma espécie classificada como “Em Perigo”.

Observando o ressurgimento dessa flora local, a conselheira propôs que a área do parque, que abrange territórios de Porto Alegre e Viamão, seja futuramente incorporada à “Rota dos Butiás”, caso a presença da planta se consolide no local. Ela explicou que a Rota é um projeto já existente e antigo, que teve início no Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.O principal objetivo dessa integração seria educar a população e promover o reconhecimento da biodiversidade local. Segundo a conselheira, fazer parte da rota ajudaria as pessoas a conhecerem e valorizarem as espécies nativas, evitando que confundam os butiás com outras espécies comuns de palmeiras.

COMAM Porto Alegre – A próxima reunião do colegiado será em 28/5/2025. Na pauta, um novo regimento interno cuja proposta foi distribuída aos conselheiros na reunião desta quinta-feira, 7/5.

ITAPUÃ – No Parque Estadual de Itapuã também está sendo desenvolvido projeto para o corte de árvores invasoras e plantio de mudas e implantação de um viveiro de espécies nativas. Lá serão 13 mil Pinus elliottii. AgirAzul.com fará matéria a respeito.

Redação do Jornalista João Batista Santafé Aguiar Assine o Canal do AgirAzul.com no WhatsApp – todas as notas publicadas aqui e algumas mais no seu celular. Link para contatos e envio de materiais para o AgirAzul

Editor

Jornalista, Porto Alegre, RS Brasil.

Sempre é bom ouvir você!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Next Post

Justiça Federal suspende outra vez funcionamento da usina à carvão Candiota III: licenciamento do IBAMA deverá avaliar impacto climático

sex maio 8 , 2026
Porto Alegre, RS – Em decisão proferida no dia 7 de maio de 2026, a Juíza Rafaela Santos Martins da Rosa, titular da 9ª Vara Federal de Porto Alegre, determinou a suspensão da Licença de Operação (LO) da Usina Termelétrica (UTE) Candiota III. A medida liminar foi concedida no âmbito de uma Ação Civil Pública movida pela Associação Arayara de Educação e Cultura, que denunciou um vasto histórico de infrações ambientais e a ausência de controle sobre as emissões de gases de efeito estufa pela operação da usina. A ACP tem o número 5007143-39.2025.4.04.7110/RS e sua tramitação pode ser acompanhada […]

You May Like

Descubra mais sobre AgirAzul Notícias / Jornalismo Ambiental

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading