Carlos Alberto Dayrell é Cidadão de Porto Alegre

porEditor Posted jul 25, 1998

Carlos Alberto Dayrell é Cidadão de Porto Alegre

O então estudante que salvou a Tipuana na frente da Faculdade de Direito da UFRGS, em 1975, recebeu o título de representantes da Câmara de Vereadores que foram à Faculdade de Direito. Ele não abandonou a luta ecológica.

Artigo de Roberto Villar

Carlos Alberto Dayrell recebeu o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre. Lembram dele? Na manhã do dia 25 de fevereiro de 1975, uma grande multidão se formou na frente da Faculdade de Direito da UFRGS, em uma das principais vias da cidade, a avenida João Pessoa.

Funcionários da Secretaria Municipal de Obras estavam cortando dezenas de árvores para construir o viaduto Imperatriz Leopoldina. Um estudante de engenharia elétrica, sócio da Agapan – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, subiu numa Tipuana (Tipuana tipu) para impedir o trabalho das motosserras.

Ela está lá até hoje. O protesto terminou na delegacia de polícia política. Foi notícia nos principais jornais. A foto ganhou destaque de capa no diário O Estado de São Paulo. Naquela época, impedir o corte de árvores era crime contra a segurança nacional. “De minha parte, colocaria como marco inicial de um movimento ecopolítico no Brasil o caso Carlos  Dayrell“, escreveu Alfredo Sirkis no apêndice da edição brasileira do livro Rumo ao Paraíso — A história do movimento ambientalista, de John McCormick.

Mais do que um símbolo, Dayrell é um herói sempre citado pelos ecologistas gaúchos. “O protesto do Dayrell foi o fato que mais sacudiu a opinião pública na época”, reconhece o primeiro presidente da Agapan, José Lutzenberger, atual mentor e dirigente da Fundação Gaia.

Por recomendação médica, e por receio de alguma represália por agentes do Governo, em 1976 o jovem estudante mineiro, natural de Sete Lagoas, fugiu do clima frio e úmido da capital gaúcha e voltou para Minas Gerais. Ele nunca mais foi visto em Porto Alegre. Ficaram apenas as histórias do protesto que marcou o início do movimento ecológico brasileiro.

“O protesto do Dayrell foi um marco para nós. Naquele dia, toda a imprensa do Rio Grande do Sul e do Brasil nos conheceu”, recorda o presidente da Pangea, Augusto Carneiro, fundador da Agapan, naquela época militando nesta entidade.

Dias antes do protesto, Dayrell tinha viajado para Torres com um grupo de ambientalistas da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, criada em 1971. O corte das árvores no Parque da Redenção já era assunto dos ecologistas. Carneiro recorda que numa reunião José Lutzenberger chegou a sugerir que os jovens subissem nas árvores para impedir a derrubada.

Dayrell estava presente, ouvindo com atenção. Quem mandou derrubar as árvores para construir o viaduto foi o prefeito Thompson Flores. Lutzenberger não esquece: — Ele mandou derrubar as árvores durante as férias, pensando que não iria haver estudantes lá. Esqueceu que era dia de matrícula. Surpreso, o prefeito argumentou que iria derrubar 25 árvores para melhorar o tráfego, mas estava plantando 20 mil nos bairros.

Aí, preparamos um manifesto que começava mais ou menos assim: ‘Argumentar que não tem importância derrubar 25 árvores velhas, porque estão sendo plantadas 20 mil novas, seria como dizer não importa que morra o nosso velho e sábio prefeito, estão nascendo tantos bebês’.

O atual diretor da Faculdade de Direito da Ufrgs, professor Eduardo Kroeff Carrion, conselheiro da Agapan, decidiu fazer uma homenagem a Carlos Dayrell. No dia 20 de novembro, Carrion reuniu em seu gabinete representantes de importantes entidades ecologistas de Porto Alegre — Agapan, Pangea, Coolméia, e União pela Vida, que resolveram co-organizar os eventos e solicitar ao vereador Gerson Almeida (PT) fosse encaminhado ao Dayrell o título de Cidadão de Porto Alegre.

Quase 23 anos depois, Dayrell participou de dois atos públicos no dia 28 de abril de 1998, um dia após a data do aniversário de 27 anos da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural.

Foi implantada num dos pilares da cerca da Faculdade de Direito, em frente à árvore salvada,  placa de metal para lembrar à posteridade o protesto de 1975.  Carlos Dayrell também recebeu de representantes da Câmara de Vereadores o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre, proposto por Almeida, em sessão realizada no auditório da própria Faculdade.

Carlos Alberto Dayrell foi localizado em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Está com 44 anos e três filhos. O mais velho, Luciano, com 16 anos, e a mais nova, Luana, com 10, além de sua mãe, a simpática Dona Alexandrina, também vieram à Porto Alegre.

Após o episódio, trocou a engenharia elétrica pela agronomia e está trabalhando como consultor do Centro de Agricultura Alternativa.  Nesta entrevista, Dayrell fala do seu trabalho em Minas Gerais e recorda detalhes do mais importante protesto ecológico de Porto Alegre.

O que você está fazendo em Minas Gerais?

Eu trabalho numa entidade chamada Centro de Agricultura Alternativa. É uma Organização Não—Governamental que presta assistência a pequenos produtores rurais, dentro desta proposta de desenvolver uma agricultura mais sustentável.

 Então você não abandonou a luta ecológica?

Realmente. Naquela época do protesto em Porto Alegre, era muito um sentimento que a gente tinha de preocupação com a vida. E este sentimento vem se aprofundando. Hoje, a gente tenta de outras formas, continuar esta busca por uma vida mais digna e sustentável, não só pra gente, mas para as gerações futuras.

Por que você subiu naquela árvore em 1975?

Naquela época eu morava em Porto Alegre e entrei na Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Eu morava na Casa do Estudante, na frente da Faculdade de Direito. Naquele dia eu estava saindo de casa para fazer minha matrícula na Universidade e fiquei chocado com o que vi. Um monte de árvores já no chão. Me chamou muito a atenção porque todo mundo passava indiferente. Eram árvores belas, que davam uma sombra muito agradável. Foi algo meio instintivo. Como você fez para subir tão alto naquela árvore? Eu tava na rua pensando o que fazer… aí passou um amigo meu, o Marcos Sarassol. A árvore realmente era muito alta. Os funcionários da Prefeitura estavam utilizando uma escada para cortar os galhos, e depois o tronco. Eu pedi a escada emprestada e coloquei na primeira árvore.

Quanto tempo você ficou lá em cima?

Eu nem lembro direito. Eu sei que era de manhã, pois eu iria fazer minha matrícula na Faculdade. A gente ficou lá até umas três ou quatro horas da tarde. O pessoal passava lanche pra gente. Logo uma multidão ficou em volta. Teve dois companheiros que subiram pra me apoiar, logo no começo, o Marcos e a Teresa Jardim.

Qual foi o papel da imprensa naquele episódio?

Se não fosse a imprensa naquele momento, talvez o pessoal teria derrubado a gente. Tinha jornal, televisão e rádio lá. O fato foi sendo divulgado e a população foi chegando em volta. Porto Alegre estava vivendo naquela época um processo de transformação importante. Era uma cidade que estava crescendo o número de carros, as ruas precisavam ser ampliadas. Mas havia muita preocupação com a qualidade do ambiente urbano. De certa forma, foi uma reflexão. Eu lembro que saiu muita matéria sobre a questão do desenvolvimento e da qualidade de vida.

Quanto tempo você morou em Porto Alegre?

Eu cheguei em Porto Alegre em 1970 para trabalhar no Banco Mineiro do Oeste, que depois foi comprado pelo Bradesco. Entrei na Ufrgs para estudar Engenharia Elétrica. Depois fiz novo vestibular para Agronomia. Morei em Porto Alegre até 1976. Por problema de saúde, voltei para Minas Gerais. Consegui uma transferência para a Universidade Federal de Viçosa. Me formei em Agronomia em 1980. E desde então, trabalho com agricultura alternativa, com agroecologia.

O que você faz em Montes Claros?

Atualmente eu trabalho no Centro de Agricultura Alternativa. Eu estou fazendo um curso de mestrado na Espanha, em agroecologia e desenvolvimento rural sustentado. Aqui a gente dá assistência a pequenos produtores rurais. A nossa grande preocupação aqui no norte de Minas Gerais é com o Cerrado.

 

As palavras de Dayrell

Caros Amigas e Amigos:

Eu fico aqui pensando se por acaso vocês aqui estão, vereadores da Câmara Municipal de Porto Alegre, representantes da Faculdade de Direito que está comemorando o centenário de fundação da instituição, militantes do movimento ecológico gaúcho representados pela Coolméia, Pangea, União pela Vida, Núcleo dos Ecojornalistas, Fundação Gaia e Agapan, que merece lembrar, ontem, fez 27 anos de fundação, com uma trajetória reconhecida não só aqui no Estado, mas em todo Brasil e inclusive no Exterior.

Eu fico pensando se, por acaso, vocês que aqui estão   presentes, possam ter idéia do que representa este momento para o cidadão Carlos Dayrell, um desconhecido nos sertões de Minas Gerais, que saiu de Montes Claros, no norte do Estado, um sertanejo que se define no dizer de Guimarães Rosa: “Sou só um sertanejo. Nestas altas idéias, navego mal”.

E quem é o sertanejo?

O sertanejo é um homem criado num ambiente onde o contrato natural que ele estabelece com o seu meio é mediado pelo respeito com a natureza. E pode ter sido um fragmento deste sentimento, lapidado pelo sentimento gaúcho na sua relação com a imensidão dos pampas, que fez o ainda menino mover-se por um sentimento natural, tornar-se sem saber e sem querer, através de um gesto coletivo, um símbolo de uma sociedade que se propõe estabelecer um novo contrato com o seu meio.

Pois é um destes sertanejos que está aqui nesta cerimônia, que está aqui hoje para receber o título de Cidadão de Porto Alegre onde, com muita responsabilidade e carinho, vai levar de volta para o lugar onde vive, quem sabe um elo invisível traçado hoje por vocês, um elo invisível mas permanente de amor por uma causa que é muito maior que a soma de todos nós.

Vocês não podem imaginar a emoção que isto faz comigo e na verdade é até difícil entender como hoje estou aqui nesta cerimônia. Certamente, para eu estar aqui hoje muita coisa mudou nos corações das pessoas que lidam diariamente com decisões que influenciam a vida de centenas de milhares de cidadãos. Inclusive com a minha. Muita coisa mudou pois, quando sai daqui em 1976, de volta a Minas Gerais, um ano e meio após o episódio da subida na árvore, minha mãe ainda carregava consigo a tensão de uma possível represália da ditadura militar contra o seu filho.

Episódio que compartilho com Marcos Sarassol, Teresa Jardim, com a imprensa de Porto Alegre, com os militantes da Agapan, com centenas de pessoas, estudantes populares que anonimamente lutaram naquele dia pela preservação da árvore, não se curvaram diante do aparato militar e que, de lá para cá provocaram um salto na luta pela defesa, não só das árvores isoladamente, mas em defesa da vida em seu sentido mais amplo. Esta homenagem compartilho com todos vocês.

Eu não poderia estar aqui se não fossem os ensinamentos de meus pais, que, em 1970, ainda com 17 anos, permitiram que saísse de Sete Lagoas para estudar e trabalhar em Porto Alegre.

Eu não poderia estar aqui se não fosse o carinho do meu irmão Geraldo Dayrell Filho e de toda a família Hiwatashi, ilustres horticultores de Porto Alegre, que me acolheram como membro da família, e me estimularam na profissão que segui.

Eu não poderia estar aqui se não fossem pessoas como José Lutzenberger, Augusto Carneiro, Caio Lustosa, Magda Renner, e muitos outros que colaboraram no desenvolvimento da percepção de solidariedade não só com a vida no planeta Terra de hoje, mas uma solidariedade intergeneracional, solidariedade para coma vida das gerações que estão por vir, solidariedaade para com gerações anteriores que souberam nos legar um planeta amplo de possibilidades e de potencialidades.

Solidariedade que se traduz não em grandes feitos, mas de um construir diário na busca de sociedades sustentáveis. Sociedades que incluem a intricada e maravilhosa teia de seres vivos onde suas mais de 30 milhões de diferentes espécies de seres vivos a que denominamos de biodiversidade, nos garante a possibilidade de continuidade da vida no planeta Terra.

Biodiversidade que está ameaçada pela ganância de uma economia baseada na exploração dos seres vivos (e entre eles o homem), na dilapidação dos recursos naturais, onde poucas empresas transnacionais conseguem impor os seus interesses numa escala global, corrompendo governos e legisladores. Temos exemplo no Brasil a Lei das Patentes, que se curva ao permitir a difusão de novos seres vivos criados pelo homem cujos riscos de sua manipulação na natureza ainda são desconhecidos. Biodiversidade que está ameaçada por alguns setores prepotentes ligados à ciência que avalizam sem assinar nenhuma promissória. Afinal, ao contrário dos produtos químicos, os produtos da engenharia genética não podem ser retirados do mercado. Me vem à mente a imagem do Titanic, saudados pelos setores sociais dominantes da época como insubmergível. Um iceberg o afundou. O mundo ficou perplexo. A engenharia genética está aí. Mal conhecemos a ponta deste iceberg.

Então eu me pergunto: o que podemos fazer além de homenagear as pessoas que lutam em defesa da vida em seu sentido mais amplo?

O que podemos fazer além de subir nas árvores?

(Págs. 12, 13 e 14)

porEditor Posted jul 25, 1998

Mono-Carvoeiro precisa proteção

União Internacional para a Conservação da Natureza – IUCN deve passar o muriqui da categoria “vulnerável à extinção” para a  de “criticamente  ameaçado”.

Esta foi a conclusão geral do encontro que aconteceu de 23 a 26 de maio de 1998, em Belo  Horizonte, em forma de workshop, para reavaliar o status de conservação do mono-carvoeiro ou muriqui (Brachyteles arachnoides), o maior primata americano, que vive na Mata Atlântica. O objetivo do workshop foi realizar um PHVA (análise da viabilidade populacional da espécie e do seu habitat), sugerindo medidas para sua conservação.

Participaram especialistas em muriqui de todo o país, mais representantes da  Sociedade Brasileira de Primatologia, Conservation International, União Internacional para a Conservação da Natureza – UICN (entidade com sede na Suiça que elabora os critérios e categorias de extinção: vulnerável, ameaçado, extinto, etc); a Dra. Karen Strier (University of Wisconsin, USA),  Fundação Biodiversitas e do IBAMA. O patrocínio para o encontro veio da Margot Marsh Foundation (USA).

Com a utilização do programa Vortex, que simula a possibilidade de extinção, quatro grupos de trabalho cruzaram informações sobre as populações remanescentes, a situação dos habitats, os esforços para reproduzir a espécie em cativeiro e o impacto humano nas áreas de ocorrência da espécie,foram feitas projeções sobre o comportamento das populações para os próximos 200 anos.

Concluiram que a população de Minas Gerais, a maior parte concentrada em um fragmento de mata de mil hectares, deve sobreviver sem problemas de consangüinidade durante os próximos 100 anos. A partir disto devem comecar a aparecer os problemas decorrentes do cruzamento entre parentes devido ao isolamento populacional. A taxa de desmatamento de Mata Atlântica naquele Estado é de 20 mil hectares/ano e precisa ser congelada para que os muriquis sobrevivam.

No Espírito Santo, a situação é mais grave: as populações vivem em pequenos fragmentos e não terão problemas nos próximos 50 anos. Em São Paulo, estão as últimas áreas de Mata Atlântica não fragmentadas e lá os animais devem sobreviver durante os próximos 200 anos, se o desmatamento não aumentar. Na Bahia, a espécie já foi extinta pelos desmatamentos dos últimos 20 anos.

Para evitar o desmatamento, sugeriram-se como atividades econômicas viáveis: turismo ecológico, fruticultura, psicultura, e também melhorias do sistema de plantio do café, para se coibir a utilização de novas áreas para plantio.

Deve-se  barrar o avanço da pecuária sobre a área de mata, fiscalizar pequenos desmatamentos em terrenos que serão utilizados para especulação imobiliária, que não aparecem nas fotos de satélite e hoje são os maiores  responsáveis pelo desmatamento; implementar mata-corredores entre fragmentos isolados; continuar a pesquisa sobre reprodução em cativeiro que é feita no Centro de Primatologia do RJ; e pesquisar a vida deste primata em outras regiões do Brasil.

Como conclusão geral do encontro, a IUCN deve passar o muriqui da categoria “vulnerável à  extinção” para “criticamente ameaçado”. Para o biólogo Rodrigo Cambará Printes, presente ao workshop, “devemos resgatar o muriqui como espécie-bandeira da conservação no Brasil”. (RCP/jbsa)

(Pág. 9)

porEditor Posted jul 25, 1998

O Minuto Ecológico, demagogia ou desleixo ?

Artigo de Júlio César Pereira Tomazzolli

Para manterem os índices de audiência, as redes de televisão, em especial o grupo RBS, do sul do Brasil, vem se utilizando cada vez mais da chamada mídia ecológica. Neste caso destacamos o Minuto Ecológico. Programa, ou melhor, pacote ecológico, comprado do centro do país, que vem sendo veiculado já há algum tempo nas proximidades do programa Jornal do Almoço (como diz o nome, perto do meio-dia). Em contato informal com a emissora, verifiquei que os programas vão continuar por algum tempo.

O que poderia ser, em princípio, uma boa idéia, consegue transmitir muitas informações errôneas. Para um público sedento de informações sobre o meio ambiente, principalmente o estudantil, o resultado pode ser catastrófico.

Normalmente são mostrados animais que habitam outras regiões (exemplo: Pantanal), não ocorrem aqui entre nós – fato que o programa não deixa claro para seus telespectadores. Tuiuiús, Guarás, Ibis, etc. são aves típicas do ecossistema pantaneiro; o macaco-aranha próprio das regiões tropicais e assim por diante.

Os nomes populares dos animais, que o programa aproveita, são muitas vezes regionalizados. Isto é, um determinado animal, como por exemplo, o que apresenta o nome científico Furnárius Ruffus, que vale para todo o planeta, é conhecido no Brasil, como João-de-Barro. Na Argentina e no Uruguai  ele é conhecido como Hornero. Assim poderíamos citar vários outros casos.

Há outro problema também sério: a forma ´humana´ como os animais se manifestam, com necessidades e desejos. Porque não admitir que existe em cada espécie uma forma específica de se comunicar? E que às vezes o homem não alcança os seus significados?

Devemos alertar a produção do Jornal do Almoço e aos telespectadores quanto aos erros de aprendizagem que conteúdos apresentados destas formas causam. Afinal, a RBS tem condições de sobra e qualidade nos profissionais para produzir programas regionalizados, que mostre os animais de nosso meio natural! O premiado programa Globo Ecologia poderia servir de exemplo de informação passada sem mistificação a um público maior.

*O autor é Professor de Ciências e Biologia no 2º Grau.

(Pág. 8)

porEditor Posted jul 25, 1998

A Crise da Esperança

Artigo de Rodrigo Cambará Printes

Espécies são como bandas de rock. Muitas surgem no fluxo das circunstâncias. Muitas são realmente originais e outras nem tanto. Mas poucas ficarão, porque segundo a lei da impermanência (“nada é, tudo está”), será difícil conservar uma estratégia de sucesso. Também como as bandas de rock, algumas espécies ficarão por muito tempo no topo, outras serão efêmeras e desaparecerão ainda antes de deixar qualquer registro (um CD ou um fóssil….).

A vida não é uma linha reta e o tempo é uma dimensão multidimensional. Agora é a face do tempo onde todos os outros tempos se encontram. O que somos hoje e como hoje vivemos depende dos eventos do passado; é como se hoje fosse a ponta de uma cadeia de eventos pretéritos que nos trouxeram até aqui.

Ou seja, o passado não passa. E como o futuro começa agora, então agora é o momento crítico da dimensão mutidimensional que é o tempo. Para as outras espécies que nos acompanham neste mundo também esta perspectiva temporal é válida. As que permanecem apresentam atributos desenhados no passado e terão que, com estes atributos, responder às exigências de hoje. Mas haverá sempre um atraso entre a resposta da seleção natural e as novas exigências que o ambiente impõe. Ignorando isto, o ser humano está levando muitas espécies à extinção dentro do irrisório período de tempo que corresponde a sua passagem pelo planeta.

Bem, todo mundo sabe desta última parte, mas vamos reconstituí-la historicamente. Imagine que uma série de atributos naturais de uma espécie tenha sofrido mudanças adaptativas relacionadas que conduziram esta espécie a uma situação de sucesso em seu ambiente (o que os evolucionistas chamam de suíte adaptativa), e depois a uma verdadeira predominância sobre as outras espécies.

Foi o que aconteceu desde que o gênero Homo pisou pela primeira vez o solo deste planeta, há cerca de um milhão de anos atrás. Então o macaco-de-sapatos tornou-se arrogante, e além de obter o maior pênis entre os primatas, conquistou também o maior cérebro, algo descomunal, com 1400 cm3, passando a fazer desta terra um local de conflitos. E quanto mais teve tempo para pensar, mais o macaco-de-sapatos fez coisas para melhorar seu conforto. Atingiu-se então um ponto de onde se torna difícil voltar: primeiro as tecnologias satisfaziam necessidades, depois passaram a criar novas necessidades.

E mais: Tecnologia, a Deusa do século XX, fez com que o macaco-de-sapatos passasse a negar sua própria natureza. Quanto mais tecnologia, tanto menos animal ele se sentia e hoje vive-se numa tecnocracia, com o mundo ao alcance do braço, via internet, para alguns, mas o pão longe das mãos, para a maioria. A tecnologia exagerou as diferenças individuais e sociais, agravou a distribuição desigual de renda no terceiro mundo e levou a natureza a um declínio nunca antes imaginado. Perda de florestas, poluição das águas, extinções massivas de espécies e produção exagerada de lixo são apenas alguns exemplos.

Mas a diversidade é a matéria-prima da vida e até no comportamento ela se manifesta. Graças a esta diversidade de comportamentos, há neste mundo pessoas trabalhando pela conservação da natureza. Elas batalham todos os dias quase sem apoio e reconhecimento das instituições. Conseguem no máximo sobreviver à custa de projetos ou consultorias e raramente têm um emprego fixo. Não é de impressionar que sofram crises, que se sintam sufocadas pelas pressões deste planeta tão “moderno” e que pensem às vezes que o futuro da humanidade se apresenta no mínimo obscuro.

Tal é a crise da esperança que abala ora uns ora outros entre os conservacionistas. Mas via de regra a crise da esperança é transitória. Porque assim como a vida é absurda, a energia e a vontade para defendê-la também o são. E quantas vezes nós não pudemos resolver os problemas, mas passamos por cima deles com exímia eficiência?

E quantas vezes nós triunfamos silenciosamente no nosso dia-a-dia, enquanto o inimigo pensava que vencia? Nossa vantagem é que o inimigo é míope. Esta mesma miopia que o leva a ver a natureza como um bem para o consumo imediato o trai, colocando-o a mercê dos seus próprios instintos destrutivos ….

A diferença entre o suicida e o herói é uma idéia bastante explorada pelos psicólogos. Enquanto o suicida se mata porque não vê objetivo algum a sua frente, o herói luta até a morte por um objetivo. Coletivamente, a humanidade hoje parece ter perdido seus objetivos e passado a executar um comportamento suicida em relação à utilização dos recursos naturais. Esta é uma crise de valores e não uma crise de esperança, portanto trata-se de algo muito mais difícil de ser superado.

Conseguiremos deter as extinções? Conseguiremos resolver os conflitos habitação versus conservação, uso humano da terra versus preservação dos ecossistemas? Encontraremos uma política de desenvolvimento que leve em conta a limitação imposta pelos recursos e que considere os limites naturais para o crescimento econômico? Quanto tempo ainda teremos para decidir?

O ocaso do século XX é um convite à reflexão. Ou nos reconciliamos com nossa própria natureza ou compramos a ilusão de sermos semideuses, ao custo da nossa sobrevivência. Ou partimos para o bom combate ou nos entregamos às decisões imediatistas dos fiéis seguidores do chamado “desenvolvimento” econômico e da democracia de mercado.

Jamais esperemos que alguém resolva nossos problemas. A revolução da esperança depende muito de nós. Ela precisa acontecer todos os dias e para os que nela acreditarem a única e verdadeira derrota será entregar a esperança. A esperança não é a última que morre; ela não morre, não pode morrer.

O autor é Biólogo, Pós-Graduado em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre .

(Pág. 3)

porEditor Posted jul 25, 1998

Dayrell é homenageado em Porto Alegre

Carlos Alberto Dayrell, o estudante que subiu na árvore em frente à Faculdade de Direito da UFRGS, em 1975, juntamente com Marcos Sarrassol e Teresa Jardim, foi alvo de homenagens em Porto Alegre. O mineiro, hoje agrônomo, trabalha em  Montes Claros (MG), com agricultura ecológica. A sua ação apoiada ostensivamente pela Agapan, levou José Lutzenberger a depor no DOPS defendendo o ato, e teve repercussão mundial. Contribuições de Roberto Villar e Sérgio Becker.

Matéria especial a partir da página 12.

porEditor Posted jul 25, 1998

Reflexão: Início, meio e fim.

Artigo de Lama Padma Samten (Alfredo Aveline)

A afirmação básica do pensamento ecológico é justamente a unidade intrínseca de todas as coisas, mas isto não é uma exclusividade, visto que para várias antigas e novas tradições, o universo é como um vasto organismo, no qual o mundo natural, e nele o homem, é apenas uma parte. Esta visão, em um período da antigüidade no qual o taoísmo se tornou filosofia do estado na China, chegou aos aspectos jurídicos onde os crimes e disputas passaram a ser encarados como distúrbios no relacionamento do homem com a natureza – ou em seu sentido maior, com a unidade.

No código jurídico da dinastia Tang, por exemplo, estava especificado o real perigo em substituir esta forma de análise por formas simplistas voltadas a punições. A prática jurídica deixa de ser a apuração da responsabilidade do infrator, para focar a natureza sutil da infração e sua origem. Todas as visões simplistas determinam análises incompletas, e estas análises incompletas terminam sempre na simplista delimitação de um inimigo a ser combatido.

Para os movimentos realmente pacifistas, não há inimigos a serem derrotados. Na visão de Gandhi, o importante não era combater os ingleses, mas juntos, indianos e ingleses deveriam libertar—se do fuzil que dominava a ambos: aos indianos que ficavam à frente, e aos ingleses que ficavam atrás.

As visões corretas levam a objetivos corretos e à prática correta, resultando em ganhos reais. O ponto central da luta pacifista é descobrir o ponto sensível por onde o agente de desarmonia pode transformar-se em um agente de harmonia, sem nunca vê-lo como um inimigo ou adversário. A lógica da dor e da desarmonia é que é adversária de ambos.

Todos os seres desejam a felicidade e buscam se afastar do sofrimento. Assim podemos compreender uns e outros. Quando ações muito equivocadas e danosas são feitas, isto é, sempre o resultado da perda de visão da unidade. Quando o foco mental se perde, surge a fragilidade a todo o tipo de flutuação e equívoco, e as pessoas ficam suscetíveis à manipulação. As tensões sociais e culturais são canais pelos quais são manipuladas sutilmente. É como se estivessem sob o efeito de um encanto que dá sentido a tudo e as conduz às práticas que as afastam até mesmo de seus princípios.

Assim, a população que sente os efeitos da degradação ambiental, social e de sua saúde, é a mesma que, com seus gestos, sem perceber, dá respaldo e sustentação à raiz das dificuldades. Este círculo de força afeta até mesmo os grupos que trabalham pelas transformações, e não pode ser vencido por oposição, mas apenas pela compreensão e abandono de sua lógica. Para quebrar este encanto, é necessário o esforço de eliminação de artificialidades e automatismos mentais, e isto milenariamente é conhecido como meditação: tranqüilização, prática espiritual, reencontro com a serena natureza da unidade.

Quando o príncipe Sidarta, por esta prática, tornou-se o Buda, disse: “Libertei-me daqueles que foram meus senhores por incontáveis vidas, as disposições mentais e seus agregados. Os seres se debatem como peixes em água rasa. O sofrimento existe, mas por depender de causas, pode ser eliminado e há um caminho para isso: o reconhecimento da natureza de unidade, espacialidade e luminosidade.”

No sentido budista, o caminho é a superação completa dos obstáculos à experiência de unidade, que são os automatismos mentais que conduzem às ações equivocadas que, por sua vez, produzem as condições de sofrimento. Como os automatismos e impulsos surgem de uma região interna sutil, não basta a transformação das opiniões, é necessário chegar ao coração que é onde as ações brotam, e repousá-lo na natureza da unidade. É o retornar à unidade usando a própria unidade como caminho. Não é possível chegar à unidade através de parcialidades e hostilidades.

Esta compreensão, ao ser incorporada pelos vários movimentos de transformação social e ecológica pode trazer benefícios imediatos. Em lugar de mover pessoas com o peso de angústias, as reuniões e encontros podem transformar-se em momentos de vivência profunda e compreensão.

Os encontros precedidos e encerrados por pequenos períodos de meditação, asseguram a ausência de tensão, a clareza das mentes e a experiência da unidade no coração. Eliminado o cansaço, as pessoas trabalham com alegria. Experiências mostram a facilidade e verdadeiro gosto com que todos vivem os encontros de silenciosa meditação, energia, harmonia e união. É caminho e resultado final sendo praticados juntos.

Físico de formação, o autor foi professor do Departamento de Física da UFRGS e presidente da Cooperativa Ecológica Coolméia. Em dezembro de 1996, foi ordenado por S.E. Chagdud Tulku Rinpoche como “Lama Padma Samten”, na linhagem budista tibetana Ningmapa.


Contatos em 1998:

Contatos: Centro de Estudos Budistas, rua Barão do Cerro Largo, 487, Menino Deus, Porto Alegre – RS. 233-5161 e 231-6704. E-mail: rsf10133@pro.via-rs.com.br

(Pág. 5)

porEditor Posted jul 25, 1998

A Natureza na mídia: a imagem que vende

Artigo de  Guilherme Castro

As representações da natureza na mídia, especialmente como “imagem” usada pela publicidade para vender de tênis à coca-cola. Este é o tema que a bióloga Marize Basso investigou em seu mestrado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Marize explica que para questionar as representações hegemônicas, que reproduzem relações desiguais de poder, desenvolve seu trabalho no campo dos estudos culturais. Seu objetivo é problematizar o dado como óbvio, o colocado como simples representação da verdade natural. Utiliza-se da semiótica, da filosofia e da história das ciências.

Assistindo a um comercial de TV que afirmava textualmente: “ainda bem que não somos bicho nem planta”, Marize resolveu descortinar mensagens que poderiam estar por trás desta representação. O comercial iniciava com folhas caindo das árvores e formigas indo para seus abrigos. Corta. Num ambiente interno e aconchegante, seres humanos, brancos, bonitos e alegres, se divertem. Não somos bichos, a natureza está lá fora. Como leitura Marize diz que é clara a alusão à fábula da cigarra e da formiga. Hoje, o ser humano assume o papel da cigarra, aproveitando o conforto tecnológico, que independe do clima e da natureza. A natureza é tratada como um recurso, o ser humano, não fazendo parte da natureza, é um consumidor. O consumo é associado à idéia de liberdade e conforto, de autonomia com relação à natureza.

Outro comercial lido sob esta ótica mostra bandos de animais exóticos à fauna brasileira se deslocando em seu ambiente natural, também estranho ao Brasil. Última cena: automóveis se deslocam em uma larga avenida. O destino destes bandos é aproveitar as ofertas do anunciante. Ao mostrar exemplares da natureza completamente distantes do seu público, o comercial impede qualquer interação. A natureza é idealizada: o leão, a girafa. A natureza é algo exótico. Quando mostra o bando urbano, o representante escolhido é o automóvel. O sujeito é substituído pela máquina. Assim está presente o elemento determinante de nossa cultura: a tecnologia é o que diferencia e separa o homem da natureza. Marize diz que ao escolher a imagem e o recurso técnico para a representação publicitária, faz-se uma escolha política (o carro: massa metálica, monocromática e uniforme; não humanos, pluriformes e pluricromáticos).

A tendência geral observada pela pesquisadora na utilização da natureza pela publicidade é agregar um falso valor ao produto. Uma natureza cada vez mais distante, idealizada e desconhecida ajuda a vender os mais variados produtos industriais. Por outro lado, normalmente se mostra o ambiente natural como o monótono e sem graça e o ambiente de consumo de produtos industrializados como diversificado e interessante.

Dentro desta tendência geral são desenvolvidos alguns diferentes discursos. Há o discurso da saúde, que vende cigarro associando-lhe à uma vida natural e saudável. Há o discurso do natural, que mostra o shampoo brotando da natureza. Também há o discurso tecnológico, que diz ser a natureza inferior e mostra potentes automóveis dominando terrenos selvagens. Em todos esses discursos a natureza é representada como o primitivo, o inóspito, que reforça o modelo do desenvolvimento subjugador.

O dado como óbvio, presente nas manifestações hegemônicas que representam a realidade, entra elas a publicidade, tem o ser humano como apartado da natureza, este é o senso comum.

O trabalho de mestrado de Marize Basso, que pode ser encontrado na Biblioteca da Faculdade de Educação da UFRGS, em Porto Alegre, propõe rediscutir o lugar da sociedade na natureza e o da natureza na sociedade.

O autor é jornalista.

(Pág. 8)

porEditor Posted jul 25, 1998

Invadido Parque Nacional do Iguaçu

Em reunião de 30 de junho, o Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA – aprovou moção da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza – FBCN – protestando junto ao Ministério do Meio Ambiente pela falta de medidas efetivas para a expulsão dos invasores do Parque Nacional do Iguaçu solicitando fossem tomadas com urgência as medidas necessárias para o reestabelecimento da lei e da ordem na região. A turma do sr. Eduardo Martins, presidente do IBAMA, embora prometendo ação efetiva do órgão para a retirada dos invasores, ligados ao Partido dos Trabalhadores da região, nada vez de eficaz até o momento.

O Parque Nacional de Iguaçu foi criado em 1939 e é a única área natural no Brasil a receber da UNESCO o status de Patrimônio Natural da Humanidade.

A estrada, agora reaberta, data de 1954 e foi fechada em 1986, por ordem judicial, já que se constituia em ameaça constante à integridade do Parque. A estrada liga Capanema até a BR-277. Em maio de 1997, o Parque foi invadido sem qualquer resistência física por parte dos seus guardas. E, em 11 de janeiro de 1998, os mesmos invasores, por promoção do PT da região, ocuparam-no outra vez e a estrada se encontra em pleno funcionamento, inclusive a balsa que faz a travessia do rio Iguaçu, dentro dos limites do Parque Nacional. É um escândalo que esta situação perdure (jbsa).

(Pág. 2)

 

porRedação Posted mar 9, 1992

Aparados da Serra, uma área a proteger

Por Jorge Hermann, integrante da Comissão de Defesa faz a apologia da luta

  • AgirAzul Zero / Março 1992

Aparados da Serra, majestoso santuário. Região extensa, pouco conhecida, misteriosa e bela. Seus mais de vinte cânions, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, apaixonaram um grande número de pessoas que passaram a percorrer cada meandro de sua fisionomia, uma relação íntima e intensa, um mergulho num mundo fascinante. No entanto, aquele que se apaixona pelos Aparados, leva para sempre consigo, como num encanto, uma tristeza infinita, silenciosa e incômoda. É a tristeza de quem vê o seu santuário ser destruído. Sua fisionomia original, dia a dia está sendo tomada por uma paisagem humana, desinteressante e monótona. A cobiça e a falta de visão do homem moderno estão provocando mudanças irremediáveis. As outrora abundantes florestas de araucária estão reduzidas por um desmatamento furioso, que apesar de ter praticamente dizimado os grandes exemplares de pinheiro, continua, agora, voltado para indivíduos de porte cada vez menor. Assim, além de destruir, o homem ainda consegue o feito de impedir a recuperação destas matas.

As outras formações vegetais da região, por sua vez, estão sendo vítimas de um inimigo ainda mais cruel: os reflorestamentos de Pinus elliottis. Árvore norte-americana, o pinus se adaptou formidavelmente ao nosso solo e clima. Antes tivesse sido diferente. O imediatismo dos poderosos industriais de celulose fez com que cobrissem a região com monoculturas, um verdadeiro deserto verde, completamente desprovidas de vida, uma aberração ecológica. Quem já entrou num mato de pinus sabe do que estou falando. A resina presente nas folhas impede a decomposição das mesmas e, quando no solo, formam um tapete de muitos centímetros de espessura, impedindo a germinação de outras espécies de plantas, mesmo rasteiras. O resultado disto é que nem cobras se encontram nestas plantações. Baseada numa premissa ultrapassada e equivocada de que as essências nativas não oferecem possibilidade de aproveitamento econômico, as monoculturas são símbolo de uma visão reducionista e pobre do mundo. Uma visão espiritualmente miserável que não computa os custos ambientais dos empreendimentos e que só consegue ver valor naquilo que pode ser transformado imediatamente em dinheiro. Curiosamente, esta visão, é, na verdade, um atestado de incompetência: o empobrecimento do solo, a destruição do potencial paisagístico e turístico, e o aniquilamento das matrizes genéticas que compõem a região, são atentados à nossa autonomia econômica.

Por ser uma região de clima peculiar, resultado da transição abrupta dos campos de cima da serra para a planície costeira, o que provoca uma grande precipitação anual, os Aparados oferecem condições para o surgimento de um dos fenômenos mais fascinantes da Biologia: o endemismo. É muito conhecido dentro da Biologia que ambientes com características muito peculiares podem freqüentemente abrir caminho para o surgimento de espécies com uma capacidade especial de explorá-los, o que muitas vezes significa uma existência restrita a uma pequena área. São conhecidas atualmente nos Aparados da Serra, mais de vinte espécies endêmicas, algumas confinadas numa área de poucos quilômetros quadrados. Estas plantas são especialmente interessantes do ponto de vista da preservação daquele ecossistema, pois a elucidação dos eventos que possibilitaram o seu surgimento é de grande valor para o conhecimento dos mecanismos biológicos de especiação, além de representarem indicadores da qualidade ambiental dos ecossistemas. Como vemos, por si só este potencial biológico já justificaria a preservação daquele ecossistema.

Em linhas gerais, portanto, o maior risco com que a área se defronta, é a diminuição brutal na diversidade da fauna e da flora. A diversidade é um valor intrínsico à vida, que cria relações intrincadas e fascinantes que apenas um olhar educado e sensível consegue perceber. A destruição desta biodiversidade é fruto de uma coisa: ignorância. A pobreza espiritual leva inevitavelmente ao empobrecimento dos ecossistemas.

Defender a preservação desta biodiversidade é uma obrigação daqueles que se apaixonaram pelos Aparados, seja através da educação ambiental, através do trabalho de fiscalização voluntária, denúncia, enfim, alguma coisa. A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra é um grupo de antigos freqüentadores, que há quase dois anos vem desenvolvendo um trabalho de conscientização e denúncia do que vem acontecendo nos Aparados.

Exemplo disto, é um evento chamado Arte Alerta, organizado pela Comissão, que fez um chamamento e conseguiu reunir mais de trinta artistas que se deslocaram à região e que de 5 a 26 de abril estarão expondo seus trabalhos na Usina do Gasômetro, tudo tendo como tema a preservação dos Aparados. A criação é absolutamente livre e a expectativa do resultado do trabalho destes artistas, é grande. Enfim, é mais um espaço criado para que as pessoas sensíveis reflitam sobre aquela realidade e ofereçam uma nova visão daquilo que acontece na região. Um auxílio importantíssimo.

A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra é um grupo amplamente democrático e aberto. Reúne-se às terças-feiras à noite na sede da AGAPAN (Praça Osvaldo Cruz, 15 – sala 1607 – Edifício Coliseu – tel. 228-7352). Compareça, sua presença é importante. Ser ecologista já não é um adjetivo, é hoje uma condição indispensável a toda pessoa consciente da situação.

Nota do Editor (1991): A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra ainda edita boletim informativo próprio sobre suas atividades. O de nº 3 (setembro/outubro de 1991) publica levantamento das excursões e eventos dos quais ela participou/patrocinou naquele ano e um texto de Manuel Brum sobre a estada na Serra do Rio do Rastro: a Comissão atua também pelos Aparados da Serra de Santa Catarina.

porRedação Posted mar 9, 1992

AgirAzul Zero – Apresentação

AgirAzul- Boletim Ambientalista

(Março 1992)

AgirAzul não é um jornal. Também não é revista. De confecção mais simples – não menos trabalhosa; e ao mesmo tempo mais útil para os bons militantes ambientalistas de nosso Estado, AgirAzul é um “boletim de atividades”.Com uma ou outra matéria produzida por sua própria equipe, deverá divulgar documentos produzidos por entidades e pessoas (sempre com autorização, bem claro), tudo de interesse do ativista gaúcho. O movimento ecologista do RS tem produzido textos de excelente qualidade, quase sempre destinadas a clandestinidade, somente conhecidos por aqueles que os redigiram e, quem sabe, dos respectivos destinatários. Esta produção, se mostrada e discutida, pode ter papel multiplicador da luta muito grande;

Agirazul também publicará legislação — se ela for factível, desejável ou não, não caberá ao veículo julgar.

Agirazul publicará  artigos que expressam pontos de vista interessante e originais, para nosso conhecimento, discussão e aprendizado; seção de livros,com excelentes sugestões de Augusto Carneiro; seção de Cartas (o número zero não tem, óbvio). Uma agenda informativa diferenciada citará fatos recém passados e previstos, com a liberdade de incluir-se complementação das informações em algumas linhas;

Sendo possível mostrar a realidade a partir de diversas visões de mundo, AgirAzul procurará enxergá-la sempre via ambientalistas. É uma escolha que define o conteúdo do veículo. Caso aconteça um grande desastre ecológico e nenhuma entidade/pessoa a tratar do assunto, Agirazul. provavelmente, também não trará nada a respeito – embora, sob ângulo estritamente jornalístico, seja errado;

O número zero apresenta uma grande diferença em relação às demais edições: traz pouca ou nenhuma notícia originada no Interior do Estado. Mas o Rio Grande do Sul tem entidades muito atuantes fora da Capital. A todas o espaço está à disposição para divulgar seus pleitos, posições, experiências;

Publicidade: AgirAzul aceitará publicidade de profissionais liberais e pequenas empresas ao limite de até 30% do espaço disponível. Entre em contato. É possível, também, a inclusão de malas-diretas ou outros documentos junto com o AgirAzul. Por exemplo: se uma entidade promotora de um evento quiser colocar junto ao Boletim um folheto de publicidade, é possível. Da mesma forma, pode ser distribuído cópias de documentos, etc;

AgirAzul é um projeto em franco desenvolvimento. Esta edição está impressa com corpo de letra pequeno. Se o processo industrial (composição, fotolito, gráfica) o tornar de leitura difícil, poderemos melhorá-la a partir da próxima edição. Aliás, n úmero zero é para isto. Vários testes estão sendo realizados.

Nada cai do céu. Em tudo há custos envolvidos. Não receba AgirAzul gratuitamente, colabore com suas finanças.

Finalmente, cabe afirmar que o AgirAzul poderá ligar-se, organicamente, a outro(s) projeto(s) em andamento, desde que as propostas sejam complementares. Não há o desejo de individualismos. Há a intenção de construir algo a meu ver importante: o aumento da capacidade comunicativa do ambientalista gaúcho. Somente assim teremos força para enfrentar a grande ressaca que se seguirá à realização da Conferência do Rio.

A título de editorial desta edição, cabe destacar o assunto da capa: a Consolidação das Leis Ambientais em curso, tentada pelo Governo Federal. Excelentes considerações a respeito em três artigos: da UPAN, da ADFG-Amigos da Terra e da Coordenação de Articulação Setorial da Secretaria do Meio Ambiente.  Também publicamos a Carta de Canela, em que os presidentes das Repúblicas do cone sul da América fazem coro pelo meio ambiente; o novo Código Florestal do RS; a troca carinhosa de correspondência entre Summers e Lutzenberger a respeito da exportação de empresas sujas para o Terceiro Mundo, tudo na íntegra, indicações de livros.     Sobre unidades de conservação, damos notícia sobre investimentos no Parque Nacional dos Aparados da Serra e publicamos um excelente artigo de Jorrge Hermmann. E muito mais. Bom proveito. Escreva informando sua(s) crítica(s).

porRedação Posted mar 9, 1992

Summers x Lutzenberger

AgirAzul Zero

Correspondências

Tese da Poluição transferida para o Terceiro Mundo

O Memorando

Lawrence Summers, economista-chefe do Banco Mundial, em 12 de dezembro passado (1991), enviou um memorando a alguns colegas. Eis alguns trechos do documento, publicado por The Economist, na edição de 6 de fevereiro:

Cá entre nós, não deveria o Banco Mundial estar encorajando mais migração das indústrias poluidoras para os países menos desenvolvidos ? Três razões vêm-me ao espírito:

1) A medição dos custos da poluição prejudicial à saúde depende dos ganhos auferidos com uma maior mortalidade. Levando-se em conta esse ponto de vista, uma determinada quantidade de poluição prejudicial à saúde deveria ser gerada no país com os menores salários. Eu penso que a lógica econômica por trás do despejo de um carregamento tóxico no país de menores salários é impecável e deveríamos levá-la em conta.

2) Os custos da poluição deverão ser não-lineares, já que os acréscimos iniciais de despesas com a poluição provavelmente têm um custo muito baixo. Sempre achei que os países subpovoados da África eram extremamente ´subpoluídos´; a qualidade do ar é provavelmente amplamente ineficiente baixa comparada com Los Angeles ou com a Cidade do México. Apenas os lamentáveis fatos de que tanta poluição é gerada por indústrias não-deslocáveis  (transportes, geração de eletricidade) e que os custos de transporte por unidade dos detritos sólidos sejam tão caros impedem um comércio de poluição atmosférica e lixo aumentando o bem-estar mundial.

3) A demanda por um meio ambiente limpo por razões estéticas e de saúde provavelmente terá uma grande elasticidade de ganhos. A preocupação com um agente poluidor que causa alteração de um em um milhão de probabilidades de um câncer da próstata do que em um país onde a mortalidade das crianças de até 5 anos é de duzentas por mil. Além disso, uma grande parte das preocupações com as emissões de poluentes industriais é com as partículas que dificultam a visibilidade. Essas partículas podem ter um impacto direto sobre a saúde muito pequeno. É claro que o comércio com bens que corporificam as preocupações com a poluição estética pode ser favorável ao bem-estar. Enquanto a produção é deslocável, o consumo de ar puro não é comercializável.

O problema com os argumentos contrários a todas essas propostas de mais poluição nos países menos desenvolvidos (direitos intrínsecos a certos bens, razões morais, preocupações sociais, falta de mercados adequados, etc) poderia ser invertido e usado com maior ou menor eficiência contra qualquer proposta do Banco Mundial de concessão (de verbas)”.

Lutzenberger manifesta-se

De posse de todo o documento de Summers, após ser divulgado na imprensa americana, José Lutzenberger, Secretário do Meio Ambiente brasileiro, remeteu a seguinte correspondência ao Economista-Chefe do Banco Mundial:

“It was almost a pleasant surprise to me to read reports in our  papers and then receive copy of your memorandum suporting the export of pollution tu Third World Countries and the arguments you present for justifyng it. Your reasoning is perfectly logical but totally insane. It underlines what I just wrote in a chapter on the absurdity of much of whaat goes for ´economic thinking´ today as part of a book that will be presented at the RIO-92 Conference. Your thoughts will be quoted in full in the book, as a concrete example of the unbellevable alienation, reductionist thinking, social ruthlessness and the arrogant ignorance of many conventional ´economists´ concerning the nature of the world we live in.

If it came from some insgnificant teacher in a third grade school in the backwoods it might be laughable, but coming from a Harvard professor and a man in your position it is an insult to thinking people all over the World. If the World Bank keeps you as vice presidente it will lose all credibility. To me it would confirm what I often said as an environmentalist, years ago, fighting ecologically devastating and socially disruptive World Bank ´development projects´, namely that the best thing that could happen would be for the Bank to desappear.´

(ass). José Lutzenberger

A resposta de Lawrence Summers, em 13 de fevereiro

“Dear Mr. Lutzenberger:

Your recent note to me expresses understandable outrage at the contents of my now infamous memo on toxic wastes.

As I have tried make clear in the past few days, this memo can only be fully understood in the context of internal discussions held here on a draft of our forthcoming Global Economic Prospects paper. To sharpen the analysis and clarify a rather vaghe internal discussion, this note took as narrow-minded an economic perspective as possible. Outside this context, you and other readers can and have misunderstood the memo´s intent.

Let me be very clear! The memo does not represent my view, the World Bank´s view, or that of any sane person. The Bank´s record on this topic and its strong position on numerous other environmental issues today should give you great confidence that this ridicuouos and absurd argument in no way reflects the real world of the Bank´s policies and programs.

As you must know, this has been a painful period for me. I desply regret that this has happened, and I sympathize with the concern you and others have expressede.

Sincerely, (ass) Lawrence H. Summers.

 

porRedação Posted mar 9, 1992

Aparados da Serra, uma área a proteger

por Jorge Hermann, integrante da Comissão de Defesa faz a apologia da luta

Aparados da Serra, majestoso santuário. Região extensa, pouco conhecida, misteriosa e bela. Seus mais de vinte cânions, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, apaixonaram um grande número de pessoas que passaram a percorrer cada meandro de sua fisionomia, uma relação íntima e intensa, um mergulho num mundo fascinante. No entanto, aquele que se apaixona pelos Aparados, leva para sempre consigo, como num encanto, uma tristeza infinita, silenciosa e incômoda. É a tristeza de quem vê o seu santuário ser destruído. Sua fisionomia original, dia a dia está sendo tomada por uma paisagem humana, desinteressante e monótona. A cobiça e a falta de visão do homem moderno estão provocando mudanças irremediáveis. As outrora abundantes florestas de araucária estão reduzidas por um desmatamento furioso, que apesar de ter praticamente dizimado os grandes exemplares de pinheiro, continua, agora, voltado para indivíduos de porte cada vez menor. Assim, além de destruir, o homem ainda consegue o feito de impedir a recuperação destas matas.

As outras formações vegetais da região, por sua vez, estão sendo vítimas de um inimigo ainda mais cruel: os reflorestamentos de Pinus elliottis. Árvore norte-americana, o pinus se adaptou formidavelmente ao nosso solo e clima. Antes tivesse sido diferente. O imediatismo dos poderosos industriais de celulose fez com que cobrissem a região com monoculturas, um verdadeiro deserto verde, completamente desprovidas de vida, uma aberração ecológica. Quem já entrou num mato de pinus sabe do que estou falando. A resina presente nas folhas impede a decomposição das mesmas e, quando no solo, formam um tapete de muitos centímetros de espessura, impedindo a germinação de outras espécies de plantas, mesmo rasteiras. O resultado disto é que nem cobras se encontram nestas plantações. Baseada numa premissa ultrapassada e equivocada de que as essências nativas não oferecem possibilidade de aproveitamento econômico, as monoculturas são símbolo de uma visão reducionista e pobre do mundo. Uma visão espiritualmente miserável que não computa os custos ambientais dos empreendimentos e que só consegue ver valor naquilo que pode ser transformado imediatamente em dinheiro. Curiosamente, esta visão, é, na verdade, um atestado de incompetência: o empobrecimento do solo, a destruição do potencial paisagístico e turístico, e o aniquilamento das matrizes genéticas que compõem a região, são atentados à nossa autonomia econômica.

Por ser uma região de clima peculiar, resultado da transição abrupta dos campos de cima da serra para a planície costeira, o que provoca uma grande precipitação anual, os Aparados oferecem condições para o surgimento de um dos fenômenos mais fascinantes da Biologia: o endemismo. É muito conhecido dentro da Biologia que ambientes com características muito peculiares podem freqüentemente abrir caminho para o surgimento de espécies com uma capacidade especial de explorá-los, o que muitas vezes significa uma existência restrita a uma pequena área. São conhecidas atualmente nos Aparados da Serra, mais de vinte espécies endêmicas, algumas confinadas numa área de poucos quilômetros quadrados. Estas plantas são especialmente interessantes do ponto de vista da preservação daquele ecossistema, pois a elucidação dos eventos que possibilitaram o seu surgimento é de grande valor para o conhecimento dos mecanismos biológicos de especiação, além de representarem indicadores da qualidade ambiental dos ecossistemas. Como vemos, por si só este potencial biológico já justificaria a preservação daquele ecossistema.

Em linhas gerais, portanto, o maior risco com que a área se defronta, é a diminuição brutal na diversidade da fauna e da flora. A diversidade é um valor intrínsico à vida, que cria relações intrincadas e fascinantes que apenas um olhar educado e sensível consegue perceber. A destruição desta biodiversidade é fruto de uma coisa: ignorância. A pobreza espiritual leva inevitavelmente ao empobrecimento dos ecossistemas.

Defender a preservação desta biodiversidade é uma obrigação daqueles que se apaixonaram pelos Aparados, seja através da educação ambiental, através do trabalho de fiscalização voluntária, denúncia, enfim, alguma coisa. A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra é um grupo de antigos freqüentadores, que há quase dois anos vem desenvolvendo um trabalho de conscientização e denúncia do que vem acontecendo nos Aparados.

Exemplo disto, é um evento chamado Arte Alerta, organizado pela Comissão, que fez um chamamento e conseguiu reunir mais de trinta artistas que se deslocaram à região e que de 5 a 26 de abril estarão expondo seus trabalhos na Usina do Gasômetro, tudo tendo como tema a preservação dos Aparados. A criação é absolutamente livre e a expectativa do resultado do trabalho destes artistas, é grande. Enfim, é mais um espaço criado para que as pessoas sensíveis reflitam sobre aquela realidade e ofereçam uma nova visão daquilo que acontece na região. Um auxílio importantíssimo.

A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra é um grupo amplamente democrático e aberto. Reúne-se às terças-feiras à noite na sede da AGAPAN (Praça Osvaldo Cruz, 15 – sala 1607 – Edifício Coliseu – tel. 228-7352). Compareça, sua presença é importante. Ser ecologista já não é um adjetivo, é hoje uma condição indispensável a toda pessoa consciente da situação.

Nota do Editor: A Comissão de Defesa dos Aparados da Serra ainda edita boletim informativo próprio sobre suas atividades. O de nº 3 (setembro/outubro de 1991) publica levantamento das excursões e eventos dos quais ela participou/patrocinou naquele ano e um texto de Manuel Brum sobre a estada na Serra do Rio do Rastro: a Comissão atua também pelos Aparados da Serra de Santa Catarina.